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Tecnologia & Materiais


Pré-fabricação a limpo
Arquitetos desmitificam os sistemas pré-fabricados de construção e contam como utilizar o recurso com criatividade e competência

Texto original de Simone Sayegh


A industrialização na construção é irreversível. Especialistas concordam que o futuro da atividade está diretamente ligado a um aumento de qualidade que pressupõe diminuições de custos, prazo e desperdícios. E isso tudo encontra resposta no emprego de pré-fabricados, que são elementos construtivos produzidos de forma industrial e em larga escala, sempre fora de sua posição definitiva de utilização e com economia de tempo e material.

A pré-fabricação pode acontecer tanto no canteiro de obras como na indústria especializada. Existem casos em que a produção de peças de concreto no canteiro se justifica pelo tamanho da área do terreno, quantidade de peças produzidas, distância entre as fábricas e o local de utilização e oferta de mão-de-obra especializada. Já as diferentes peças que compõem as estruturas de aço são sempre fabricadas em uma indústria e montadas na obra. "Isso minimiza a perda de materiais e oferece melhores condições de trabalho no canteiro", defende o arquiteto Roberto Inaba do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço). Em ambos os casos, as estruturas pré-fabricadas devem contar com um canteiro de produção específico e mão-de-obra especializada com uma sistematização que reduz custos.

Ainda com relação a conceitos, o termo geralmente empregado para designar peças moldadas antes da utilização, ou seja, pré-moldados, não traduz com precisão as características da pré-fabricação. A pré-moldagem é só uma etapa da pré-fabricação de elementos de concreto, da mesma forma como é uma etapa de todo um processo de industrialização da construção. A industrialização não existe sem economia de escala. "O que viabiliza todo esse processo é o fornecimento de um produto de melhor qualidade com baixo custo a um amplo mercado", explica o arquiteto Arnaldo Martino, que, no começo da década de 70, empregou pré-fabricados produzidos no próprio canteiro para erguer o conjunto de edifícios da Secretaria da Agricultura, no bairro da Barra Funda, em São Paulo.

Depois da 2a Guerra, a necessidade da reconstrução rápida de cidades européias consolidou o emprego do painel pré-fabricado de concreto em empreendimentos habitacionais. Devido ao emprego em larga escala da mesma solução, o modelo acabou levando o rótulo de monótono, rígido e inflexível. "Era uma espécie de estigma que acompanhou a construção pré-fabricada até meados da década de oitenta", diz o arquiteto Paulo Eduardo Fonseca de Campos, consultor de desenvolvimento de produto para a construção pré-fabricada. A partir do fim da década de oitenta, no entanto, esses conceitos começaram a mudar e, atualmente, as novas técnicas de fabricação permitem a produção de peças mais leves, resistentes e com diferentes formatos, especificidades e tamanhos.


No Brasil, até bem pouco tempo atrás, os sistemas pré-fabricados eram comercializados em pacotes com a obra completa, ou seja, se comprava um galpão e não seus componentes. Hoje em dia, o sistema aberto de industrialização, que na Europa é chamado "segunda geração tecnológica", permite a compra de elementos isolados e com maior valor agregado como lajes, pilares, painéis e até banheiros prontos. "Essas novas práticas levam à transformação cada vez mais intensa da obra em um local de montagem de partes pré-fabricadas, ainda que pesem algumas etapas não industrializadas", explica Campos. É indiscutível que toda essa nova maneira de construir resulta diretamente de uma nova maneira de pensar a obra como um todo ¿ e em última e primeira instância, de uma nova maneira de fazer arquitetura. "O arquiteto é o maior responsável pela continuação do processo de industrialização da construção", conclui o consultor.

O ideal é que o conceito de modulação, repetição e racionalização balize a concepção de um projeto desde o início. "Projetar nos moldes tradicionais e depois transformar uma parte da construção em pré-fabricada resulta em perdas de dinheiro, tempo e eficiência", alerta o engenheiro Laércio Souza Gil, especialista em pré-fabricação da ABCIC (Associação Brasileira da Construção Industrializada em Concreto).

