"A
terra é um excelente material: térmico, não tóxico,
adquire a forma que se quer e tem boa resistência. Dependendo da
técnica é também estrutural, além de ser um
material ecológico de mínimo impacto e barato, já
que está ali mesmo no seu terreno", explica Marcelo Bueno,
arquiteto e secretário-executivo do Instituto de Permacultura e
Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema). Existem quatro principais técnicas
para construções com terra crua: o adobe, que consiste em
um tijolo seco ao sol, montado em fôrmas de madeira ou compensado;
o BTC – bloco de terra comprimida; a taipa de mão ou sopapo,
conhecida popularmente como pau-a-pique, e a taipa de pilão. Há,
ainda, técnicas derivadas, como o superadobe, que utiliza sacos
de polipropileno com subsolo inorgânico para moldar paredes e cúpulas
autoportantes. Esse sistema foi usado, por exemplo, na sede do Instituto
de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec), onde as paredes de superadobe
têm de 40 a 60 cm de espessura (AU 142). De acordo com o arquiteto
Paulo Montoro, fundador da Associação Brasileira de Construtores
com Terra (ABCTerra), a taipa de pilão é a mais resistente
à compressão, enquanto a taipa de mão, o adobe e
o BTC são melhores na vedação. Para construções
em taipa de pilão, utilizam-se fôrmas de madeira ou compensado
que são preenchidas com terra socada com o auxílio de uma
mão de pilão.
Segundo Montoro, qualquer terra é adequada para a utilização.
No entanto, de acordo com o clima regional, há técnicas
mais indicadas. "O pau-a-pique é mais utilizado em regiões
úmidas, enquanto o adobe é bom para regiões mais
secas", aponta Bueno. No que diz respeito à resistência,
Montoro brinca: "você qualifica uma casa de terra em séculos,
enquanto não podemos dizer ainda que as construções
em concreto tenham tamanha durabilidade". No Brasil, pode-se encontrar
casas que datam do descobrimento: "para conhecer essas construções
e só ir a Porto Seguro, onde chegaram os portugueses", sugere
Bueno. "Hoje a utilização de terra crua para construção
faz parte do cotidiano de muitas regiões. Na Bahia utiliza-se a
técnica do adobe, mais adequada ao clima local, assim como no México,
Bolívia, Peru e Estados Unidos, onde o tijolo de adobe é
inclusive vendido em casas de materiais de construção",
explica.
Vou transformar uma edícula em uma adega. Quais as opções
de climatização e quais outros cuidados devem ser tomados?
Marcos Moacir de Freitas, arquiteto
De acordo com Antônio Joshua Pereira Costa, da Joshua Marcenaria,
empresa especializada na construção de adegas, é
possível transformar qualquer local de uma residência em
adega. No entanto, diversas adaptações têm de ser
feitas, já que o armazenamento de vinhos demanda cuidados especiais.
Segundo Eduardo Viotti, diretor da Vinho Magazine e membro efetivo da
Federação Internacional dos Escritores sobre Vinho (Fijev),
a temperatura de armazenamento deve ficar entre 14ºC e 19ºC.
A arquiteta Vanja Hertcert lembra que, ao se projetar uma adega, é
importante observar se as paredes não recebem incidência
direta do sol. Caso isso aconteça, deve-se isolá-las e revesti-las
internamente. Viotti indica a aplicação de tintas resinosas
ou impermeabilizantes nas paredes e borrachas para vedar portas e janelas,
e impedir que a temperatura varie. Já Joshua aponta também
a existência de placas térmicas feitas especialmente para
essa utilização. Quanto ao resfriamento, existem climatizadores
especiais, mas um ar-condicionado potente e um termômetro de adega
podem ser uma opção aos climatizadores. "O problema
do ar-condicionado é que ele tende a deixar o ambiente seco, o
que resseca a rolha, fazendo-a encolher e prejudicando o vinho",
explica Joshua. Nesse caso, seria necessário instalar um umidificador
de ambiente. Outra dica para combater a baixa umidade, de acordo com Vanja,
seria espalhar areia no chão e borrifar com água. A umidade
perfeita para uma adega varia entre 60% e 80% e pode ser medida com um
higrômetro. Os pisos também devem ser projetados especialmente
para evitarem a quebra das garrafas em caso de queda. Uma opção
para a adaptação de uma edícula, segundo ele, seriam
pisos emborrachados com absorção alta. Como a iluminação
forte acelera oxidação, alterando a cor e aroma do vinho,
é preciso cuidado com a entrada de luz natural. "Instale uma
iluminação que permita a leitura de rótulos, mas
que garanta a escuridão para o vinho na maior parte do seu tempo",
indica Vanja. No armazenamento, a disposição das garrafas
deve ser horizontal, de modo que não se movimentem. As prateleiras
podem ter receptáculos individuais ou em pequenos grupos de quatro
ou cinco garrafas e, se forem de madeira, devem receber tratamento para
evitar cheiros que possam contaminar o vinho.