Como o assunto é explosivo, embora não devesse ser, antes de mais nada é necessário esclarecer que nem o CREA, nem os órgãos de classe, sindicatos, etc. e muito menos esta revista são responsáveis pelas opiniões a seguir. E vamos deixar também bem claro que, se nenhuma dessas organizações - que deveriam se posicionar e definir a questão - não o fazem, por que eu o faria? Então estamos conversados: eu também não sou responsável por nada que estiver escrito neste artigo.
Os primeiros dados históricos a propósito de comissão sobre serviços profissionais registram uma partida de 84 camelos entregues pelo departamento de compras do Egito a um arquiteto que elaborou os projetos de três tetraedros altíssimos na periferia da cidade de El-Khair. Até hoje os cairocas (residentes do Cairo) se questionam se esse pagamento foi justo ou não. Quanto aos camelos, sabe-se que o arquiteto os trocou por uma rainha de nome Elizabeth Taylor. Do meio dessas pirâmides, 20 séculos nos questionam: é justo receber uma comissão por materiais especificados em um projeto? Em teoria, e segundo critérios quase norte-americanos, se você é responsável pela indicação de um produto ou serviço, você tem direito a uma participação. Os norte-americanos têm um nome claro para isso, finders fee, que parece nome de romance de escritor irlandês. Mas os pagadores dessa participação estão mais para escoceses, pela sua conhecida mão fechada.
Assim, aquilo que do ponto de vista de um norte-americano é uma condição profissional normal, possui, no entanto, fatores éticos que devem ser analisados. Por exemplo, certas farmácias de grandes redes registram o CRM do médico quando o cliente chega com a receita para comprar remédio. Para quê? A dúvida moral que sempre desponta é simples. Este produto ou equipamento (ou, em caso grave, serviço) está sendo indicado ou especificado 1) Por suas características serem mais adequadas ao desempenho requerido? 2) Por que quem o indicou vai receber uma comissão? 3) Pelas duas razões ao mesmo tempo? As respostas 1 e 3 estão certas, mas serão justas? Quem responder que só a alternativa 1 é justa estará se referindo a um mundo ideal, a um mercado profissional conceituado, a um universo de clientes cultos e inteligentes. Infelizmente essas condições estão a séculos luz de um país tão mentalmente subdesenvolvido como o nosso.
É sabido que desenvolvimento econômico está distante de representar avanço mental ou cultural - vide países do petróleo. Desenvolvimento econômico representa também um maior equilíbrio social, que vem com cultura. Estamos longe.
Mas não devemos ser como os pseudo-idealistas do governo brasileiro segundo os quais enquanto não houver igualdade social, os criminosos podem matar à vontade. Se as questões de um mercado profissional são lamentáveis, não adianta aguardar o dia do juízo final. Quando um assunto atinge um determinado ponto, precisa ser encarado de frente, de peito aberto e preferivelmente siliconado, para ser impermeável às broncas que certamente surgem.
Um profissional deve ser corretamente pago pela qualidade do trabalho que fornece, em todos os aspectos da palavra - que está a quilômetros do burocrático termo "certificação". Em vez de pendurarem no hall de entrada a "política da qualidade", deveriam colocar a "política da certificação", que virou uma indústria de cursos, auditorias e diplomas.
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