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Interseção


CASA UNIFAMILIAR E TRADIÇÃO MODERNA
Notas para uma hitória inconclusa

POR CARLOS EDUARDO COMAS



Coletivista, a vanguarda arquitetônica européia dos anos 20 pensa que a casa unifamiliar é um anacronismo, um artefato fora de seu tempo – se não contrário ao seu tempo, no máximo útil como laboratório para pesquisas de natureza funcional ou técnico- construtiva. Le Corbusier é a exceção que se destaca. Para o tratadista da arquitetura que se diz moderna, a preocupação com a habitação mínima e de baixo custo é o reverso da preocupação com a morada primitiva no começo do tempo e, por extensão, da preocupação com o possível fundamento dos esplendores do templo e do palácio, os arquétipos da casa, fora do tempo. A casa unifamiliar é parte do processo de regeneração da matriz disciplinar.

Arquivo
A Casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright (1936), construída no estado da Pensilvânia, Estados Unidos

A rejeição do historicismo não implica uma tábula rasa, mas a redescoberta das raízes do ofício. Para quem crê que um sistema de formas arquitetônicas não pode ficar à mercê das oscilações do gosto individual, o vigor e o frescor dos primeiros gestos são penhores de autenticidade e legitimidade.

Le Corbusier não opera num vazio. A História da Habitação é tema popular no fim do século 19. Charles Garnier a reconstitui na Exposição Universal de 1889. Viollet-le-Duc publica a sua em 1875 e inclui uma versão de cabana primitiva, conforme tradição em que sobressaem Perrault (1688), Laugier (1750), Quatremère de Quincy (1785) e Gottfried Semper (1851).

Perrault ilustra as descrições de Vitruvio sobre o tema. Laugier propõe uma arquitetura de colunas e questiona a separação barroca entre forma estrutural e arquitetônica. Quatremère, atualizado, reconhece três tipos de morada primitiva. A caverna do caçador é a matriz da arquitetura egípcia, demasiado sólida. A tenda do pastor é a matriz da arquitetura chinesa, demasiado leve. A cabana do agricultor é a matriz da arquitetura grega, a única que obtém equilíbrio e diversidade dentro da unidade. A estrutura correspondente é arquitravada. Assimilando o corpo arquitetônico ao humano, a Grécia cria um sistema de proporção e caracterização baseado na coluna. As ordens falam dos sexos e suas circunstâncias. O dórico é viril, o jônico feminino, o coríntio virginal e eventualmente ancião. Semper distingue como elementares a morada compacta, relacionada com a tectônica da construção em esqueleto, e aquela à volta de um pátio, relacionada com a estereometria da construção de tijolo ou pedra portante.

O esquema de estrutura Dom-Ino é Laugier revisto por Le Corbusier, um inimigo da separação eclética entre forma estrutural e forma arquitetônica. Abominando o ornamento, como seus colegas, Le Corbusier pensa que uma coluna é um cilindro, um piso é um plano horizontal, a parede é um plano vertical. Na sua refundação arquitetônica, lajes planas paralelas se balançam de fileiras regulares de suportes, possibilitando uma planta e uma fachada livres. A estrutura se subordina a raciocínios geométricos unitários, e a compartimentação, a raciocínios topológicos variáveis – não sem recordar as alternativas de relação entre coluna clássica e parede.

Instituto Lina Bo e PM Bardi
Da esquerda para a direita, a Casa da Cortina, de Shigeru Ban (Tóquio, 1995), a Casa Kauffman de Richard Neutra (Palm Springs, Estados Unidos, 1946) e a Casa de Vidro, em São Paulo (1951), de Lina Bo Bardi

O espaço normativo do esquema é um sanduíche, comprimido entre dois planos horizontais, mas a caixa de escada nele inscrita mostra que há lugar para o espaço mégaro, comprimido entre dois planos verticais. E vários sanduíches superpostos resultam em um volume mégaro. Angular, firme, ereta, palafita, a casa Citrohan brilha implacável sob o sol e domina o sítio que melhor se desfruta do teto-terraço. A vila emGarches é o mégaro fechado, a vila de Cartago é o mégaro fechado virtual. Em contraste, a vila Savoye é uma cabana achatada, um sanduíche puro. Em todas, a cobertura é plana, a composição centrífuga, o volume compacto.

Como Quatremère, Le Corbusier privilegia a cabana amiga da luz e a transparência. Não desdenha, porém, a caverna opaca e escura, o modelo da abóbada. Sob cascas ondulantes e macias, suas casas Monol repousam no solo, femininas, fixas ao sítio pelas paredes maciças, gerando um volumesanduíche pela justaposição de muitos mégaros. Nem Le Corbusier esquece a tenda translúcida ou penumbrosa, exemplo de estrutura em tensão, combinando paus, cordas oblíquas e uma pele côncava (uma abóbada de pano), convexa (uma abóbada de pano invertida) ou inclinada. A ela alude com o teto borboleta do pavilhão Nestlé, de vida efêmera.

O interesse pela caverna e pela tenda se confirma em dois projetos associados à viagem sul-americana de 1929. O programa dá o pretexto para a junção de abóbadas e tetoterraço na casa-ateliê que esboça para si. O promontório longínquo justifica um telhado borboleta, as paredes de alvenaria branca e os paus roliços da casa Errázuris, no Chile. Agora perpendiculares às fachadas longas, os planos inclinados da cobertura reforçam os interesses periféricos da composição, invertendo a disposição convencional do teto de duas águas.

A oposição entre núcleo coberto e descoberto introduz outra instância de diversidade na unidade. A casa-caixa compacta e extrovertida tem por opção a casa-pátio, fragmentada nas casas La Roche ou de Mandrot. A tensão entre núcleo coberto e descoberto leva à casa-cantoneira, base da casa de fim de semana em La Celle-Saint-Cloud, coberta com abóbadas catalãs.

A enciclopédica incursão de Le Corbusier pela domesticidade não esgota o assunto. Não o atrai a mutabilidade da compartimentação interior própria de muita morada primitiva, mas essa é a opção que Gerrit Rietveld manipula com painéis na casa Schroder e Mies van der Rohe, com cortinas, no palacete Tugendhat. A casa-cantoneira se insinua já na vila marítima E-1027 de Eileen Gray, ou na casa de vidro de Pierre Chareau, ganhando depois contornos amebóides na casa Smirke, de Hans Scharoun.

Na trilha de Frank Lloyd Wright, Mies explora a casa-cruz, tipo particular de cantoneira, em projetos para vilas de concreto e de tijolo. Mais tarde, como Chareau, trata de definir as coordenadas de um luxo novo, enquanto Le Corbusier equaciona as de uma nova rusticidade, tendo Josep Luis Sert (a casa de Garraf), Juan o'Gorman (as casasestúdio para Diego Rivera e Frida Kahlo, aquela gorda, a outra magra) e Lucio Costa (o projeto da chácara Coelho Duarte com muita pedra e simetria diagonal) por companheiros de viagem. A superfície tosca e a polida serão alternativas à chapada fosca com granulação de giz. A arquitetura moderna diversifica sua paleta de materiais e de texturas.

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