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Tecnologia & Materiais


Entre o claro e o escuro
Lighting Designers associam arte a fundamentos ópticos e produzem mais do que
ambientes bem iluminados: valorizam a arquitetura e alteram atmosferas


Texto original de Juliana Nakamura


A teoria óptica já comprovou que ao observamos os objetos, na verdade vemos a luz refletida neles. É a luz, portanto, que permite a leitura plástica de um espaço e, por isso, tanto quanto os demais elementos arquitetônicos, exerce influência sobre as respostas emocionais de seus ocupantes. "Arquitetura é altura, largura, profundidade e luz", define o arquiteto Fernando Guarnieri, "sem essa quarta dimensão perde-se a noção total do espaço", completa.

Essa "quarta dimensão" pode ser empregada com diferentes objetivos. A luz de trabalho, por exemplo, provê quantidade de iluminação suficiente para a prática de determinada atividade, enquanto a luz de destaque é utilizada para ressaltar um objeto ou elemento arquitetônico. A intenção, segundo revela a arquiteta e consultora de iluminação Esther Stiller, sempre é a de atender às necessidades físicas e psicológicas dos usuários, adequando eventuais particularidades e limitações do lugar convenientemente.

Para isso, a luminotecnia se baseia em princípios físicos e subjetivos. O arquiteto Guinter Parschalk explica que, uma vez identificado o plano de trabalho a ser iluminado, o projeto deve partir para a análise de fatores humanos, ou seja, quem irá utilizar aquele local e para que tipo de atividade são perguntas que precisam ser respondidas logo no início. "Cada aplicação requer um sistema de iluminação com características de qualidade de luz diferentes.

Certas aplicações exigem sistemas com alto grau de controle de ofuscamento e eficiência, como escritórios, em outros casos o importante é criar efeitos e ambiências diferenciadas", exemplifica o engenheiro e lighting designer Plínio Godoy. "A luz como componente da arquitetura causa uma empatia", resume Parschalk. É por isso que uma loja de artigos esportivos deve ser clara e uma butique de artigos terapêuticos e cromoterapia não pode ter uma luz branca dura e exagerada.

É importante, ainda, que o projeto luminotécnico seja coerente com a arquitetura do edifício. "A consciente utilização de luz natural e artificial envolvida na concepção do ambiente faz muita diferença na qualidade final da arquitetura", ressalta Guarnieri. "Sem a consistência de linguagem entre arquitetura e iluminação, corre-se o risco de não valorizar os aspectos mais marcantes do design, ou até de enfatizar os mais irrelevantes", complementa Gilberto Franco.

Conforto e equilíbrio

Uma vez compreendido o espaço, parte-se para a definição da luz desejada e das questões relacionadas à quantidade, níveis e qualidade de iluminação, fator esse que abrange brilho, contraste, refletância e cor. Diversas grandezas ópticas são, então, analisadas e compatibilizadas. Uma delas é o nível de iluminância. Expresso em lux (lx), o nível de iluminância relaciona a luz irradiada por uma lâmpada à superfície sobre a qual incide.

Via de regra, quanto maior a exigência visual da atividade, maior deverá ser o valor da iluminância média sobre o plano de trabalho. Em áreas onde são realizados trabalhos visuais contínuos e precisos, como elaboração de desenhos, por exemplo, a NBR 5413 recomenda iluminamentos entre 1.000 e 2.000 lux. Já em salas de aula, esses valores caem para 250 a 500 lux.
A especificação da luminária também precisa estar em consonância com as demandas do local. Em geral, abajures, pendentes, arandelas, plafons e luminárias de pé são usados quando se deseja uma luz difusa. Quando a finalidade é obter uma luz direcionada recorre-se a spots, luminárias de pé, de embutir no forro, de mesa e embutidas no solo. Nesses casos, dependendo do formato do difusor, o facho luminoso pode ser direcionado para diferentes ângulos.