As soluções de pré-fabricação devem nascer junto com o projeto e precisam ser compatibilizadas com as propostas dos especialistas em instalações prediais, climatização e automação. É dessa maneira que o papel do arquiteto como coordenador geral do processo se intensifica. "Depois de pronta, não dá para mudar uma viga de lugar para passar uma tubulação", explica Gil. Assim, o arquiteto precisa entender o material que será empregado, seus encaixes e interfaces e, sobretudo, integrar as diferentes especialidades presentes. "A industrialização na construção exige uma equipe multidisciplinar", arremata. Além disso, de acordo com o arquiteto Paulo Zimbres, o profissional deve ter uma percepção clara da repercussão no canteiro, das decisões de projeto, além de predisposição para trabalhar em equipe. Zimbres credita ao cliente, equipe de projeto e construtores, a qualidade final de uma obra de arquitetura nesses moldes.

Apesar das qualidades inerentes, ainda é tímida a construção com elementos pré-fabricados no Brasil. Além da pouca especialização da mão-de-obra, ainda faltam organização, planejamento e logística a muitas construtoras.

A mola propulsora desse processo é o arquiteto mas, para muitos deles, o pré-fabricado ainda impõe limitações de ordem criativa e técnica aos projetos, ressonância persistente do pós-guerra. "Em arquitetura, os limites são a matéria-prima das idéias, rebate o arquiteto Antonio Carlos Barossi. Todo o processo de concepção da arquitetura sempre está limitado por contingências físicas, econômicas e sociais que podem ser muito bem resolvidas pelo emprego dos pré-fabricados. E a criatividade se manifesta exatamente na escolha dos produtos mais adequados disponíveis. "A arquitetura deve evoluir e incorporar elementos da modernidade em seu pensar", defende Arnaldo Martino.

Para o arquiteto, os pilares básicos Técnica, Função e Forma ganham nova roupagem à luz desse novo pensar. Dessa maneira, a Técnica irá prever o modo mais eficiente, rápido, econômico e sustentável de construir o espaço imaginado. A Função deverá atender o programa de necessidades com os indispensáveis requisitos de modernidade relativos à flexibilidade e expansibilidade, e a Forma deverá ser a expressão das Funções e Técnicas, mas cuja intenção plástica promova a interação com a paisagem. "É preciso entender a integração entre os conceitos e evitar o emprego da industrialização como suporte de projetos concebidos de maneira tradicional", sintetiza Martino.


O projeto de arquitetura que pretenda à produção racionalizada deve dispor de subsistemas coordenados entre si e de sistemas abertos de fabricação que possam gerar inúmeras soluções a partir de coleções restritas de componentes, o que viabiliza a economia de escala. "O pensamento teórico que embasa essa forma sistêmica de projetar é o metaprojeto, ou metadesign", explica Martino.

O metaprojeto construtivo organiza e coordena os sistemas e subsistemas e estabelece regras de posição, intercambialidade e interfaces até entre produtos de fornecedores diferentes. Um projeto de arquitetura que empregue recursos industriais deve, antes, dispor de um projeto teórico, crítico e organizativo das possíveis combinações e associações dos componentes existentes e, a partir daí, partir para o desenho de algo particular e único. Organizar e catalogar as possibilidades e com isso desenvolver um metaprojeto que sirva a todos os objetivos de projeto é o passo natural do desenvolvimento industrial na construção.








Mudança de mentalidade
Com inteligência e talento, João Filgueiras Lima, ou simplesmente Lelé, construiu algumas das mais belas obras do Brasil a partir de sistemas pré-fabricados. A seguir, o arquiteto conta parte dessa história
Vista aérea de Abadiânia, Goiás,
1982 a 1984

Pré-fabricação em arquitetura é uma expressão geralmente aplicada quando se utiliza, na construção, componentes moldados com argamassa à base de cimento, produzidos em usinas específicas ou no próprio canteiro de obras, com o objetivo principal de reduzir custos pela economia de escala (repetição de componentes). É possível também empregá-la como recurso técnico para viabilizar processos construtivos especiais, ou ainda para obter melhor qualidade na obra - sobretudo nos acabamentos.

A escolha de uma técnica de construção, seja convencional, de pré-fabricação ou de qualquer sistema de industrialização, não pode ser encarada como uma improvisação para a solução de eventuais problemas. Deve ocorrer no início do processo de criação e se enriquecer e se aprimorar durante o desenvolvimento do projeto, em harmonia com o partido adotado e levando em conta todos os valores que caracterizam uma obra de arquitetura. Pressupõe, portanto, que o arquiteto tenha no mínimo competência para dialogar com os técnicos especialistas.

