Último edifício inaugurado na Cidade das Artes e das Ciências, em Valência, Espanha, o Palácio das Artes Rainha Sofia é uma das obras mais recentes do arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Com 75 m de altura e 163 m de comprimento, a construção é a grande aposta do governo da região de Valencia (Generalitat Valenciana) para colocar a terceira maior cidade espanhola nos grandes circuitos internacionais da cultura. Ao que tudo indica, o palácio de dimensões colossais tem atendido bem a esses interesses. Não só pelas dimensões, mas, principalmente, pela geometria ousada – típica de Calatrava –, em que uma "pena" parece flutuar sobre a construção, que é abraçada lateralmente por duas "cascas" de aço.
Desde que foi inaugurada, a obra tem chamado a atenção pela monumentalidade e pelo caráter escultórico, dois aspectos marcantes da produção desse arquiteto valenciano. O formato complexo sugere muitas inspirações e já foi comparado a um barco ancorado no antigo leito do rio Turia, onde está implantado, ao capacete de um soldado troiano e até mesmo ao de um ciclista.Apesar disso, Calatrava afirma que concebeu o palácio como um "objeto escultural autônomo", sem ligação com os temas anteriormente mencionados. "Todos os meus projetos, incluindo o Palácio das Artes, começam com um desenho ou aquarela que partem de um gesto. Pode ser o gesto de uma criatura viva ou de minha mão se movendo pela página", revela, sem deixar claro o que, exatamente, o fez chegar a essa forma.
O Palácio das Artes faz parte da Cidade das Artes e das Ciências, um vasto e futurístico complexo urbano de 35 hectares, no sudeste de Valencia que, além do palácio, abriga outros quatro impressionantes edifícios: o Teatro Hemisférico (cinema e planetário), o Museu das Ciências Príncipe Felipe, L'Umbracle (estacionamento e passeio) e o Parque Oceanográfico. Criadas por Calatrava, as construções compartilham da mesma linguagem arquitetônica,marcada pelas formas abstratas, sempre de caráter orgânico e escultural, e pelos tons claros.O fato de se inspirar na natureza para criar formas ousadas e únicas, desprovidas de linhas ou ângulos retos, leva muitos a compará-lo ao catalão Antoni Gaudí, um dos expoentes da arquitetura do século 20.
MULTIPLICIDADE DE AMBIENTES
O Palácio das Artes Rainha Sofia se destaca pela arquitetura e também pela multiplicidade de ambientes que permite uma rica programação cultural. Dispõe de quatro salas diferentes:
• Auditório principal: com capacidade para 1,7 mil pessoas, o auditório principal é o elemento gerador do edifício tanto em seu aspecto formal quanto estrutural. A seção longitudinal da sala, com quatro alturas diferentes, é gerada pelas linhas de visuais dos espectadores em relação ao cenário. O fosso para orquestra, terceiro maior do mundo, com 180 m², pode assumir diferentes configurações graças aos quatro planos móveis.
• Aula magistral: na parte oeste do edifício, com capacidade para 400 pessoas, a sala foi especialmente desenhada para atuações de pequenas formações musicais, permitindo também a realização de conferências e congressos.
• Anfiteatro: destinado a espetáculos ao vivo, com capacidade para 1,5 mil espectadores, conta com avançados sistemas de áudio e vídeo.
• Teatro de câmara: adjacente ao palácio, o teatro abriga as salas de exposição e uma sala experimental para teatro com capacidade para 400 espectadores. |
O palácio conta com espaços panorâmicos que levam ao descobrimento de uma arquitetura surpreendente. Para acessar os terraços, jardins, cafés e restaurante, de onde se pode desfrutar de uma bela paisagem, o visitante percorre escadas helicoidais situadas no interior das "cascas" laterais que abraçam o edifício. Essa circulação, assim como o foyer, surge em torno do auditório principal, a partir do qual toda a forma e estrutura da construção são geradas. Além do auditório principal, o palácio conta com outras três salas especiais: a aula magistral, o teatro de câmara e o anfiteatro.
No Palácio das Artes, assim como na maior parte da obras de Calatrava, existe um jogo de luzes e efeitos visuais que parecem ser imprevisíveis.Mas o que mais se destaca na composição do palácio é, sem dúvida, a "pena" metálica que brota de um imenso pilar de concreto armado branco e que parece voar sobre o conjunto. Não é a primeira vez que o arquiteto usa um elemento como esses para coroar um edifício: há um elemento similar no Auditório de Tenerife (1997- 2003), em Canárias, na Espanha. As semelhanças não param por aí, visto que em ambas as obras o arquiteto revestiu as superfícies com trencadís, uma espécie de mosaico feito com cacos cerâmicos brancos.
O Palácio das Artes consumiu quase 15 anos de trabalho do arquiteto valenciano, que iniciou seu envolvimento com o projeto em 1991, quando venceu um concurso para desenhar uma torre de telecomunicações na parte oeste do terreno (mesmo local onde o palácio está implantado). Em 1996, o governo de Valencia alterou o programa do complexo e, a pedido de Calatrava, substituiu a torre de telecomunicações por uma construção dedicada à música e às artes cênicas. Dessa forma, por decisão própria, o arquiteto abandonou cinco anos de projeto para começar outro, descrito por ele como "um espaço público de acolhimento para pessoas que amam música". "Projetos de arquitetura são assim: levam muito tempo para se completar. Demandam paciência e persistência", filosofa.
O recomeço,de acordo com o arquiteto, foi o seu maior desafio, mas permitiu que houvesse uma "transformação mágica no local". Com exceção do auditório principal, onde acontecem os concertos de orquestras sinfônicas e espetáculos de balé e teatro, o público pode circular livremente pelos terraços e plataformas do edifício, de onde é possível desfrutar da vista sem precisar pagar entrada. "A forma do edifício, mais aberta possível, permite e encoraja essas funções", diz o autor do projeto, para quem a construção funciona como uma extensão dos 69 mil m² de jardins e 11,3 mil m² de espelhos d'água que a rodeiam. Em sintonia com essa idéia, o anfiteatro, com seus painéis de vidro, permite que os visitantes assistam do exterior os ensaios e apresentações que acontecem do lado de dentro.
OBJETO VOADOR
O Palácio das Artes Rainha Sofia, edifício que integra a Cidade da Artes e das Ciências, de Santiago Calatrava, em Valência, Espanha, está coroado por uma enorme "pena" metálica branca que parece voar sobre a composição arquitetônica. Calatrava conseguiu esse efeito determinando apenas dois apoios para o gigantesco elemento de 230 m de comprimento (medida da curva). Um deles, na extremidade oeste do edifício, é configurado pelo robusto pilar de concreto armado branco do qual nasce o elemento. Há ainda um outro apoio intermediário, a partir do qual a "pena" se desenvolve até a extremidade leste da construção, onde se encontra em balanço. Em concreto branco, o edifício é abraçado em ambos os lados por cascas metálicas revestidas com cacos cerâmicos brancos chamados trencadís. |
