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Entrevista

AZIZ AB' SÁBER
UM BREVE FUTURO DA NATUREZA
UM DOS MAIS ATIVOS GEÓGRAFOS DO PAÍS DEFENDE A NECESSIDADE DE UM MEGAGERENCIAMENTO ECOLÓGICO EM LONGO PRAZO COMO ÚNICA ALTERNATIVA PARA ATENUAR A DEVASTAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL

POR SIMONE SAYEGH FOTO SOFIA MATTOS

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Projetar o espaço construído só é possível com o entendimento do espaço natural. E essa questão é absolutamente intrínseca ao trabalho atual dos arquitetos. Ao entender o que acontece no espaço natural é possível projetar o futuro e medir suas conseqüências - afinal, é no futuro que existe a obra construída, assim como o impacto causado na cidade e em seus habitantes. E é exatamente esse impacto que o professor Aziz Nacib Ab'Sáber conhece como ninguém. Ab'Sáber iniciou suas primeiras atividades em 1945, como professor em diversos colégios de São Paulo e logo passou a lecionar em faculdades. Em 1965 finalizou seus trabalhos de mestrado e doutorado. Foi assistente do geólogo e paleontólogo Kenneth Caster. Entre 1979 e 1983 atuou como diretor do Instituto Bio-Ciências e Ciências Exatas da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e publicou trabalhos em várias áreas científicas da geografia. Mais conhecido como geomorfologista, seus estudos abrangem desde considerações acerca das condições climáticas de eras geológicas do passado até preocupações bem atuais, como a geografia urbana de metrópoles subdesenvolvidas, estratégias de proteção da biodiversidade, paisagismo ecológico e toda gama de trabalhos e artigos sobre o impacto do desenvolvimento urbano no ecossistema de uma determinada região. Apesar do caráter científico de suas pesquisas, participou de diversas lutas pela preservação ambiental, tendo contribuído pelo tombamento da Serra do Mar, no Estado de São Paulo, em 1986. A seguir, trechos da entrevista concedida por Ab'Sáber no IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP.

aU NOTÍCIAS SOBRE DESMATAMENTO E PREJUÍZOS À FLORESTA AMAZÔNICA são quase diárias. ATÉ QUE PONTO O ECOSSISTEMA DA AMAZÔNIA ESTÁ COMPROMETIDO? HÁ MOTIVOS PARA O CONSTANTE ALARME DAS ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS?

AZIZ NACIB AB'SÁBER
A situação do centro-sul do Pará é gravíssima. Devido a uma série de processos, ampliou-se o desmatamento em índices superiores a 60%. E isso vem acontecendo desde 1975, quando se iniciam as construções de estradas sem a menor previsão de impacto ambiental, pois na época não se fazia isso, não se conheciam métodos. É dramática a situação da Terra do Meio, como é chamada a região, e motivos para preocupação não faltam.

aU OU SEJA, HÁ MAIS DE 30 ANOS ESSA REGIÃO DO PARÁ É AGREDIDA E NÃO EXISTEM MECANISMOS DE CONTROLE?

AB'SÁBER
O que aconteceu foi que a partir das estradas foram sendo abertas ramificações quase ortogonais até o coração da selva, algumas vezes com muitos quilômetros de extensão, e dessas ramificações foram surgindo sub-ramais tangentes à estrada, como uma grande espinha de peixe, que formaram quadrângulos com espaço até para os aviões dos grandes especuladores. Essas áreas devastadas são muito extensas, quarteirões inteiros, e até hoje não existem medidas restritivas.

aU ESSAS ESTRADAS E RAMAIS SERVEM PARA QUÊ E PARA QUEM?

AB'SÁBER
Esses ramais foram sendo abertos por trabalhadores contratados por míseros salários para extração de madeiras nobres - portanto as madeireiras se beneficiam. Após a extração, a área devastada é ocupada pela agropecuária, ou seja, serve para pastagem de gado. Nos últimos anos vem sendo ocupada pela cultura da soja. E a mão-de-obra da região, pobre e sem cultura, serve a esses grandes especuladores que exploram os trabalhadores a ponto de, depois de realizada a extração ilegal, abandoná-los, quilômetros e quilômetros adentro, sozinhos, sem água ou comida. É um verdadeiro estado paralelo, onde fazendeiros tomam conta de tudo sem o menor gerenciamento governamental.

aU O QUE PODERIA SER FEITO PARA ACABAR COM ESSE "ESTADO PARALELO"?

AB'SÁBER
Em primeiro lugar não existem respostas fáceis. Assim como a questão da seca não será resolvida com a transposição do rio São Francisco, como alguns políticos eleitoreiros e populistas querem nos fazer crer, o problema da devastação na Amazônia só será controlado quando for efetivamente conhecido. Em primeiro lugar é preciso dividir a região em quarteirões e enviar grupos de estudo a cada setor, e, a partir do conhecimento das atividades econômicas de cada vila, é que poderemos formular respostas e implantar programas. Existe uma frase de um amigo que resume bem a questão. Ele diz: "é preciso um desenvolvimento com um máximo de floresta em pé". Sem um gerenciamento ecológico não há saída. E sem vontade política também não.

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