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Tecnologia & Materiais


Sob o céu que nos protege
Coberturas translúcidas requerem cuidados de projeto para evitar o efeito estufa e desconforto visual

Texto original de Valentina Figuerola


Ao trazerem luz natural para o interior dos edifícios, as coberturas transparentes embelezam os espaços e reduzem os gastos com o consumo de energia elétrica. No entanto, ao adotar o vidro e o policarbonato no topo das construções, o profissional precisa ser assessorado ou conhecer bem o comportamento desses materiais e suas propriedades.

Diferente de uma fachada, que é exposta aos raios solares apenas durante um determinado período do dia, uma cobertura recebe radiações intensas enquanto houver sol. O efeito estufa, causado pelo acúmulo de energia térmica no interior das edificações, pode ser evitado pela especificação correta dos produtos e a utilização de recursos como películas de controle solar, que também eliminam o ofuscamento.

Para Paulo Duarte, arquiteto e consultor de fachadas e coberturas, num país como o Brasil, o ideal é que a vedação zenital seja constituída por um material que deixe passar os espectros visíveis da luz - desde que sem provocar o ofuscamento - e, ao mesmo tempo, barre os raios ultravioleta (UV) e infravermelho. "Alguns vidros, conhecidos como low-e, ou vidros de baixa emissividade, refletem bastante o calor sem prejudicar a entrada de luz", explica Duarte. "Atualmente, também existem películas low-e", complementa.

O consultor explica ainda que para evitar o excesso de luminosidade deve-se usar a refletividade. A solução tem como fim resolver o problema de radiação, refletir calor para fora e proporcionar um nível confortável de iluminação, evitando o efeito estufa. "Para isso, é preciso fazer a aplicação de um coating, ou seja, formar um depósito de óxidos metálicos na superfície do vidro", explica o arquiteto, que também aponta as películas refletivas como solução. Uma medida de reflexão padrão está em torno de 7% a 8%. No entanto, algumas situações requerem até 20%. Porém, é necessário ter cuidado, pois um ambiente com luz insuficiente é depressivo. "Começa a ficar depressivo quando recebe menos de 25% de luz solar", adverte Duarte.

Os arquitetos da Obayashi Corporation criaram em Nagoya, Japão, o Oasis 21. A obra possui um lago suspenso envolto por uma cobertura de vidro sobre a qual é possível caminhar. Toda a superfície de vidro foi tratada com PVB Saflex Verde, película para vidros da Solutia


Vidro ou policarbonato?
Composto basicamente por areia derretida (sílica) e componentes que aumentam sua resistência mecânica e química contra esforços e intempéries, o vidro é classificado segundo a segurança, isolamento acústico, resistência e controle solar que proporciona. "Outros materiais podem substituir o vidro no que se refere à transparência, mas nunca com relação à durabilidade", afirma Ricardo Macedo, diretor da Engevidros, empresa especializada em projetos com vidros.

Em contrapartida, o policarbonato - material composto por uma resina resultante da reação entre derivados do ácido carbônico e o bisfenol - apresenta algumas vantagens com relação ao vidro. Além de poder ser curvado a frio, possui, segundo os fabricantes, resistência a impactos cerca de 250 superior. Suas juntas também são mais simples do que as do vidro que, por não tolerar o contato direto com o metal, ou mesmo com outra lâmina, exige a atuação de componentes elásticos de transição, como o silicone de vedação.

No entanto, o policarbonato possui um coeficiente de dilatação térmica linear maior do que o vidro. "Uma forma de minimizar a dilatação é utilizar o policarbonato incolor, que esquenta menos do que o colorido", explica Paulo Duarte. Se as fixações não forem bem estudadas, a dilatação deforma o material, rompe as fixações e podem até acontecer trincas. Como é um material de uso fácil, muitos construtores não tomam as devidas precauções na hora da execução.

