Urbanismo é uma disciplina lenta, atrasada, burocrática, retrógrada, chata. A história do urbanismo é uma história de projetos engavetados, de sonhos não realizados, de idéias que foram substituídas por não-idéias, de tentativas de planejar que foram vencidas pela atrocidade do fenômeno urbano. Sabemos que o tamanho das nossas cidades e que a quantidade dos problemas urbanos tornaram a noção de ordenamento um fato quase ingênuo. Violência, crescimento desordenado, desequilíbrio de infra-estrutura, transporte público deficiente e falta de saneamento são apenas alguns dos problemas óbvios que só confirmam nossa sensação de impotência diante de sua magnitude.
Se, entretanto, mais arquitetos estivessem pensando a cidade de outras maneiras e se menos políticos fossem mal assessorados, a situação talvez pudesse ser ao menos um pouco melhor. Arquitetos associam seu campo de atuação a áreas de trabalho estanques, onde sobra pouco espaço para uma leitura mais abrangente da arquitetura, do urbanismo e do paisagismo como disciplinas integradas. Em tempos de desafios impostos pela ecologia e pela própria complexidade das cidades, a visão integrada daquelas três disciplinas é uma estratégia fundamental. Precisamos ver o urbanismo como arquitetura em escala maior, o paisagismo como um urbanismo permeável, a arquitetura como um urbanismo espacializado – um justificando o outro como forma de imbricá-los de maneira indissociável. Por isso, o urbanismo pode também ser um campo flexível, mole e aberto a investigações. Essa disciplina estigmatizada em Brasília, abandonada pelos pós-modernos e reativada por Rem Koolhaas pode, agora, ser explorada com novas idéias, novos conceitos e novas misturas disciplinares.
Se quisermos atuar de forma consciente na cidade, precisamos entender a informalidade e o caos urbano para então tentarmos tirar proveito dessa condição. Será inventando outros olhares possíveis sobre a cidade existente que poderemos entendê-la a partir dela mesma e não remedando modelos de outras cidades, tentando enfrentar o que realmente fugiu ao nosso controle de outras formas – um urbanismo arquitetônico, um paisagismo urbanístico, uma arquitetura da paisagem. Esse artigo procura ilustrar a produção de alguns escritórios que buscam, no hibridismo, na informalidade e nos problemas próprios da cidade contemporânea um novo posicionamento na profissão.
Associação Arquitetos sem Fronteiras – ASF-Br
O primeiro projeto da representação nacional da Associação Arquitetos sem Fronteiras (ASF-Br) é lançar um plano de programas para áreas ociosas nunca vistas como locais com potencial de ocupação planejada, como as áreas sob ou no entorno dos viadutos urbanos. A proposta do grupo, intitulada Baixios de Viadutos, pesquisa o potencial de uso das áreas lindeiras aos 15 viadutos e seis passarelas de pedestres ao longo dos 25 quilômetros da Via Expressa Leste-Oeste, em Belo Horizonte.
Ao propor um plano de usos para essas áreas, o projeto procura aceitar a informalidade urbana e, ao mesmo tempo, incorporar nessa discussão os ex-moradores de rua que foram expulsos dos viadutos. Ora, todos nós sabemos que as grandes cidades brasileiras têm nas áreas que pertencem ao setor público um reservatório de terrenos ociosos sujeitos a ocupações pela população de baixa renda, ou mesmo por setores da economia formal. Existem áreas que são invadidas devido à conivência das prefeituras com certos usos ilegais e/ou por sua incapacidade de controlar o crescimento informal.
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