Como tudo o que envolve arquitetura, também em luminotécnica a palavra de ordem é equilíbrio. Diferenças acentuadas entre claro e escuro causam fadiga visual porque a visão fica em um constante trabalho de adaptação à claridade. Por outro lado, acredita-se que contrastes intensos produzam tensão e drama, enquanto luz suave e cores pastéis proporcionem relaxamento. "Só que os dois tratamentos quando levados aos extremos geram apenas cansaço e aborrecimento", alerta Guarnieri.

Pelo mesmo motivo - a preservação do conforto - o ofuscamento exige controle. Para isso, os projetistas podem se valer de uma série de recursos, desde simples ajustes na angulação da luminária e redução da luminância da fonte de luz, até a inserção de elementos rebatedores. Um exemplo é o sistema de iluminação por reflexão secundária planejado por Guinter Parschalk para a piscina da academia Rebook Sports Club, em São Paulo.

O arquiteto conta que duas realidades permearam o projeto, a primeira delas relacionada ao uso do local. "Em trabalhos desse tipo é preciso considerar que muitas pessoas nadam de costas, olhando constantemente para cima. Além disso, a cobertura retrátil de metal e vidro impedia a colocação de uma luminária normal", explica. Parschalk resolveu o problema com a instalação de refletores sobre os dutos de ar-condicionado e dirigindo seu facho de luz para placas de células de alumínio, de 70 cm x 70 cm, colocadas na parte fixa da cobertura. Dessa forma, a luz não incide diretamente sobre a piscina.

Outro conceito que influencia os projetos de iluminação e determina a escolha das lâmpadas é a temperatura de cor. Medida em Kelvin (K), essa grandeza expressa a cor da luz e se relaciona com o aspecto do metal quando aquecido: uma barra de ferro submetida ao fogo adquire uma cor vermelha que vai se tornando alaranjada até ficar branca de acordo com o aumento de sua temperatura. Assim, quanto mais alta a temperatura de cor de uma lâmpada, mais branca é a sua luz. A diferença está no efeito provocado no ambiente, porque uma lâmpada de temperatura de cor de 2.700 K produz luz amarela, "quente", enquanto uma de 7.000 K emite luz branca e "fria".

A temperatura de cor é responsável também pelos efeitos psicológicos que a luz provoca nas pessoas. De acordo com a arquiteta e lighting designer Neide Senzi, isso ocorre em vista das respostas emocionais do ser humano à luz natural. "Por estar associada à luminosidade do meio-dia, a luz branca azulada induz a uma maior atividade, sendo indicada para áreas de serviços, academias de ginástica e escritórios. Já a luz amarelada assemelha-se a um fim de tarde e é mais apropriada para locais como salas de estar e restaurantes, que necessitam transmitir sensação de conforto e aconchego."

No entanto, de pouco vale uma lâmpada com temperatura de cor adequada se sua fidelidade de representar as cores for baixa. Em luminotécnica, o que mede essa propriedade é o Índice de Reprodução de Cor (IRC). Registrado em uma escala de 0 a 100, quanto mais alto o índice, mais precisa é a cor que a fonte luminosa permite enxergar - o 100 é atribuído à luz solar. Portanto, se em um provador de loja forem utilizadas lâmpadas com baixo IRC, os tecidos, inclusive a pele do cliente, apresentarão tonalidades distintas da real.


A boa notícia é que hoje a maior parte das lâmpadas apresenta IRC acima de 85, permitindo que atendam às necessidades médias dos ambientes. "Além disso, como nosso olho é incapaz de notar diferenças pequenas de tonalidade, apenas em casos especiais, como na área de artes gráficas e em galerias de arte, pode ser necessário IRC 100", esclarece Neide Senzi.

