A primeira vez que Massimiliano Fuksas veio ao Brasil, aterrissou no
Rio de Janeiro, no início da chamada década perdida. Fuksas e Doriana,
sua mulher - na época grávida de oito meses -, cortaram as mais sinuosas
estradas até chegar a "San Salvatore" em um Fusca a álcool. Era carnaval,
e também era de álcool - e urina - a memória das multidões pulando ao
som do curioso trio elétrico na capital baiana.
Vinte e cinco anos depois, ao aterrissar dessa vez em São Paulo, Fuksas
impressiona-se com a textura das autoconstruções da periferia paulistana,
pela janela do avião. "É como um tecido cujos veios se formam pelo deslocamento
de pessoas. Precisamos entender essas tantas pessoas, ansiosas por viver
e consumir como nós." Poucas horas depois de chegar a Guarulhos e descansar
na região paulistana da Berrini, Fuksas foi recebido pela reportagem de
AU no restaurante do Hotel Renaissance, sob a ampla cobertura de vidro
e alumínio assinada por Ruy Ohtake. "O guioza? Ah, esse foi o melhor do
almoço!", exclamou o arquiteto - satisfeito com o buffet nipo-italiano.
Aos seis anos, Fuksas perdeu o pai, médico lituano, e desde então se
considera uma auto-referência. "Quem me influencia? Hitchcock ou Kubrick?
Nunca entendi o que é influência!" Sua arquitetura realiza-se fora da
própria arquitetura, em uma construção dinâmica do olhar. Suas obras não
são os volumes monolíticos, mas a tensão entre os volumes - seu interstício.
Tampouco nuvens, tornados e vulcões de vidro,mas o reflexo do entorno.
Antes de arquiteto, Fuksas é pintor de paisagens sobre transparências,
vazios e transições. E connaiseur da psicologia futebolística.
O arquiteto romano veio ao Brasil para dar palestra no Encontro Internacional
Arquitetura e a criação de marcos urbanos, realizado por AU dia 6 de dezembro.
Para a viagem, marcou também um encontro com o mestre Niemeyer. Tomando
um chá Darjeeling sem leite e apalpando com seu olhar vivo o lobby do
hotel, conversou com AU sobre mudanças sociais do novo milênio e seu impacto
sobre o urbanismo. Com seu espírito expansivo, terminou a conversa com
trechos de canções do filme Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber
Rocha,cineasta que conheceu nos anos sessenta, em Roma.
aU DESINDUSTRIALIZAÇÃO É UM DESAFIO
URBANÍSTICO TANTO EM PAÍ- SES DESENVOLVIDOS QUANTO EM ALGUMAS METRÓPOLES
DE PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO. MAS OCORRE, PORÉM, EM UM TEMPO EM QUE O
ESTADO NÃO É MAIS O PRINCIPAL CLIENTE. O SETOR PRIVADO PODE - OU QUER
- RESOLVER ESSE PROBLEMA?
MASSIMILIANO FUKSAS Eis uma questão
importante.O final do século 20 foi transfigurado pela mundialização.
Com ela, três bilhões de pessoas estão entrando no mundo ocidental - antes
habitado por um pequeno grupo de seiscentos milhões de americanos e europeus.Apesar
da nova complexidade social que emerge, os arquitetos e urbanistas falam
como se estivéssemos no século 19, do Barão Hausmann. Antes havia três
classes: proletariado, classe média e a burguesia.Hoje são muitas.Nos
Estados Unidos, a classe mais importante é a dos chamados "criadores".
O que é essa criatividade? Não é a arte. Somos você, eu,Doriana, talvez
o pessoal lá na cozinha fazendo sushi para nós... Quarenta milhões de
norte-americanos pertencem a essa classe.Nada é como antes nem se pode
voltar um século atrás.
aU ONDE FICAM OS SETORES PÚBLICO
E PRIVADO NESSA SITUAÇÃO?
FUKSAS Não acredito que temos mais
o Estado.Você sabe o que estão fazendo os Tories (partido conservador
britânico) na Inglaterra? Ou Mme. Merkel (chanceler alemã)? Ninguém se
preocupa pelo que um partido faz. O poder agora é privado. Todos podem
ser poderosos. Mas ninguém realmente entende isso. O Brasil tem um pouco
menos de duzentos milhões de habitantes, um território enorme e é um dos
países mais importantes do mundo, mas vocês se consideram pequenos. Isso
porque ainda pensamos que apenas poucos países detêm poder. Isso não é
mais verdadeiro desde os anos 60, quando o Ocidente se chocou com o poder
do Vietnã, país tão pequeno. A primeira Guerra do Golfo, com Bush pai,
e a segunda, com Bush filho, são variações dessa falência do poder concentrado
em poucos países. Estamos numa nova situação. Devemos começar do zero.
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