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Crônicas Agudas


ACCIDENTE!
OS IMPACTOS (LITERAIS) DOS ACIDENTES

POR SERGIO TEPERMAN



Os que conhecem italiano sabem que accidente! é quase um palavrão. A palavra certa é incidente, mas em certos casos muito grandes só mesmo com uma parolaccia, como accidente! Acidentes, erros e dramas profissionais acontecem até nas piores famílias ou "de más intenções, o céu está cheio". Algumas advogadas, ao defender bandidos, acabam se juntando ao grupo. Médicos não são infalíveis, mesmo porque o corpo não é uma ciência exata, mas podem ser negligentes, como no caso da morte de meu pai (que era médico) e foi assassinado durante uma endoscopia(!), por simples negligência na anestesia. Por que engenheiros devem ser infalíveis?

Por acreditarmos na ciência e na técnica (e agimos muito bem em fazê-lo), porque as leis que regem o mundo são pura física. Mas, da mesma forma que os médicos não podem regular totalmente a vida, as obras de engenharia, por mais aprofundados que sejam os estudos para executá-las, também enfrentam o seu "corpo humano", que são os fenômenos da natureza. Terremotos, tsunamis, solos frágeis, inundações afetam edifícios, barragens, plataformas marítimas – ainda que o projeto e a execução tenham sido os mais cuidadosos possíveis. O que a engenharia faz nesses casos, de maneira extremamente inteligente e humilde, é estudar as catástrofes para projetar e executar as próximas obras levando em conta os pontos em que falharam anteriormente. Assim, sempre houve dentro dos cálculos, projetos e processos de obra, algum empirismo. Em algum momento existiu tentativa e erro, que é o processo pelo qual a humanidade aprende.

Muitas vezes, um erro humano mínimo, uma peça de alguns dólares põe a perder um Boeing, uma espaçonave, ou uma plataforma marítima, que são os mais impressionantes objetos já projetados, aos quais milhares de engenheiros e arquitetos se dedicaram. O que se faz é buscar a causa para impedir que se repita, e não simplesmente apontar culpados. Mesmo porque, na maior parte das vezes a causa não está de forma nenhuma na engenharia, mas sim na forma de contratação, de gestão e de administração, que acaba sempre desaguando na política – essa, sim, a causa de todos os males (e de alguns bens) do mundo.

Além disso, nunca há uma só causa em um acidente, mas uma somatória de várias leis de Murphy, fato que por si já é uma lei de Murphy, a propósito, um engenheiro. Ao se estudarem as causas de grandes desastres, infalivelmente se chega sempre à conclusão de que o valor da contratação foi subestimado, ou houve algum desvio, ou o prazo era inexeqüível, ou a manutenção não foi adequada, ou as economias foram demasiadas, ou a administração foi malfeita e os recursos acabaram, ou não foram contratados os melhores profissionais, ou foram economizados recursos em pesquisas e investigações. Enfim, erros de engenharia, de pura técnica, são raríssimos.

Também os notamos com menos freqüência porque o mais comum são acidentes de obras em uso e cujas conseqüências são muito maiores, tanto do ponto de vista de custos, como do ponto de vista humano, porque obras ocupadas, ou próximas a locais ocupados matam muito mais gente. Os acidentes em obra às vezes são percebidos antes de acontecerem e, muito embora o seu custo seja enorme, há tempo para se salvarem vidas.

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