Quando recebeu a reportagem de AU em seu escritório, um sobrado
acomodado em um patamar da sossegada escadaria em que a rua Alves de Guimarães
desce entre o ruído da Cardeal Arcoverde e da Teodoro Sampaio,
em São Paulo, Anne Marie Sumner acenou com o dedo enfaixado, "estava
ajudando os meus alunos a fazerem uma maquete e talhei o dedo".
A professora corria entre responder os últimos e-mails antes de
sua viagem a Londres e organizar as pranchas cujas imagens de satélite
reproduziam uma longa mancha urbana desde o leste da estação
Tatuapé até a Lapa, riscada por uma linha de 16,5 km. Tratava-se
do primeiro projeto do Escritório Experimental do Mackenzie, feito
para o polêmico Prêmio Prestes Maia, que promoveu em 2006
a busca de soluções para a cicatriz urbana do paulistano
elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão. As condições
inaceitáveis do edital do prêmio, que garantia a apropriação
de idéias de arquitetos mediante um prêmio de 50 mil reais,
levou o IAB a tirar seu apoio e, conseqüentemente, o Escritório
Experimental a não entregar seu projeto. Ainda assim, a entusiástica
professora preparava-se naquele estúdio para levar a outros países
o trabalho desenvolvido por professores e estudantes que, mesmo fora do
Prêmio, rendeu elogios em um fórum de debates organizado
pelo IAB para discutir o futuro do Minhocão.
Aquela correria de viagem era apenas a continuação de
uma época de preparativos. "Desde 2005, o Mackenzie passou
a assumir o estatuto de universidade no sentido pleno. Até então,
os professores só davam aula e iam embora", lembra Anne Marie.
Agora, ao lado do ensino, a instituição passou a desenvolver
pesquisa e extensão. A professora foi convidada a dar aula na pós-graduação,
"mas eu disse ter mais entusiasmo em pensar um escritório
experimental de projetos. O Mackenzie tem uma tradição de
projeto muito forte, é uma escola prática mesmo, com um
corpo docente enorme de gente de projeto".
Nádia Somekh, diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
encampou a idéia. O Escritório Experimental do Mackenzie
ainda está em uma fase inicial, com a figura jurídica em
processo de formação. Atualmente, estrutura-se em um conselho
formado pelos professores Nádia Somekh, José Magalhães,
Tito Lívio Frascino, Héctor Vigliecca e Anne Marie Sumner.
Em um conselho ampliado, participam ainda João Luiz Biscaia e Flávio
Marcondes. E, para a realização do projeto do Prêmio
Prestes Maia, foi convidada a participar a arquiteta Vera Santana Luz.
Esse não é o primeiro escritório do tipo no Brasil.
Para conceber o Escritório Experimental, Anne Marie consultou Miguel
Pereira, que já participou de um escritório parecido na
Universidade de Brasília, o Ceplan. Criado em 1962, quando Oscar
Niemeyer era diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB e
Darcy Ribeiro era o reitor da universidade, o Ceplan teve como coordenador
João Filgueiras Lima, a quem Anne Marie também consultou.
Diretamente ligado à reitoria, o Ceplan elabora projetos e fiscaliza
obras tanto no campus da UnB quanto fora, no Distrito Federal.
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