A construção civil, em especial nos países subdesenvolvidos, tem sido muito predatória quer no emprego de matéria-prima, quer pelo desperdício de mão-de-obra. É do conhecimento de todos que nos sistemas mais primitivos de construção, ainda adotados em nosso País, esse desperdício tem sido contabilizado em cerca de 30% do valor de cada obra. Isso se deve principalmente ao fato de as empresas do setor ainda optarem pelo lucro fácil, apoiado em grande parte na exploração de uma mão-de-obra desqualificada e malremunerada.

Embora nos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro esse quadro tenha mudado significativamente nos últimos anos, a mudança ocorreu principalmente nas indústrias específicas que trabalham para o setor. Mas o aumento de eficiência dessas indústrias é prejudicado pela falta de integração entre elas próprias no contexto global da construção. Dessa forma, essa melhoria não se reflete como deveria no padrão das obras. Por outro lado, a falta de unidade na construção tem até se agravado com o aumento da terceirização, com a falta de empenho dos engenheiros em integrar
as diferentes intervenções em suas obras e, principalmente, pela crescente renúncia dos arquitetos em atender à sua atribuição básica de coordenador de todo o processo da construção. Assim, a aplicação de técnicas de racionalização, sobretudo as que implicarem investimentos, como é o caso da pré-fabricação, torna-se muito difícil sem que haja uma mudança de mentalidade.

E, para isso, seria também fundamental que houvesse um estímulo do governo em pesquisa aplicada na realização das obras sociais que é obrigado a promover. Nossas primeiras experiências em pré-fabricação pesada com concreto protendido produzido no próprio canteiro de obras começaram em 1962 na Universidade de Brasília. Nos prédios destinados a apartamentos de professores, por exemplo, o sistema estrutural foi totalmente isostático e os elementos de circulação vertical, fundidos no local, exercem a função de contraventamento dos edifícios.

Em experiências posteriores, como o hospital de Taguatinga, DF, em 1967, e o Centro Administrativo da Bahia, em 1972, foram utilizadas concretagens de segunda fase depois da montagem, que viabilizavam engastes parciais entre os componentes. Nos prédios da Camargo Corrêa, em Brasília, o sucesso em termos de economia e qualidade foi muito expressivo graças, principalmente, à produção de componentes em usina.
Apartamentos para os professores da UnB, 1962. Ao lado, detalhe da montagem dos edifícios


Nas décadas de 70 e 80, antes do fenômeno da globalização, em que as administrações das Prefeituras e dos Estados, apoiadas pelo Governo Federal, podiam assumir diretamente a construção de equipamentos na área social, participei de algumas iniciativas bem-sucedidas no Rio de Janeiro, em Salvador e em Abadiânia, pequeno município de Goiás. No primeiro governo de Leonel Brizola no Estado do Rio de Janeiro, em 1984, foram executadas cerca de 200 escolas, 90 creches, mais de cinco mil módulos de abrigos para paradas de ônibus, além de centros comunitários, postos de saúde, obras de saneamento básico e mobiliário urbano em geral, empregando processo de industrialização com base na tecnologia da argamassa armada (sucedânea do ferro-cimento).

A Fábrica de Escolas do Rio de Janeiro, como foi chamada essa indústria, empregava, entre produção e montagem, um elevado número de operários (em torno de cinco mil) porque intencionalmente atuava com níveis baixos de automação. Os componentes de argamassa armada de 2 cm de espessura foram dimensionados em sua grande maioria com pesos médios de 100 kg, de modo a permitir transporte e montagem manuais.

Em Salvador, essa mesma tecnologia também foi utilizada nas duas administrações do prefeito Mário Kertesz (1978 e 1988). Na primeira, foi montada uma fábrica em que a produção principal se destinava ao saneamento básico. Nessa experiência, que antecedeu a do Rio de Janeiro, também foi utilizado um sistema de argamassa armada com componentes articulados e muito leves para permitir transporte e montagem manuais. O emprego intensivo de mão-de-obra, nesse caso, não ocorreu somente por razões de interesse social e político, mas também por questões técnicas, uma vez que áreas onde se realizaram essas intervenções eram extremamente adensadas, de difícil acesso, o que dificultava a passagem de equipamentos.