O lighting designer Ricardo Sobreira alerta ainda que, além da qualidade e da quantidade da luz, é preciso considerar se a forma de operação é apropriada para determinada aplicação. "É isso, principalmente, que inviabiliza o uso de lâmpadas de descarga em residências, embora sejam bastante eficientes", exemplifica.
Eficiência energética (lm/W) por tipo de lâmpada
Fonte: Osram

Época de racionalização

Acompanhando o aumento da preocupação com os recursos energéticos, cada vez mais a indústria oferece lâmpadas, luminárias e equipamentos auxiliares (como dimmers e reatores), que aproveitam melhor a energia consumida. Muitos projetos vêm seguindo essa tendência, como o Parque da Juventude construído em uma área ocupada, até 2002, pela Casa de Detenção do Carandiru, na capital paulista. "Como se trata de um empreendimento público, considerei os custos de manutenção como premissa primordial", conta Neide Senzi. No local, foram empregadas principalmente lâmpadas de vapor de sódio em potências de 70 W, 250 W e 400 W, que são as de maior eficiência e vida útil, assim como lâmpadas de vapor metálico de 70 W, também de alta eficiência.

Equipamentos de melhor rendimento, entretanto, não bastam para garantir melhor aproveitamento energético. É preciso associar produtos e soluções de forma inteligente. "A quantificação de luminárias, o cálculo de potência das lâmpadas de acordo com o pé-direito e outras características do local, assim como o correto posicionamento dos pontos de controle, são igualmente fundamentais para promover economia e racionalização."

Esse é, aliás, um dos desafios impostos aos projetos de luminotecnia. Se no passado o trabalho se restringia a uma ou duas fontes luminosas pendendo do forro no centro do ambiente, hoje a diversidade de soluções é grande, com muitos tipos de lâmpadas e equipamentos. "As opções são tantas que demandam o trabalho de um profissional capacitado para especificar a melhor solução. Primeiro é preciso conhecer a técnica para depois tirar proveito do efeito", conclui Neide Senzi.



Reflexão secundária
Na Reebok Sports Club, em São Paulo, havia dois problemas para Guinter Parschalk resolver: a luz não podia incidir diretamente sobre a piscina e a cobertura é retrátil, o que impede o uso de luminárias comuns. A solução
do projetista foi empregar o sistema de iluminação por reflexão secundária. Para isso, instalou refletores sobre os dutos de ar-condicionado e dirigiu
seus fachos de luz para placas de células de alumínio colocadas na parte fixa da cobertura







Destaque geral
Ainda em processo de restauro e requalificação, aos cuidados de Pedro e Paulo Mendes da Rocha, a Estação da Luz, no Centro de São Paulo, já tem suas fachadas iluminadas. O projeto de luminotecnia, elaborado por Franco & Fortes Lighting Design, tratou de iluminar o edifício como um todo, destacando seus aspectos mais marcantes, com focos de luz dirigidos às janelas, às mansardas e à torre do relógio












Cenários diferenciados
Para conferir maior dinamismo na leitura do espaço e garantir o conforto e a segurança dos usuários, o projeto do escritório G. Kalili & Freitas para a remodelação do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, apostou na iluminação diferenciada por setores. Assim, áreas de espera e descanso ganharam uma iluminação indireta, com a implantação de cúpulas de alumínio branco justapostas à estrutura da edificação. Nas áreas de passagem e comerciais, sancas foram acrescentadas à iluminação indireta. Para maior destaque, o hall dos elevadores recebeu forro redondo com iluminação direta





Eficiência energética
No Parque da Juventude, implantado na área da extinta Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo, Neide Senzi tomou os custos de manutenção como premissa primordial. Assim, empregou lâmpadas de maior eficiência e vida útil, em especial as de vapor de sódio em potências de 70 W, 250 W e 400 W.
Também foram utilizadas lâmpadas de vapor metálico de 70 W, igualmente consideradas de alta eficiência











Equilíbrio emocional
Para Fernando Guarnieri, arquitetura é "altura, largura, profundidade e luz". Autor de inúmeros projetos, o lighting designer diz que contrastes de claro-escuro imprimem dramaticidade à atmosfera, mas podem causar fadiga visual, enquanto o uso de tonalidades pastéis, se não bem dosado, tornam o ambiente monótono. O ideal é encontrar um equilíbrio entre os dois extremos e equipar o local para oferecer mais de uma opção





Glossário luminotécnico


Candela (cd) - unidade internacional de intensidade luminosa.

