Educação, comunicação e tecnologia Joana Gonçalves
Arquiteta pela Architectural Association Graduate School, professora do Departamento de Tecnologia da FAUUSP realizou esta entrevista como parte de seu doutoramento pela mesma instituição, que inclui estágio na Architectural Association Graduate School, em Londres, no ano de 2001
Para o engenheiro alemão radicado na Inglaterra, estas são as ferramentas para a realização de edifícios sensíveis ao meio ambiente
No momento em que sociedades de diferentes culturas sofrem as conseqüências de terem contado com recursos tecnológicos de alto consumo energético para a criação de espaços climatizados artificialmente, o engenheiro especialista em climatização Klaus Bode fala à AU sobre o que ele acredita ser um edifício sensível ao meio ambiente. Klaus encara cada proposta de projeto como um desafio para a redução do impacto ambiental da arquitetura e da engenharia. O engenheiro aponta a importância da abordagem das questões ambientais globais, sem deixar de lado a satisfação do ocupante e o uso de tecnologias avançadas em um processo de projeto que integra as várias disciplinas interdependentes envolvidas na realização dos edifícios.
Klaus Bode é um dos quatro sócios da empresa de engenharia BDSP Partnership, fundada em 1995 em Londres. Antes do BDSP, Klaus trabalhou no escritório J. Roger Preston & Partners, onde participou da equipe de projeto da nova sede do Commerzbank, em Frankfurt, na Alemanha, torre aclamada como o primeiro arranha-céu "verde" do século 21. Já no BDSP, Klaus colaborou com o escritório de arquitetura Future Systems no Project ZED (Zero Emission Design - ou, em português, Desenho para Emissão Zero), financiado pela Comissão Européia, com experimentações para três cidades da Europa. Exemplos mais recentes do trabalho do BDSP incluem a Assembléia Nacional do País de Gales, com arquitetura de Richard Rogers Partnership, as análises do impacto ambiental da nova torre da empresa de seguros Swiss Re, em Londres, de Foster and Partners, e o projeto de climatização da torre Pritzker, em Chicago, Estados Unidos. Há ainda os trabalhos de pesquisa em geração de energia eólica no meio urbano, em conjunto com a Universidade de Stuttgart e apoio da Comissão Européia. Klaus Bode ainda realiza palestras regulares nos Estados Unidos e na Europa.
que você entende como arquitetura sustentável ou de baixo impacto ambiental? Um importante engenheiro de um dos maiores escritórios de consultoria de engenharia da atualidade, o Ove Arup and Partners, disse, em 1992, que o futuro da engenharia de sistemas, a que determina o clima e o ambiente interno dos edifícios, está nas mãos de complexas tecnologias avançadas, aplicadas durante o processo de projeto, e não no objeto final, isto é, o edifício propriamente dito. Ele ainda complementa essa colocação dizendo que as formas resultantes da arquitetura serão gradualmente mais influenciadas por estratégias passivas, aquelas usam o próprio clima local no processo de climatização dos espaços internos. Para mim, essa é uma definição apropriada do que é ser "inteligente" na arquitetura e na engenharia de edifícios. Tendo mencionado essa colocação, a minha definição de projeto sustentável é "alcançar mais com menos". Ou seja, você pode obter mais qualidade explorando menos recursos, ser inteligente e sustentável. E, para mim, existem duas áreas de atuação sobre a sociedade que são vitais nesse desafio: comunicação e educação.
Quais são as principais questões de sustentabilidade que devem ser consideradas nos projetos de edifícios hoje? Em relação a edifícios, o assunto "sustentabilidade" e "baixo impacto ambiental" deve se referir, antes do projeto em si, a questões sócio-econômicas da cidade, levantando as seguintes perguntas: 1- Quais oportunidades de trabalho o empreendimento pode oferecer durante e depois do processo de projeto e construção? 2- Como tal empreendimento atua sobre a vida social e econômica do entorno imediato e também da cidade? 3- Qual o impacto sobre o sistema de transporte? Devem ser consideradas as condições de acesso e a chance de redução da duração das viagens, contribuindo para minimizar congestionamentos e poluição. 4- Por fim, existem as questões de impacto ambiental referentes não apenas ao consumo de energia do edifício, mas também ao de outros recursos, como água, além das alterações do microclima local. Vale ressaltar que todos esses pontos mencionados estão relacionados aos interesses da cidade e devem, a meu ver, ser considerados por todos os integrantes da equipe de projeto ainda nas etapas de concepção.
Quais seriam os interesses da cidade? Como avaliar isso? Por exemplo, tenho visto na Espanha um grande número de empreendimentos, em geral comerciais, sendo erguidos em uma mesma área de determinadas cidades, todos com grandes espaços de estacionamento ao redor e dentro da área útil dos prédios. Fico me perguntando porque esses investidores não se organizam em um pool de negociação com a cidade para melhorar a situação do sistema público de transporte? Mas, infelizmente, empreendedores raramente se movimentam em direção a ações conjuntas. Esta atitude de proteção de interesses exclusivistas e de visão imediatista representa uma grande dificuldade na busca por cidades sustentáveis do ponto de vista social, econômico e ambiental.
