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Entrevista

50 ANOS DE PAISAGISMO E REFLEXÕES
O ENGENHEIRO AGRÔNOMO E PAISAGISTA RODOLFO GEISER COMEMORA MEIO SÉCULO DE PROFISSÃO EM PLENA ATIVIDADE. COM A CABEÇA CHEIA DE IDÉIAS E A PRANCHETA REPLETA DE PROJETOS, DEFENDE A ÉTICA DA ECOLOGIA, EM NOME DA HARMONIA ENTRE O HOMEM E A NATUREZA

POR SILVANA MARIA ROSSO FOTO MARCELO SCANDAROLI



aU QUAL A DIFERENÇA ENTRE PAISAGEM E JARDIM?

GEISER Quando a escala de trabalho é o metro quadrado, denomino jardim (micropaisagismo). E quando a escala é o hectare ou ainda o quilômetro quadrado, chamo de paisagem (macropaisagismo). Pessoalmente, entendo que não existe grande diferença entre as palavras. A maior diferença é uma questão de trato, de cuidado com as plantas, em que se deve considerar também a questão do custo de plantio e, principalmente, de manutenção. O jardim, ao se repetir ano a ano, vai corresponder a recursos financeiros bastante elevados. Nessa linha de pensamento, poderia dizer que jardim é uma paisagem bastante elaborada e que requer cuidados técnicos e consideráveis recursos financeiros. Inversamente, a paisagem em geral, aqui considerando a paisagem cultural (urbana e rural), por sua extensão maior, exige a preocupação em se reduzir os custos de manutenção ao máximo: a manutenção da estrutura vegetal projetada deve "tender a zero", ainda que nunca se alcance essa situação.

aU QUAIS AS PREOCUPAÇÕES NA HORA DE PROJETAR O JARDIM E A PAISAGEM, ALÉM DA FINANCEIRA?

GEISER Quando você começa a interferir na macropaisagem, você quer urbanizar. Na macropaisagem, vão me interessar os bairros, o cinturão verde entre os bairros, o cinturão entre o bairro e as áreas industriais. O jardim é uma pequenina paisagem que eu vou administrando, vou criando espaços menores. No jardim, pode-se ter o luxo de colocar flores anuais. Na paisagem, deixa-se de ter esse luxo. Na criação da paisagem cultural, seja ela urbana ou rural, vegetação é material de construção. Isso porque, no que se refere à integração das atividades humanas na paisagem, é necessário manter áreas permeáveis para preservar os mananciais, evitar a erosão, cuidar da diversidade de vida vegetal e animal. E diante da ocupação, estabelecer usos definidos por estruturas verdes. Tais estruturas serão projetadas em função das características e qualidades dos espaços. Por exemplo, a necessidade de se proteger dos raios do sol poente e dos ventos fortes vai exigir a presença de árvores.

aU MUITOS DIZEM QUE EUROPA É UM JARDIM. COMO É O TRATO DA PAISAGEM NO VELHO CONTINENTE?

GEISER Isso vale muito para os países da parte central: França, Alemanha, Suíça, Áustria, norte da Itália e também a mais distante Inglaterra. Esses países investem consideráveis recursos financeiros para sua paisagem ter a aparência de um jardim. A finalidade última, além disso ter virado uma tradição, é atrair turistas que ficam encantados com o que vêem. Alguns desses países dão incentivos à agricultura tendo como objetivo final não a produção agrícola em si, mas a indústria do turismo. Temos farta bibliografia mostrando que a paisagem inteira da Alemanha está sendo meticulosamente planejada. Lógico que reflete também uma preocupação com a ecologia.

aU QUAL A IMPORTÂNCIA DA PAISAGEM NA VIDA DO SER HUMANO?

GEISER As paisagens criadas têm o "dever" implícito de ser saudáveis para a vida humana. Isso implica cuidar das condições físicas do homem e demais seres vivos. Por exemplo, cuidar da insolação adequada (os raios solares matinais são germicidas e os do sol poente são muito quentes), proteger ventos fortes e dar abertura aos ventos suaves que refrescam o ambiente, cuidar de ter sombra para abrigo, bem como de propiciar lazer passivo e ativo, entre outras preocupações. A saúde psíquica, entretanto, para o nosso escritório, é uma das mais importantes. O contato homem-natureza, que deve ocorrer no cotidiano, é um dos componentes essenciais para sua saúde mental. O contato com a natureza, em especial a vegetação, lembra-lhe que ele também é um ser vivo. Que nasce, cresce e um dia vai morrer, assim como as plantas. O tempo da natureza faz o homem relembrar, a cada passo que dá, seu próprio tempo. Aí, ajudam as estações do ano, a época das flores, dos frutos e a queda das folhas. O frio do inverno e o calor do verão. E assim por diante. O homem alienado do contato com a natureza é um ser vulnerável a distúrbios mentais.

aU QUAL A RELAÇÃO DA PAISAGEM COM A ARQUITETURA E O URBANISMO?

GEISER Não há projeto de urbanização ou de arquitetura que não envolva a recriação de uma paisagem. É por isso, que desde 1963, trabalho em parceria com arquitetos. No metrô (na linha Norte-Sul), junto com o departamento de arquitetura nasceu o largo São Bento. Toda a rodovia dos Bandeirantes (São Paulo-Campinas) tem o meu dedo em co-autoria com o departamento de arquitetura.

aU COMO É ESSA RELAÇÃO ENTRE ENGENHEIRO AGRÔNOMO E ARQUITETO?

GEISER Nosso escritório está centralizado em dois profissionais, um arquiteto e um engenheiro-agrônomo, respectivamente Christiane Ribeiro e eu. Somos sócios, diretores e responsáveis técnicos pelos projetos elaborados. Há um intercâmbio de idéias. Todos nossos projetos são feitos em co-autoria envolvendo o arquiteto e o engenheiro-agrônomo. Isso é uma questão de princípio. Nosso escritório, ao projetar, preocupa-se primeiramente na criação de espaços (arquitetura) úteis ao homem e depois no projeto da estrutura verde que vai compor tais espaços (agronomia). Após desenhada a estrutura, sua dimensão, altura, largura, composição interna, é que vamos pensar em quais espécies vamos utilizar. Lógico que a preocupação com a ecologia é intrínseca a esse processo.

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