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Interseção


O DESAFIO DA CONSTRUÇÃO DE CIDADES
AUTORA DE UMA OBRA SOBRE PRINCÍPIOS BIOCLIMÁTICOS NO URBANISMO, PESQUISADORA APONTA OS CAMINHOS PARA A CIDADE SUSTENTÁVEL  

Marta Adriana Bustos Romero


Princípios de sustentabilidade aplicados às diferentes escalas territoriais. Projetos do Ateliê 2003, da PPG/FAU, UnB, para a Micro Bacia do Torto, em Brasília. No alto, um condomínio sustentável. Acima, à esquerda, demonstração do ciclo hidrológico e, à direita, paisagismo produtivo

Abrangente e interdisciplinar, a sustentabilidade transcende as diferentes dimensões participantes da ocupação urbana e deve ser entendida como um processo e não apenas como um objetivo final ou como equilíbrio limitado à dimensão ecológica. Nessa perspectiva processual, promover a sustentabilidade nas cidades brasileiras significa enfrentar várias questões desafiadoras, como a concentração de renda e a enorme desigualdade econômica e social, o difícil acesso à educação de boa qualidade e ao saneamento ambiental, o déficit habitacional e a situação de risco de grandes assentamentos, além da degradação dos meios construído e natural e dos acentuados problemas de mobilidade e acessibilidade. Em outras palavras, no processo de construção da sustentabilidade e, em especial, de cidades sustentáveis, colocamos centralmente o resgate de melhores condições de vida, perdidas ou prejudicadas pelo crescimento desordenado das cidades.

Dentre as inúmeras respostas oferecidas para o conjunto de questões envolvidas nesse processo, destacamos as pioneiras de Roberto Guimarães (1997), Ignacy Sachs (1993) e Herbert Girardet (1997) que muito contribuíram para nosso enfoque. Esses autores elaboraram, respectivamente, uma série de dinâmicas sócio-ambientais (a ecológica, a ambiental, a demográfica, a cultural, a social, a política e a institucional), dimensões do ecodesenvolvimento (social, econômica, ecológica, espacial e cultural) e o modelo do "metabolismo circular", no qual a sustentabilidade está diretamente relacionada à capacidade de provisão de cada cidade. Essa discussão tem repercutido positivamente e pode ser encontrada, hoje, em manuais de gestão urbana.

Outra contribuição importante para nosso enfoque pertence ao âmbito da gestão direta das cidades. As conferências Habitat I (1976) e Habitat II (1996), organizadas com um intervalo de 20 anos, revelaram que a cidade é a forma que os seres humanos escolheram para viver em sociedade e prover suas necessidades. Por isso, não pode ser considerada uma desgraça a ser evitada a qualquer preço. Dessa forma, o futuro depende de como evoluirão as soluções urbanísticas e qualquer idéia de sustentabilidade deverá provar a sua operacionalidade em um mundo urbanizado, no cenário das cidades.

Dentre as soluções propostas pela Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional para gestão das cidades, destacam-se diversas estratégias. Uma delas é a mudança de escala, que implica incentivar o surgimento de cidades menores, ou de assentamentos menores dentro da grande cidade, além da integração das ações de gestão. Os documentos apontam também a necessidade de planejamento estratégico e da descentralização das ações administrativas e dos recursos, o que contempla prioridades locais e combate à homogeneização dos padrões de gestão. O incentivo à inovação e a abertura à experimentação de novos materiais, de novas tecnologias e novas formas organizacionais, assim como a inclusão dos custos ambientais e sociais nos orçamentos dos projetos de infra-estrutura também figuram entre as soluções sugeridas pela Comissão. A lista de propostas inclui ainda a indução de novos hábitos de moradia, transporte e consumo nas cidades, fortalecimento da sociedade civil e dos canais de participação, incentivo e suporte à ação comunitária.

Levando em consideração esses parâmetros para a cidade sustentável, buscamos soluções de equilíbrio entre a população e a sua base ecológica, assim como formas para estimular a responsabilidade em relação ao meio ambiente visando à eficiência energética, ao desenvolvimento e à utilização de tecnologias brandas ou limpas, à recuperação de áreas degradadas e à reposição do estoque de recursos para, a partir de tudo isso, desenvolvermos nossa proposta de urbanismo sustentável, a qual descrevemos a seguir.
Cidade Praia Vista, uma comunidade basicamente de pedestres com passeios estruturados, em Los Angeles, Califórnia. De Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk

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