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Crônicas Agudas


ARQUITETONICAMENTE INCORRETO
POLITICAMENTE MAIS AINDA, FELIZMENTE

POR SERGIO TEPERMAN




Estamos preparando uma viagem dos arquitetos da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) e uma série de encontros com colegas no exterior. Ao iniciarmos os contatos para esse evento, fomos delicadamente informados por alguém do ramo que deveríamos ser cuidadosos, porque existe um establishment organizado em órgão de classe que discrimina o que é boa arquitetura e bons arquitetos e o que não é aceitável. Trata-se de uma posição similar às corporações de ofício de séculos atrás: não basta simplesmente ser um bom profissional inscrito na corporação. É necessário que você seja parte do grupo dominante, seja "politicamente adequado" e sua estética (ou estática) acompanhe a estética atual e histórica do grupo.

Os artistas em geral (honrosamente excluídos os de circo e os futebolistas) são considerados os elementos de mentalidade mais aberta e liberal da sociedade. Se somente a sociedade inteira os considerasse assim, maravilha. O problema é que os próprios artistas se consideram os mais abertos e liberais. Como se diz hoje em dia, se acham. Portanto, para você se tornar aberto e liberal, basta ser aceito pelo grupo. Você, seus amigos, seus discípulos e seguidores, seus filhos, seus primos receberão as encomendas oficiais, bem como os usuais prêmios e serão convidados para palestras e exposições, felizmente sem terem de obedecer às famigeradas leis de licitação.

E a arquitetura resultante, todos temos de reconhecer, será razoável, com uma característica: obedecerá às leis – não das licitações, graças a Deus –, mas do establishment, establishmentecidas, no caso de São Paulo, nas décadas de 50/60. Aparentemente o mundo mudou desde lá. Ser jogador de futebol dá status, os empresários inventivos são elogiados e as mulheres (exceto em certos países) passaram a ser consideradas seres humanos. O conceito de arquitetura aceitável, e não necessariamente boa, entretanto, continuou o mesmo, por ser, como tudo, uma opção dos setores dirigentes e "bem pensantes".

Nessa visão, há anos-luz de diferença entre a técnica e a arte. Na arte, é verdade, se faz muito mais experimentações, mas é na técnica e na ciência que, uma vez comprovadas, elas são imediatamente aceitas, sem discriminação ou sem propriedade de grupos. Há uma maneira de vencer essas barreiras. É utilizar o sufixo "ismo". Ismo mesmo. Crie um movimento com o nome terminado em "ismo" e terá meio caminho andado. Por exemplo: neoconcretinismo. O movimento moderno, notadamente o racionalismo, detonou o neoclássico não só na arquitetura. Toda a arte produzida no século 19 foi considerada whisky de segunda linha. Pode até ser verdade, mas precisavam jogar fora todos os barris?

A ditadura arquitetônica estabelecida pelo racionalismo/modernismo, e que pautou o ensino de arquitetura que recebi (ótimo ensino, diga-se de passagem), adaptou os seus dogmas para o que passou a se chamar "arquitetura paulista" (ou pauleira, ou paulada). Esses dogmas, como os propostos pelo cinema dinamarquês, continuam até hoje.

Confesso que, sob outro ponto de vista, mais pluricultural, também discrimino entre arquitetura boa, arquitetura má e aquela que denomino anódina. Arquitetura anódina seria a dos prédios de escritórios arquitetonicamente, suiçamente e estruturalmente certinhos, mas que não despertam nenhuma emoção ou interesse. Como os edifícios arquitetonicamente modulados, com concreto aparente e tijolinhos idem. Também reconheço que, ao ver uma edificação, automaticamente a classifico nessas categorias, instintivamente, sem saber por que o faço. Acredito que sejam os anos de treinamento, de contato com outras culturas e de conhecimento da história da arquitetura que auxiliem a proceder a essas escolhas.

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