Os que conhecem italiano sabem que accidente! é quase um palavrão.
A palavra certa é incidente, mas em certos casos muito grandes
só mesmo com uma parolaccia, como accidente! Acidentes, erros e
dramas profissionais acontecem até nas piores famílias ou
"de más intenções, o céu está
cheio". Algumas advogadas, ao defender bandidos, acabam se juntando
ao grupo. Médicos não são infalíveis, mesmo
porque o corpo não é uma ciência exata, mas podem
ser negligentes, como no caso da morte de meu pai (que era médico)
e foi assassinado durante uma endoscopia(!), por simples negligência
na anestesia. Por que engenheiros devem ser infalíveis?
Por acreditarmos na ciência e na técnica (e agimos muito
bem em fazê-lo), porque as leis que regem o mundo são pura
física. Mas, da mesma forma que os médicos não podem
regular totalmente a vida, as obras de engenharia, por mais aprofundados
que sejam os estudos para executá-las, também enfrentam
o seu "corpo humano", que são os fenômenos da natureza.
Terremotos, tsunamis, solos frágeis, inundações afetam
edifícios, barragens, plataformas marítimas – ainda
que o projeto e a execução tenham sido os mais cuidadosos
possíveis. O que a engenharia faz nesses casos, de maneira extremamente
inteligente e humilde, é estudar as catástrofes para projetar
e executar as próximas obras levando em conta os pontos em que
falharam anteriormente. Assim, sempre houve dentro dos cálculos,
projetos e processos de obra, algum empirismo. Em algum momento existiu
tentativa e erro, que é o processo pelo qual a humanidade aprende.
Muitas vezes, um erro humano mínimo, uma peça de alguns
dólares põe a perder um Boeing, uma espaçonave, ou
uma plataforma marítima, que são os mais impressionantes
objetos já projetados, aos quais milhares de engenheiros e arquitetos
se dedicaram. O que se faz é buscar a causa para impedir que se
repita, e não simplesmente apontar culpados. Mesmo porque, na maior
parte das vezes a causa não está de forma nenhuma na engenharia,
mas sim na forma de contratação, de gestão e de administração,
que acaba sempre desaguando na política – essa, sim, a causa
de todos os males (e de alguns bens) do mundo.
Além disso, nunca há uma só causa em um acidente,
mas uma somatória de várias leis de Murphy, fato que por
si já é uma lei de Murphy, a propósito, um engenheiro.
Ao se estudarem as causas de grandes desastres, infalivelmente se chega
sempre à conclusão de que o valor da contratação
foi subestimado, ou houve algum desvio, ou o prazo era inexeqüível,
ou a manutenção não foi adequada, ou as economias
foram demasiadas, ou a administração foi malfeita e os recursos
acabaram, ou não foram contratados os melhores profissionais, ou
foram economizados recursos em pesquisas e investigações.
Enfim, erros de engenharia, de pura técnica, são raríssimos.
Também os notamos com menos freqüência porque o mais
comum são acidentes de obras em uso e cujas conseqüências
são muito maiores, tanto do ponto de vista de custos, como do ponto
de vista humano, porque obras ocupadas, ou próximas a locais ocupados
matam muito mais gente. Os acidentes em obra às vezes são
percebidos antes de acontecerem e, muito embora o seu custo seja enorme,
há tempo para se salvarem vidas.
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