À primeira vista, o edifício partido em dois que ilustra a capa deste número de AU pode parecer mais uma obra pós-moderna, deconstrutivista, projetada para chamar a atenção da mídia. Mas, como já observou Oscar Wilde, só os superficiais se enganam com as aparências. Cada uma das soluções empregadas nas Torres Siamesas, projeto dos chilenos Alejandro Aravena, Charles Murray, Alfonso Montero e Ricardo Torrejón para a Universidade Católica do Chile, em Santiago, tem uma razão de ser. A própria idéia de quebrar o volume em dois a partir do sétimo andar foi proposta para resolver uma questão imposta pelo cliente, que pediu uma "torre", mas tinha apenas 5 mil m2 disponíveis para a obra. Por mais que os arquitetos diminuíssem a área de cada pavimento, o resultado era sempre um prédio bastante "atarracado". Com a divisão, o bloco bicéfalo aparece como duas construções elegantes e estreitas, mais próximas do conceito de torre. O efeito é ainda reforçado pela diferença na cor das esquadrias de alumínio aplicadas em cada volume. Alejandro Aravena, titular do escritório responsável pelo projeto, despontou como um dos principais nomes da arquitetura chilena na década de 90. Antes mesmo de ser formar em 1992 pela própria Universidade Católica onde hoje leciona, foi premiado pela Bienal de Veneza, em 1991. Em 2000 foi finalista do Prêmio Mies van der Rohe e, em 2004, declarado pela revista norte-americana Architectural Record um dos "10 Arquitetos de Vanguarda". O reconhecimento não veio à toa. O pensamento de Aravena em relação à arquitetura e aos arquitetos é lúcido e inovador. "A arquitetura está jogando um jogo perigoso desde a revolução da arte moderna", diz. "Pensa ter conquistado um privilégio criativo do tipo 'me dê espaço para ser um gênio, me dê espaço para criar minha arte', e essa busca pela independência da arte pela arte tem um preço: o preço da irrelevância", conclui. O arquiteto vai ainda mais longe. Argumenta que o alto impacto de obras espetaculares é usado para disfarçar tal irrelevância. É algo para se pensar.