Em recente entrevista à AU, o arquiteto Edson Mahfuz fez uma crítica aos exageros cometidos por uma arquitetura obrigada pelo mercado a "gritar e proclamar a alta criatividade do arquiteto". Em contraponto a essa deformação de conceitos observados com maior freqüência em obras desconstrutivistas, Mahfuz propõe uma "arquitetura silenciosa", feita de espaços "pertinentes, eficientes e calmos".
Nesta edição, destacamos duas obras que podem se encaixar nessa definição: o Hotel Fasano, de Isay Weinfeld e Marcio Kogan, e a loja multimarcas Club Chocolate, também de Isay Weinfeld, as duas em São Paulo. Idealizados para públicos de alto poder aquisitivo, os dois projetos guardam as maiores surpresas nas áreas internas. As fachadas exibem apenas bom gosto e discrição, qualidades inseparáveis, por sinal.
A Club Chocolate surge na rua Oscar Freire como uma simples empena cega, não fosse por uma única abertura ao nível do solo. Nem mesmo a vitrine se impõe a quem trafega pela via, visto que foi voltada para dentro do corredor de acesso. Em seus interiores, sim, desenvolve-se um show de criatividade na forma como foi organizado o programa e como foram aproveitados recursos como a iluminação zenital, que atinge os quatro pavimentos da loja, inclusive o primeiro nível de subsolo.
O Hotel Fasano, muito embora exiba na fachada uma dose a mais de glamour (natural em um projeto hoteleiro e que buscou recriar uma certa atmosfera da década de 30), leva também uma pitada do bom humor da dupla Kogan-Weinfeld, e ganhou o contorno escalonado dos edifícios de Metropolis e Gotham City, as cidades do Super-Homem e do Batman. Mas tudo na medida certa.
Simone Capozzi - editora
"Quando uma forma cria beleza tem na beleza sua própria justificativa" Oscar Niemeyer