Mediação entre as escalas macro e micro Subdivisão e interações dissipativas: pesquisadores defendem a capilaridade dos sistemas para articular diferentes escalas de projeto
Para intervir diretamente nas macroestruturas monolíticas do Movimento Moderno dirigimos o foco de nossa pesquisa para a utilização de técnicas variáveis de interligação e subdivisão como um modo de estabelecer uma sensível e afinada estratégia local de gerenciamento de fluxos em diferentes condições de campo. De intervenções urbanas de grande escala até a produção das superfícies internas de um estúdio musical, concebemos ambientes como paisagens ou condições de campo em que é nossa intenção estruturar uma refinada transferência ramificada e múltipla de diferentes tipos de forças, da movimentação das pessoas e das cargas estruturais à transmissão de luz e som.
De um certo modo, cidades globais como São Paulo e Nova York têm sido castigadas por sistemas urbanos obsoletos desenvolvidos durante o Movimento Moderno. Entre esses sistemas podemos citar as divisões de macrozoneamento e as redes de avenidas elevadas que caracterizam a separação estriada entre os diferentes programas de edificação, fluxos de circulação e sistemas paisagísticos. Essa estratégia da grande escala ortogonal organizadora privilegia conexões "expressas", isto é, vias de alta velocidade comunicando as diferentes macrozonas da cidade em detrimento de interligações e uso misto - vitais para a vida dos espaços públicos.
Em certas áreas, essa situação tem criado uma condição homogênea, eliminando a complexidade da paisagem urbana. Os resultados freqüentes são áreas degradadas e com valor imobiliário diluído pela simples interrupção da distribuição dos diferentes fluxos de atividade necessários para animar a cidade.
Em vez de empregar a noção modernista de definir paisagem como um campo separado, ou simplesmente um fundo pastoral entre os sistemas viários e os edifícios, nossa pesquisa tem uma abordagem focada na integração e na performance na tentativa de criar uma fusão harmoniosa entre arquitetura, paisagismo e infra-estrutura na metrópole moderna.
Em contraste com os sistemas urbanos individuais promovidos pelos planejadores modernos, outros movimentos alternativos e políticas urbanas têm especulado a interligação entre a condição da esfera pública urbana e as intervenções figurativas dos projetos de arquitetura. Sanford Kwinter observa, por exemplo, que a escultura do artista futurista Boccioni, Formas Únicas da Continuidade do Espaço, assim como os desenhos do arquiteto Sant'Elias para La Cittá Nuova retratam "o desenho surgido da base para envolver a figura".
Os desenhos de Saint'Elia representam um sistema refinado de aparatos arquitetônicos e de infra-estrutura urbana, como elevadores, encanamentos, ruas, linhas de trem e pistas de aterrissagem, que eram fragmentadas e multiplicadas para abranger e conectar os edifícios da cidade em uma microrrede complexa. Em Architectures of Time (MIT Press, 2001), Kwinter escreve que gerações de críticos têm interpretado as culturas modernistas como uma resistência específica à ameaça de uma dissolução da figura no terreno da paisagem urbana contemporânea. De uma maneira similar, nossa pesquisa trabalha em escalas múltiplas com ênfase nas microinterfaces estruturadas que unem, subdividem e mediam as macroestruturas do ambiente urbano.
Assim, investigamos maneiras de produzir um tecido urbano mais diverso e heterogêneo, que permita uma distribuição mais equilibrada das forças na cidade ao criar um tipo de intermodalidade dentro do ambiente estriado urbano. O foco do nosso trabalho tem sido a utilização de um modelo de subdivisão paramétrica de microrredes que permita uma dissipação mais fluida de diferentes fluxos de atividade na cidade e no ambiente construído.
Mediação entre as escalas múltiplas de interligação
Interligação multiescalar das linhas de forças e separatrizes
Tanto em nosso estúdio como na pesquisa acadêmica realizada com os estudantes da faculdade de arquitetura da Universidade de Columbia e do Pratt Institute, ambos em Nova York, exploramos a produção de novas interligações usando técnicas de rede de malha e curva. Greg Lynn, titular do escritório Form e apontado pela revista Time como um dos cem inovadores do século 21, afirma que as superfícies topológicas que caracterizam o design contemporâneo, baseado no cálculo, são malhas produzidas por redes de curvas ou separatrizes. Uma separatriz é uma curva, ainda que reta, que tanto une quanto divide dois sistemas díspares. Lynn coloca ainda que existem continuidades e variações diferenciais que se tornam possíveis quando as separatrizes abarcam diferentes questões sociais, materiais e contextuais.
Mais além, as curvas da malha podem ser comparadas com as "linhas de força" que Sanford Kwinter observa nos componentes da infra-estrutura articulada dos desenhos de La Cittá Nuova de Sant'Elias, em que as linhas servem apenas como "unidades individuais e meras operadoras ou dispositivos de comunicação em uma configuração bem maior, cuja intensidade modulam e controlam.
A intermodalidade em nosso trabalho é gerada pela subdivisão, uma técnica de modelagem digital algorítmica que produz interfaces planas do ponto de vista topológico a partir da seqüência de sucessivas malhas poliédricas. Por meio de um conjunto específico de operações bifurcadoras, novos vértices podem ser adicionados às malhas existentes e conectados a outros vértices também existentes para criar novas interfaces.
Para intervir em organizações ortogonais de estrutura rígida, como aquelas usadas na construção a partir de vigas e colunas ou nos arranjos cartesianos das redes viárias modernas, desenvolvemos estruturas com cargas leves de superfícies entrelaçadas.
A especulação sobre a transferência de forças e cargas em sistemas urbanos configurados como malhas inter-relacionadas com contínua distribuição de forças foi estabelecida por uma investigação dos princípios contemporâneos de microestruturas geodésicas e formações funiculares. Assim como esses sistemas estruturais são capazes de transmitir e equilibrar com eficiência cargas laterais e cruzadas, seja em grupos celulares ou em estruturas de edifícios, nossa proposta é que poderiam também ser usados como um modelo analógico de engenharia para a mediação de forças que concorrem no ambiente urbano, a partir de uma intrincada série de múltiplas configurações poliédricas minituarizadas em vários graus de resolução e escala.
As primeiras formas de subdivisão foram manifestadas nos arborizados bulevares diagonais de Hausman, em Paris, e no plano urbanístico de L'Enfant para Washington. Essas formas de subdivisão não só inauguram um sistema de "próteses naturais" dentro das cidades, inexistente antes da Revolução Industrial, mas também demonstraram uma precoce inclinação para o uso de modelos biológicos de intercâmbio e montagem.
Maya 9 mesh: estudos de tranferência refinada
Plano de L'Enfant para Washington D.C., e de Hausmann para Paris