E em relação ao edifício, o que precisa ser considerado? Com relação ao projeto do edifício propriamente dito, há uma série de assuntos a serem tratados na elaboração de propostas mais sensíveis ao meio ambiente, mas a questão-chave é a conservação de energia, envolvendo em primeiro lugar a redução da demanda e, em seguida, o fornecimento da energia necessária, com o mínimo impacto ambiental possível. Além da energia, certamente existem outros fatores determinantes no processo decisório de projeto, que incluem características da indústria e da cultura local - e aqui entra algo muito importante, que é o comportamento e a interação do ocupante do edifício.
Como a atitude do ocupante pode afetar o projeto? Um edifício de menor impacto ambiental terá sucesso apenas se os ocupantes fizerem sua parte interagindo com o espaço. Percebo que o fator humano é freqüentemente ignorado, quando a discussão de conforto ambiental e eficiência energética é principalmente sobre entender que somos únicos em nossa maneira de ocupar e entender o espaço, e que somos flexíveis e adaptáveis às condições do meio externo.
Mas o conforto é absolutamente subjetivo. Como conciliar economia e a percepção de cada um? De fato, assumindo a subjetividade do conforto, não se economiza tanto como se a estratégia fosse o controle feito pela automação predial total, como se fazia nas décadas de 1970 e 1980. Mas, anulando-se a participação das pessoas, a conseqüência é a insatisfação pelo simples fato de não haver o direito da escolha. Entendo que a economia de energia não se justifica se há chances de comprometimento das condições de conforto e restrição do potencial de adaptabilidade do usuário.
Então, qual a saída? Se observarmos o que foi feito no Commerzbank, por exemplo, o planejamento do ambiente é um jogo inteligente em que o sistema de automação do prédio pode desligar o resfriamento ativo se as condições externas estiverem favoráveis à ventilação natural. Porém, o mesmo sistema não abre as janelas: é decisão e iniciativa do usuário acionar a abertura das janelas ou não.
Como é o processo de trabalho do BDSP Partnership? Nossa atuação tem três fases bem simples: em primeiro lugar, tratamos de reduzir a demanda do edifício por energia. Para isso, exploramos ao máximo aspectos de projeto, como orientação, forma, distribuição dos espaços internos e etc., considerando todas as restrições decorrentes de recursos financeiros, terreno e o que mais houver. Em seguida, estudamos a possibilidade de utilização de fontes renováveis de energia, não importa que ela atenda a 100%, 5% ou zero da demanda. Por fim, resolvemos com sistemas convencionais a demanda restante, que não pode ser alimentada por recursos renováveis. É importante ressaltar que a primeira etapa é a mais importante, em especial no caso de não haver recursos renováveis.
É correto afirmar que existe hoje um modelo europeu de edifícios de escritórios? Eu não afirmaria que há um modelo europeu. Contudo, existe, sim, um conjunto de fatores que vêm modelando os edifícios na Europa, e um deles é a conservação de energia. Entretanto, embora a redução do consumo seja importante, penso que a questão final deve ser focada na emissão de CO2 (dióxido de carbono) decorrente desse consumo. Veja, é possível localizar aqui na Europa, em uma mesma cidade, dois edifícios que consomem 100 kWh/m2 por ano, mas o impacto ambiental de um deles ser duas vezes maior devido à sua fonte primária de energia. Outro fator que colabora para a formatação de um "padrão" de edifícios trata da questão de estações permanentes de trabalho, que devem estar, obrigatoriamente, próximas às janelas.
Para assegurar iluminação natural? Por isso e também porque, finalmente, foi reconhecido o direito a visuais do exterior. Aqui na Europa observamos o fim dos deep plan office (pavimentos com grandes dimensões cuja área central fica longe das janelas). Esta preocupação com a relação entre os ocupantes e o meio externo já vem sendo aplicada na Alemanha há uns dez anos. Isto significa que é possível fazer edifícios de melhor qualidade e com criatividade. Acredito que muito em breve se tornará bastante difícil justificar a necessidade do deep plan office em toda a Comunidade Européia.
O que ainda é possível fazer e quais são as expectativas para um futuro próximo? Tecnicamente, eu diria que de 10% a 15% da redução no consumo médio de energia em um edifício de escritório convencional pode ser alcançado com poucas mudanças e baixo ou nenhum investimento financeiro. Para alcançar de 20% a 30% de economia, nós começamos a entrar na esfera de intervenção no espaço físico do edifício, ou seja, a arquitetura tem que ser pensada para responder às questões de energia, conforto e impacto ambiental. Em última instância, se a meta for alcançar economias maiores de 30%, a intervenção começa a ser o que eu chamo de cultural e ocupacional, e aqui os usuários serão requisitados a interagir de maneira bastante ativa.