Candlepower (CP) - intensidade luminosa expressa em candelas.
Os gráficos de candlepower ou curvas de intensidade luminosa são utilizados para indicar as características de distribuição da intensidade luminosa das lâmpadas do tipo refletoras.

Eficiência da luminária - a razão entre os lumens emitidos
por uma luminária divididos pelos lumens emitidos pela lâmpada
ou lâmpadas em uso.

Eficiência luminosa - é o fluxo luminoso (lumens) de uma fonte de luz dividido pela energia total (watt) consumida por aquela fonte. É expressa em lumens por watts.

Espectro de radiação visível - é uma faixa de radiação eletromagnética com comprimento de onda entre 380 e 780 nanômetros, ou seja, da cor ultravioleta à vermelha, passando pelo azul, verde, amarelo e roxo. As cores azul, vermelho e verde, quando somadas em quantias iguais, definem o aspecto da luz branca. Espectros contínuos ou descontínuos resultam em fonte de luz com presença de comprimentos de ondas de cores distintas. Cada fonte de luz tem, portanto, um aspecto de radiação próprio que lhe confere características e qualidades específicas.

Footcandle (fc) - unidade usada para medir a quantidade total de luz que atinge uma superfície. Um lúmen incidindo sobre uma superfície de um pé quadrado produz a iluminância de um footcandle. Um footcandle é igual a 10,76 lux.

Fluxo Luminoso (lm) - é a potência
de radiação total emitida por uma fonte de luz e avaliada pelo olho humano.
Sua unidade é o lúmen (lm).

Iluminância (E) - expressa em lux (lx), indica o fluxo luminoso de uma fonte
de luz que incide sobre uma superfície situada a uma certa distância. É a relação entre intensidade luminosa e o quadrado da distância (lm/d2). Na prática, é a quantidade de luz dentro de um ambiente, que pode ser medida com o auxílio de um luxímetro. Para obter conforto visual, considerando a atividade que se realiza, são necessários certos níveis de iluminância médios recomendados por normas técnicas.

Índice de Reprodução de Cor (IRC) - sistema internacional que utiliza uma escala de 0 a 100 para avaliar a capacidade da lâmpada para representar as cores dos objetos. Quanto mais alto o IRC, melhor aparecem as cores. As classificações IRC de lâmpadas diversas podem ser comparadas. Contudo, uma comparação numérica somente é válida se as lâmpadas são também avaliadas quanto à mesma cromaticidade. As diferenças de IRC entre lâmpadas de maneira geral não são significativas, ou seja, são imperceptíveis a olho nu, a menos
que a diferença seja maior que três a cinco pontos.

Lúmen (lm) - unidade internacional do fluxo luminoso ou quantidade
de luz. Uma vela emite cerca de 12 lumens. Uma lâmpada incandescente do tipo cristal de 60 W produz cerca de 864 lumens.

Luminância - medida da sensação de claridade que o olho humano percebe da superfície. A luminância depende das dimensões aparentes da superfície, dada pelo ângulo de observador, e da intensidade luminosa emitida pela superfície na direção do olho. Sua unidade é a candela por metro quadrado (cd/m²).

Lux (lx) - unidade internacional
de iluminação, é definida como um lúmen uniformemente distribuído por uma área de um metro quadrado.

Temperatura de Cor - é a grandeza que expressa a aparência de cor da luz, medida em Kelvin (K). Quanto mais alta a temperatura de cor, mais branca é a luz. A luz "quente" é amarelada e tem baixa temperatura de cor, menor que 3.000 K. A luz "fria", ao contrário, tem aparência azul-violeta e temperatura de cor elevada, superior a 6.000 K.
A temperatura da luz do sol, em céu aberto e ao meio-dia, é de 5.800 K.
 
   
 
 
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