A existência humana confunde-se com a criação de
espaços físicos. Originalmente apropriando recursos naturais,
como cavernas e florestas, os ambientes humanos se artificializaram em
edificações, evoluindo a partir de uma mescla impressionante
de expressões arquitetônicas que retratam, a seu modo, uma
leitura de nossa inserção na vida do planeta.
O escritor Victor Hugo (1802-1885), na célebre obra que tem como
cenário principal a catedral de Notre-Dame de Paris (1831), escreve
o seguinte diálogo entre dois personagens: "O que são,
então, os vossos livros?"
"Aqui tendes um", disse o arcediago. E, abrindo a janela,
designou com o dedo a imensa igreja de Notre-Dame que, recortando sob
um céu estrelado a silhueta negra das suas duas torres, das suas
ilhargas de pedra e da sua cúpula monstruosa, assemelhava-se a
uma enorme esfinge com duas cabeças assentada no meio da cidade.
O arcediago considerou algum tempo em silêncio o gigantesco edifício,
depois estendendo com um suspiro a mão direita para o livro impresso
que estava aberto na mesa e a mão esquerda para Notre-Dame, e passeando
um triste olhar do livro à igreja, responde: "Infelizmente",
disse ele, "isto matará aquilo...".
À parte a ficção da obra, percebe-se a importância
da arquitetura como descrição da realidade dos povos ao
longo dos tempos. É possível interpretar o gesto e as palavras
do clérigo como manifestação do temor de que o surgimento
da imprensa viesse a eliminar a maneira tradicional de se registrarem
as conquistas e avanços da humanidade até então,
isto é, pela palavra construída em pedra.
Não somente a literatura, mas também as ciências
reconhecem que a arquitetura comunica e explicita as idéias de
seu tempo. Pode-se até considerar que todo pensamento humano, seja
de cunho popular, erudito ou religioso, tenha se feito edifício,
principalmente até o século 15, quando a informação
impressa passa a se consolidar. Mais além, é razoável
considerar que as edificações, por sua solidez, perpetuem
de modo especial as idéias, bem como influenciem o comportamento
humano, estimulando ou inibindo reações, dado que alteram
sobremaneira o ambiente original.
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