Estamos preparando uma viagem dos arquitetos da AsBEA (Associação
Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) e uma série de
encontros com colegas no exterior. Ao iniciarmos os contatos para esse
evento, fomos delicadamente informados por alguém do ramo que deveríamos
ser cuidadosos, porque existe um establishment organizado em órgão
de classe que discrimina o que é boa arquitetura e bons arquitetos
e o que não é aceitável. Trata-se de uma posição
similar às corporações de ofício de séculos
atrás: não basta simplesmente ser um bom profissional inscrito
na corporação. É necessário que você
seja parte do grupo dominante, seja "politicamente adequado"
e sua estética (ou estática) acompanhe a estética
atual e histórica do grupo.
Os artistas em geral (honrosamente excluídos os de circo e os
futebolistas) são considerados os elementos de mentalidade mais
aberta e liberal da sociedade. Se somente a sociedade inteira os considerasse
assim, maravilha. O problema é que os próprios artistas
se consideram os mais abertos e liberais. Como se diz hoje em dia, se
acham. Portanto, para você se tornar aberto e liberal, basta ser
aceito pelo grupo. Você, seus amigos, seus discípulos e seguidores,
seus filhos, seus primos receberão as encomendas oficiais, bem
como os usuais prêmios e serão convidados para palestras
e exposições, felizmente sem terem de obedecer às
famigeradas leis de licitação.
E a arquitetura resultante, todos temos de reconhecer, será razoável,
com uma característica: obedecerá às leis –
não das licitações, graças a Deus –,
mas do establishment, establishmentecidas, no caso de São Paulo,
nas décadas de 50/60. Aparentemente o mundo mudou desde lá.
Ser jogador de futebol dá status, os empresários inventivos
são elogiados e as mulheres (exceto em certos países) passaram
a ser consideradas seres humanos. O conceito de arquitetura aceitável,
e não necessariamente boa, entretanto, continuou o mesmo, por ser,
como tudo, uma opção dos setores dirigentes e "bem
pensantes".
Nessa visão, há anos-luz de diferença entre a técnica
e a arte. Na arte, é verdade, se faz muito mais experimentações,
mas é na técnica e na ciência que, uma vez comprovadas,
elas são imediatamente aceitas, sem discriminação
ou sem propriedade de grupos. Há uma maneira de vencer essas barreiras.
É utilizar o sufixo "ismo". Ismo mesmo. Crie um movimento
com o nome terminado em "ismo" e terá meio caminho andado.
Por exemplo: neoconcretinismo. O movimento moderno, notadamente o racionalismo,
detonou o neoclássico não só na arquitetura. Toda
a arte produzida no século 19 foi considerada whisky de segunda
linha. Pode até ser verdade, mas precisavam jogar fora todos os
barris?
A ditadura arquitetônica estabelecida pelo racionalismo/modernismo,
e que pautou o ensino de arquitetura que recebi (ótimo ensino,
diga-se de passagem), adaptou os seus dogmas para o que passou a se chamar
"arquitetura paulista" (ou pauleira, ou paulada). Esses dogmas,
como os propostos pelo cinema dinamarquês, continuam até
hoje.
Confesso que, sob outro ponto de vista, mais pluricultural, também
discrimino entre arquitetura boa, arquitetura má e aquela que denomino
anódina. Arquitetura anódina seria a dos prédios
de escritórios arquitetonicamente, suiçamente e estruturalmente
certinhos, mas que não despertam nenhuma emoção ou
interesse. Como os edifícios arquitetonicamente modulados, com
concreto aparente e tijolinhos idem. Também reconheço que,
ao ver uma edificação, automaticamente a classifico nessas
categorias, instintivamente, sem saber por que o faço. Acredito
que sejam os anos de treinamento, de contato com outras culturas e de
conhecimento da história da arquitetura que auxiliem a proceder
a essas escolhas.
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