Então o máximo de economia possível é de 30%? Absolutamente. Podemos atingir desempenhos bem maiores se o objetivo for a emissão zero de CO2. Só que, neste caso, temos de incorporar tecnologias de geração de energia renovável. Além disso, o ideal seria que o edifício produzisse sua própria energia sem poluir. Mas penso que essa atitude deve ser tomada na escala urbana porque, se nós quisermos alcançar uma proposta financeiramente interessante de geração de energia "limpa", isso tem de ser feito de forma coletiva. Infelizmente, eu sinto que essa atitude mútua de investidores e poder público é ainda uma das coisas que faltam para chegarmos a edifícios sensíveis ao meio ambiente.
Qual tipo de energia renovável e não-poluente tem sido utilizada como opção? No panorama europeu, a energia eólica está se tornando cada vez mais comum. Mas, para tornar essa iniciativa economicamente viável, é necessário trazer as usinas para perto dos pontos de demanda, que são as próprias cidades. Assim, a melhor localização seriam as áreas urbanas, inclusive os edifícios. Nesse sentido, aqui no BDSP Partnership participamos de um projeto de pesquisa em conjunto com a Universidade de Stuttgart (na Alemanha), e com apoio da Comissão Européia, estudando a viabilidade e o potencial de integração de turbinas eólicas na estrutura física de edifícios altos, o chamado projeto WEB (Wind Energy for the Built Environment, ou, em português, Energia dos Ventos para o Ambiente Construído).
Com relação ao típico modelo do edifício de escritório construído por especulação imobiliária, quais seriam as possíveis intervenções para adaptação a uma realidade na qual os recursos de energia são escassos? Poderíamos começar pensando em medidas simples, como a organização de layouts internos que concentrem grandes cargas térmicas, como conjunto de equipamentos, em apenas uma área do edifício. É possível interferir também no projeto de iluminação, adotando baixa intensidade para o ambiente geral, complementada com pontos de luz localizados nas estações de trabalho dos usuários. Tudo isso sem alteração das fachadas.
Mas o grande consumidor de energia é o ar-condicionado... Sem dúvida. Por isso, se não for possível abrir as janelas, a tecnologia de tetos resfriados, os chamados chilled ceilings adaptados ao interior do edifício, não ocupa muito espaço e é mais eficiente como meio de resfriamento do ar do que os sistemas convencionais de ar-condicionado. Com a opção inicial pela tecnologia dos tetos resfriados, as alturas resultantes de pé-direito dentro do espaço de trabalho são significativamente maiores que as decorrentes da aplicação dos dutos de ar-condicionado.
E como essa "sobra" de pé-direito será incorporada à edificação? Esse aumento do pé-direito reflete-se diretamente na melhoria das condições de luz natural no interior do edifício. Porém, o ideal ainda seria uma intervenção nos sistemas de fachada, mesmo feitas todas aquelas alterações. E aqui também cabe o pensamento coletivo: o planejamento em conjunto de edifícios vizinhos, com a criação de uma central geradora de energia, evitaria a necessidade de boilers e chillers em cada um dos prédios, por exemplo. Como resultado teríamos menos espaço do edifício ocupado por sistemas, mais eficiência dos próprios sistemas, menor perda de energia, menos poluição, e conseqüentemente, os edifícios seriam menos caros para operar e manter - logo, mais interessantes economicamente.
No Brasil, grande parte dos empreendimentos comerciais é concebida de acordo com preceitos norte-americanos. Como você vê esse modelo? É possível compará-lo à prática européia? Na minha opinião, o modelo norte-americano está com pelo menos dez anos de atraso em relação ao europeu. Eles alegam que o mercado norte-americano não sustentaria os custos do investimento inicial. Pelo menos essa é a justificativa em 90% dos casos. Assim, entendo que os norte-americanos não vêem as vantagens de políticas de investimento a longo prazo da mesma maneira como se percebe nas principais cidades européias. O modelo norte-americano de edifícios de escritórios é mais determinado por agentes do mercado do que por qualquer outro membro da equipe de projeto. Aqui em Londres essa influência também existe, mas as pressões de arquitetos e de órgãos públicos tendem a resultar em uma realidade mais equilibrada.
Isso leva a um atraso também de know-how... Ao contrário. Os norte-americanos têm know-how para realizar edifícios de grande eficiência energética e sensíveis ao meio ambiente. O problema é que os profissionais são fortemente influenciados pelo mercado dos dias de hoje em vez de olharem para o mercado do futuro. Uma postura visionária é crucial nessa "arte" de conceber e fazer edifícios, uma vez que são projetados para viver no futuro e não apenas nos seus dias de concepção e criação. Nós temos que estar atentos para o que está vindo, e isso é uma atitude que eles definitivamente não adotam adequadamente.