Puerto Natales é a capital da província de Ultima Esperanza, na Patagônia chilena, e última cidade antes do Parque Nacional Torres del Paine, um dos conjuntos maciços mais procurados por aventureiros radicais do mundo e considerado reserva da biosfera pela Unesco. Junto à entrada marítima da cidade, e voltado aos glaciares do parque, o Indigo Hotel, projeto do jovem arquiteto chileno Sebastián Irarrázaval, também foi feito para ser explorado com cuidado. Espaço por espaço, cada uso revela e esconde o próximo, assim como as surpreendentes vistas e contornos das montanhas ao seu redor.
Estratégico ponto de encontro e descanso aos aventureiros que procuram o parque, o hotel foi projetado para se inserir na paisagem arquitetônica da cidade e ao mesmo tempo tornar-se um ponto de referência da região. A proposta era revitalizar uma antiga hospedaria e agregar a ela uma sofisticada pousada. Para tanto, Irarrázaval reocupou a antiga construção com um restaurante e bar, e em anexo definiu a construção de um novo edifício com térreo mais cinco pavimentos, que abriga 29 dormitórios, um spa e uma área de serviços. Elevando-se em um terreno em formato trapezoidal de 700 m2, as fachadas do novo hotel incorporam materiais comumente usados em Puerto Natales, como o aço corrugado presente nas elevações principais e a madeira de pinho empregada nas laterais. A cor vermelha das paredes externas também é típica da Patagônia, pois permite que os edifícios sejam vistos de muito longe. Os projetos gráfico e arquitetônico andaram de mãos dadas. As referências nas fachadas bem como as tipologias escolhidas remetem aos contêineres de navios de cargas, com seus símbolos característicos.
O sistemático ritmo linear horizontal das janelas dos dormitórios, distribuídos do primeiro ao terceiro andares, reforçam o caráter interno de divisão dos espaços públicos e privados. Os ambientes dos quartos são preenchidos pela horizontalidade de ripas de pinho, que envolve camas, lavatórios, mesas e bay windows, em um complemento ortogonal ao extenso painel vertical de barras de eucalipto que ampara todos os espaços públicos. Capítulo à parte, a matemática da circulação entre os ambientes constitui a grande força da arquitetura de Irarrázaval. Pela entrada leste chega-se ao lobby do hotel, em um primeiro pavimento, por meio de uma suave rampa ladeada pelo painel de eucaliptos. O piso de pedra expande-se e envolve todos os espaços desse nível.
O acesso ao segundo pavimento se faz pela torre de escadas metálicas junto à fachada sul, conjunto que traz contemporaneidade aos ambientes revestidos por materiais naturais, complementado pelo concreto presente nos pilares inclinados, paredes e teto. A partir desse nível, os outros pavimentos também podem ser alcançados por meio de uma grande escada central com piso revestido de pedra. As escadas levam a corredores de acesso aos dormitórios da porção oeste, e a pontes revestidas de madeira de pinho que desembocam nas grandes suítes do lado leste. O jogo geométrico de rampas, escadas e pontes esconde na medida certa os espaços privados, e revela um interessante vão livre central, marcado pelo contraste entre a verticalidade das paredes da circulação entre os diferentes níveis, e a horizontalidade das ripas de madeira que marcam as ligações entre ambientes do mesmo andar. O desenho desses revestimentos, mais do que agregar qualidade ao projeto do arquiteto chileno, alarga ambientes e expande alturas. A cobertura, no quinto pavimento, abriga um spa com salas de massagem, sauna e spas com hidromassagem. Guarnecidos por divisórias de vidro, a sauna e os espaços para massagem, localizados na área interna, são inteiramente revestidos de madeira. No terraço descoberto, os spas com vista para os maciços repetem a natureza ao redor, como a entrada marítima entre as montanhas.
Restaurante e bar
O restaurante e bar compartilham de um grande vazio central, onde as visuais expandem-se de maneira generosa e os níveis são vencidos por escadas. Localizados dentro da antiga hospedaria, a implantação dos dois pavimentos exigiu um reforço estrutural em todas as paredes externas, realizado com estrutura metálica leve, o steel frame. No primeiro nível, o restaurante inteiramente revestido de madeira de pinho desfruta da vista por meio de grandes janelões, por onde a presença da luz natural é abundante. A cobertura da casa também deixou espaço para iluminação zenital central, que evita o uso das luminárias pendentes durante o dia. A escada de acesso ao mezanino parte do centro do espaço do restaurante, em um corredor de circulação guarnecido por guarda-corpos de madeira. O bar do mezanino desfruta de um pé-direito duplo onde é exposta a estrutura da cobertura, com tesouras e aberturas zenitais. Os espaços do balcão e das mesas são conformados pela mesma tipologia de guarda-corpo do primeiro pavimento, de maneira a formar um grande "Y" vazado. A madeira continua a revestir piso e paredes, assim como a constituir todo o mobiliário.