Além disso, o solo resultante de assoreamentos sucessivos oferecia péssimas condições de resistência, inviabilizando a maioria dos sistemas de drenagem convencionais. Na segunda, o processo de industrialização foi mais diversificado e mais complexo, integrando a tecnologia da argamassa armada com a do aço. A grande fábrica instalada na zona do Iguatemi produziu escolas, creches, passarelas, mobiliário urbano, etc.

Edifícios da Camargo Corrêa, em Brasília, DF, 1974

A experiência de Abadiânia, município do Estado de Goiás, na época (1982) com pouco mais de três mil habitantes, foi muito peculiar e talvez a mais rica por sua maior abrangência. No projeto da pequena fábrica de argamassa armada lá instalada, imaginada como instrumento de um plano de desenvolvimento para o município e regiões vizinhas, levou-se em conta sobretudo a condição de isolamento da cidade e as conseqüentes dificuldades materiais, financeiras e de treinamento de mão-de-obra que se teria para implantá-la.

Os projetos prioritários se dirigiram para os setores agrícola, como a execução de pontilhões nas estradas vicinais para escoamento da produção, saúde e educação - construção de escolas rurais e postos de saúde.

Infelizmente, essa experiência foi muito rápida e sem conseqüências porque, pressionado por meu amigo Darcy Ribeiro, me transferi para o Rio de Janeiro
para implantar a Fábrica de Escolas do Governo Brizola.

No episódio malogrado dos CIACs, em 1990, aplicamos também a tecnologia
da argamassa armada e chegamos a um custo praticável de construção de 190 dólares por m2, baseado em experiências anteriores e na execução de dois protótipos dos edifícios implantados respectivamente em Brasília e no Rio.

As dificuldades que determinaram a descaracterização de nosso projeto e o conseqüente afastamento de nossa equipe do programa não foram de natureza técnica, mas de ordem política e administrativa, oriundas da própria estrutura do governo Collor.

Centro Integrado de Atenção à Criança (CIAC), Rio de Janeiro e
Brasília (foto interna), 1990

Na Implantação do Centro de Tecnologia da Rede Sarah de Hospitais (CTRS), em 1992, foram investidos 17 milhões de reais. O Centro é constituído de um conjunto de oficinas nas quais se produzem quase todos os componentes destinados à montagem dos hospitais e respectivos equipamentos. Essas oficinas contemplam as seguintes áreas de produção:

  • Metalurgia pesada - produção dos componentes metálicos estruturais e de acabamento dos edifícios
  • Metalurgia leve e setor de eletrônica - produção de equipamentos
  • Plásticos - produção de componentes injetados para a construção e confecção
    de equipamentos
  • Argamassa armada - produção de componentes estruturais e de vedação para os edifícios.
  • Marcenaria - produção de componentes de madeira para mobiliário em geral, portas, armários, etc.
  • Pintura-decapagem e preparo das superfícies metálicas para aplicação eletrostática de resina epóxi ou de poliuretano.

    O produto dessas oficinas, integrado segundo um padrão rigoroso de industrialização, é estabelecido em sintonia com o desenvolvimento de cada projeto e destina-se à fabricação de componentes para a montagem dos edifícios, assim como de equipamentos em geral, inclusive equipamentos médicos e aqueles incorporados à construção, como elevadores, monta-cargas, sistemas de iluminação e ventilação.

    A tecnologia do CTRS é deliberadamente leve com o objetivo principal de proporcionar maior economia no transporte de componentes para a montagem dos hospitais, que são implantados em todas as regiões do Brasil. Em uma das últimas unidades produzidas para a rede Sarah, em Macapá, o transporte onerou o custo global da obra em cerca de 8%, valor relativamente pequeno se levarmos em conta a distância que separa Macapá de Salvador, e se confrontado com as outras vantagens proporcionadas pelo sistema de industrialização adotado.
    Creches Mais - Creche de Coutos, em Salvador, 1987.

    Hospital de Taguatinga, cidade-satélite
    de Brasília, DF, 1968


    AU leituras
    ABCEM - Associação Brasileira da Construção Metálica - www.abcem.com.br
    CBCA - Centro Brasileiro da Construção em Aço - www.cbca-ibs.org.br
    ABCIC - Associação Brasileira de Construção Industrializada em Concreto - www.abcic.org.br
    ABCP - Associação Brasileira de Cimento Portland - www.abcp.org.br
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