Com relação ao sistema de fixação, o vidro pode ser encaixilhado com perfis de alumínio, baguete e presilhas, ou simplesmente colado na estrutura com silicone estrutural, num sistema conhecido como glazing. "Por ser mais pesado, o vidro necessita de uma estrutura de apoio mais reforçada do que materiais como o policarbonato e o acrílico", compara Ricardo Macedo.
O policarbonato é comercializado em chapas compactas e alveolares. Por possuir moléculas mais suscetíveis à oxidação provocada pelos raios ultravioleta, o material requer tratamento especial para não amarelar ou mudar de cor rapidamente, processos que acarretam perda de transmissão luminosa. "Sua resistência à abrasão também é inferior à do vidro", diz Duarte.
VIDRO


Fábrica da Cebrace, Barra Velha, SC
Projeto:
Andrade Rezende
Instalação: Engevidros
Vidros: Blindex

Nessa fábrica, painéis de vidros temperados, laminados e autoportantes foram pendurados em peças de aço inox conhecidas como "aranhas" ou sistema spider, fixações pontuais articuladas, desenvolvidas para formar uma cobertura com o mínimo de estrutura. Conhecida como lençol de vidro, a cobertura de 252 m² é composta por quatro grandes arcos metálicos que suportam 112 placas de vidro medindo 1,875 m por 1,20 m. Cabos de aço e tirantes sustentam as "aranhas" que, por sua vez, suportam os painéis.

Todas as peças que compõem o lençol de vidro foram desenvolvidas no Brasil
e aprovadas pela empresa inglesa Pilkington, que detém essa tecnologia no exterior. Apesar de o sistema empregado ter sido criado especialmente para essa obra, foi padronizado para poder ser aplicado em outros empreendimentos. Segundo a norma NBR 7199 - Projeto, Execução e Aplicação de Vidros na Construção, apenas os vidros de segurança, aramados e laminados podem ser utilizados em coberturas. No caso de quebra, vidros comuns (recozidos) e temperados soltam estilhaços e pedaços que podem causar acidentes, o que os tornam inadequados para tal finalidade.
SEGURANÇA E CONFORTO

O vidro laminado é formado por uma ou mais lâminas do material intercaladas por película de polivinil butiral (PVB). Um dos grandes méritos desse tipo de vidro é que eles não se estilhaçam em caso de quebra: os fragmentos permanecem presos ao filme de PVB. Outra propriedade conferida ao produto pela película é a de filtrar a radiação ultravioleta do sol. Segundo Luciano Arruda, gerente comercial da Solutia, que comercializa as marcas Saflex e Vanceva, as películas são capazes de conter até 99,6% dos raios UV.

Ao contrário do laminado, o vidro temperado não atende às normas da ABNT para uso em coberturas. Nesses casos, recomenda-se a aplicação de uma película de segurança de poliéster na superfície do material. "Assim, se o vidro quebrar, o filme retém os estilhaços, mantém a integridade do vão e de quem estiver por perto", explica Celso Procknor Filho, representante de serviços técnicos da LLumar.

Procknor diz ainda que as películas não são indicadas para aplicação com policarbonato, pois os materiais têm coeficientes de dilatação incompatíveis. "Essa diferença provoca o surgimento de bolhas na superfície", avisa. Aplicada na face interna da cobertura de vidro, a película de segurança deve ser ancorada no caixilho para que, em caso de quebra, não despenque junto com o vidro.

O ancoramento pode ser feito com silicone estrutural ou perfis metálicos. Elvira Neves, supervisora de serviços técnicos da Solutia, aponta ainda outro interessante efeito proporcionado pelas películas: o decorativo.

Tanto os filmes de PVB como os de poliéster já são produzidos com diferentes cores, padrões e efeitos. "Também é possível combinar os padrões com as cores", diz. A novidade, segundo ela, são as películas Vanceva Image, que admitem qualquer tipo de imagem impressa, como fotos e desenhos. "Esse produto também atua na segurança e no controle solar", finaliza.

POLICARBONATO


Faculdade de Odontologia da Unoesc, em Joaçaba, SC
Projeto:
arquiteto Sérgio Estares e engenheiro Sadi Zago
Instalação: Portinari Decor
Material: policarbonato Lexan Thermoclear (6 mm) e alveolar Opal (6 mm)

Depois da reforma, a faculdade ganhou uma cúpula em policarbonato, material escolhido por proporcionar leveza e um bom aproveitamento da luz natural nos espaços internos, que se tornaram mais amplos após a instalação da nova cobertura. Com 2,10 m por 5,80 m, 48 chapas de policarbonato alveolar azul receberam tratamento em um dos lados contra a ação dos raios ultravioleta. Foram previstas folgas para a dilatação térmica. Os alvéolos foram vedados com fita de alumínio impermeável, fita porosa e perfil U de alumínio.

Na lateral do edifício, brises de policarbonato alveolar apoiados em estrutura metálica refletem os raios solares, proporcionam claridade e dispensam o uso de cortinas.
 
   
 
 
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