Há 40 anos (meu Deus, como vocês estão ficando
velhos), publiquei na revista AC a seguinte declaração,
'"o trabalho não foi mesmo objeto de maiores estudos, tanto
de ordem técnica quanto de natureza econômica. Caiu porque
o Sr. Oscar Niemeyer é impenitente comunista, sendo, portanto,
exclusivamente político o veto da FAB. E mais ainda: há
uma estranha figura decorativa de um braço de punho cerrado, característica
da saudação bolchevista, no bojo do plano. Outro projeto
será elaborado pelo órgão próprio da Aeronáutica'
(sic). 'A nova estação de passageiros do Aeroporto de Brasília
será em estilo sóbrio, bonito, funcional, amplo e extensível',
informou a Diretoria de Engenharia da FAB".
Por essa justificativa da Força Aérea Brasileira para
abandonar o projeto de Niemeyer para o aeroporto de Brasília, não
é surpresa que com a maneira militarizada (e agora também
republicanamente democrática) com que se dirige a aviação
no Brasil, um dia a casa caísse - e os aviões também.
Na época dos estudos da ampliação do aeroporto de
Brasília, escrevi um artigo no qual sugeri que o projeto fosse
de Oscar Niemeyer. Não como desagravo ou compensação,
mas pelo símbolo que representa um aeroporto como primeira imagem
de quem desembarca em um país. Essa imagem é tão
forte que qualquer país de independência recém-proclamada
toma como necessidades principais três coisas: uma bandeira, uma
seleção de futebol (com técnico brasileiro) e uma
companhia aérea, mesmo que tenha só um velho Boeing 707.
O Presidente, naturalmente subdesenvolvido, compra um 767 novo só
para ele.
Em 1973, quando comecei a viajar a trabalho, fazia em geral um longo
vôo no mínimo uma vez por semana. Essa rotina durou quatro
anos. Na época, os aeroportos se assemelhavam ou a galpões
industriais ou a oficinas de borracheiros. As primeiras exceções
foram, curiosamente, Boa Vista e Belo Horizonte (que tem um belíssimo
terminal), locais onde não pousava quase nenhum avião. Boa
Vista, em Roraima, era governada pela aeronáutica, explica-se.
Já o caso de Belo Horizonte era incompreensível, porque
com o sistema de hubs utilizado por economia pelas companhias aéreas
de países de grande território, o fulcro no centro do Brasil
sempre foi, naturalmente, Brasília.
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