Em junho de 2007, Rodolfo Geiser completa 50 anos de atividade dedicada a jardins e paisagens, elaborando projetos e sugerindo reflexões sobre as relações, sobretudo éticas, entre a paisagem e o homem. Geiser sempre atuou com micro e macropaisagismo, projetando jardins de residências, hotéis, clubes. Também planejou interferências na paisagem urbana, em bacias hidrográficas, propriedades rurais e estradas de rodagem.
Em seu currículo, constam obras como Masp, linha Norte/Sul do Metrô, largo São Bento e Parque Villa Lobos, todos em São Paulo, além da rodovia dos Bandeirantes. Na área industrial, mantém uma relação de clientes como Alcan, Alcoa, Cyba-Geigy, Conexões Tigre e Casas Bahia. Pioneiro na recuperação de paisagens com o projeto da Ilha das Cabras em Ilhabela, litoral de São Paulo, atualmente tem sido muito solicitado para a reabilitação de ambientes degradados.
Às vésperas de completar as Bodas de Ouro na profissão, Geiser está escrevendo um texto sobre a ética da ecologia. Para ele, o paisagismo é uma sinfonia, onde cada textura é uma nota. Depois de 30 anos morando e trabalhando em São Paulo, o paulistano trocou a cidade pelo campo e, em 1994, transferiu-se para Bragança Paulista, interior de São Paulo, com a sua companheira e sócia, Christiane Ribeiro. Hoje, mantém seu viveiro, seu ateliê e sua casa na mesma propriedade. Apesar da experiência adquirida ao longo dos tempos, ele diz que, de lá para cá, aprendeu muito acompanhando as estações do ano e o crescimento das plantas. E confessa: "Sinto-me muito mais inspirado".
aU COMO E QUANDO FOI A APROXIMAÇÃO COM O PAISAGISMO?
RODOLFO GEISER Meu pai sempre foi muito ligado à natureza. Ele tinha um sítio que íamos quando éramos crianças. Eu via aquela ligação da pequena propriedade agrícola com a paisagem, me entusiasmei com a natureza, com a paisagem, com o bom uso do solo. Foi meio intuitiva a minha relação com o paisagismo. Às tantas, queria fazer agronomia. Não tinha muito dinheiro e meu tio perguntou se eu não queria trabalhar no Zimber. Eu fui.
aU ONDE COMEÇA SUA HISTÓRIA PROFISSIONAL?
GEISER Aos 17 anos, em 1957, comecei a trabalhar na firma Casa Flora, de Germano Zimber e Cia, que projetava e executava jardins. Eu desenhava jardins e acompanhava o crescimento das plantas no viveiro. Não conheci o Zimber, só a viúva. Essa senhora era também hinduísta, ligada à espiritualidade humana, às pessoas e à natureza. Ela importava uns livros da Índia e me dava. Acabou me pegando com as suas teorias espiritualistas. Em Piracicaba, durante a época de estudante universitário, ajudei a pagar a república projetando e executando jardins residenciais. Os jardins residenciais e a própria Casa Flora me deram um profundo conhecimento das plantas ornamentais utilizadas na época e a base sobre uma maneira de pensar jardins. E, ao me formar, continuei na mesma linha, como engenheiro-agrônomo.
aU O QUE MUDOU NO PAISAGISMO NESSES 50 ANOS DE CARREIRA?
GEISER Para mim, o marco divisório no Brasil, na década 1950, foi o paisagista Roberto Coelho Cardoso. Formado em Berkeley, na Universidade da Califórnia, e aluno do paisagista de fama internacional, o Garret Eckbo, era professor da cadeira de paisagismo na FAUUSP, e promoveu um salto qualitativo na formação do paisagista. Cardoso insistia em maior elaboração, precisão e rigor nos projetos. Considerar os espaços que a vegetação pode criar.
aU COMO ERA ANTES DO COELHO CARDOSO?
GEISER Não havia o cuidado de fazer um projeto com o nível de detalhamento necessário, de nível universitário. Havia muitos alemães em São Paulo fazendo jardim. Na Alemanha, havia escola de jardinagem de nível superior. A gente fazia desenho sem detalhamento. Naquela época, e até hoje, trabalhava-se no triângulo: viveiro, croquis, execução e manutenção do jardim - que volta para o viveiro. Depois mudou, o cliente contrata o projetista e faz uma concorrência para a execução.
aU COMO O SR. DESENVOLVEU O DESENHO?
GEISER Sempre gostei de desenhar, desde criança. Em Piracicaba, tinha muito pouco desenho. Aprendi no Zimber com os desenhistas de lá. E o Coelho Cardoso deu uma virada na minha cabeça. Depois, fui indo sozinho. E desde essa época procuro projetar junto com arquitetos.
aU NA PRÁTICA, QUAIS FORAM AS TRANSFORMAÇÕES DO PAISAGISMO?
GEISER O uso da vegetação, antes essencialmente baseado em espécies exóticas trazidas da Europa pelos jardineiros da época, incrementou-se, graças ao movimento ecológico, o uso de espécies nativas, principalmente no caso das árvores. Surgiu também, na década de 1980, um movimento de arquitetos preocupados em projetar a paisagem, centrados na FAUUSP. Hoje temos arquitetos-paisagistas, engenheiros agrônomos-paisagistas (como é o meu caso) e uma série de profissionais com formação de nível médio, que projetam e executam jardins.
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