Há 18 anos, já não havia mais volta: Milton Hatoum trocou, definitivamente, o traço dos desenhos pelo das letras, quando publicou seu primeiro romance ( Relato de um certo oriente ). Formado em arquitetura pela FAUUSP em 1978, Hatoum fez de tudo um pouco. Logo que recebeu o diploma, participou de projetos em Manaus – cidade onde nasceu, em 1952 – e trabalhou em um escritório de arquitetura em São Paulo, além de dar aula de história da arquitetura na Universidade de Taubaté. Depois, trabalhou na Istoé como repórter, resenhando livros e peças teatrais. “Cobri as primeiras loucuras da Igreja Universal com a primeira grande concentração deles no Pacaembu”, conta. Em 1980, foi estudar língua e literatura espanhola na Espanha. Ia passar quatro meses e acabou ficando quatro anos, nos quais incluiu um mestrado em literatura comparada na Universidade de Paris III. Durante esse período, deu aula de português e chegou a ajudar uma tradutora a traduzir dois romances de Jorge Amado. Voltou a Manaus em 1984, onde ficou por mais 15 anos, e ainda lecionou literatura na Universidade do Amazonas e na Universidade da Califórnia (Berkeley). Entre a temporada na Europa e os primeiros anos em Manaus, escreveu seu primeiro romance.
Se seus projetos de arquitetura não ficaram na história, suas obras literárias o colocam entre os principais escritores brasileiros contemporâneos, editado em onze países. E, se lhe falta um Pritzker, sobram-lhe Jabutis: seus três livros levaram o prêmio máximo da literatura brasileira como melhor romance em 1990, com Relato de um certo Oriente , em 2001 com Dois irmãos e em 2006 com Cinzas do Norte.
Nos três, Manaus figura como mais uma personagem, retratada por suas ruas, sua arquitetura, suas transformações e pelas pessoas que a habitam. Hatoum recebeu a reportagem de AU para uma conversa que abordou desde a FAU dos anos 70, as experiências com arquitetura, as transformações de Manaus, até algumas teorizações que tentam aproximar o fazer arquitetônico e o fazer literário.
aU POR QUE ARQUITETURA?
MILTON HATOUM Um tio engenheiro-arquiteto talvez tenha me influenciado. Ouvia falar desse tio que veio de Manaus e ficou em São Paulo. Eu também desenhava em Manaus – além de ter uma banda e de pintar. Como achava que não podia viver nem da arte, muito menos da palavra, acreditei que a arquitetura poderia conciliar a arte com a técnica. Uma definição, aliás, que vem de Vitruvius: várias ciências que confluem para um ornamento, para uma beleza. Fui a Brasília para estudar o equivalente ao ensino médio no colégio de aplicação, da Universidade de Brasília. Era um colégio extraordinário, como depois foi a FAUUSP. Vejo muita semelhança entre o colégio de aplicação em Brasília e a FAU, pois eram laboratórios de experimentação, de arte, de literatura, fotografia e até mesmo de música. Existia por trás do projeto didático uma formação humanística que desapareceu das escolas.
aU COMO FOI ESTUDAR NA FAU NOS ANOS 70?
HATOUM A FAU me abriu possibilidades de linguagens, fui aluno do Flavio Mota, do Flavio Império, do Luis Carlos Daia, da Renina Katz, do Joaquim Guedes, do Rodrigo Lefreve, de arquitetos que pensavam a cidade e a ocupação urbana politicamente. Não era apenas uma orientação estética, passava pela leitura social. Nossa maior preocupação estava voltada à habitação popular, pelo menos a de um grupo considerável de alunos. Além disso, havia os laboratórios fotográficos, o teatro, criamos uma revista de poesia e desenho, chamada Poetação. Éramos eu, Tânia Parma, Newton Massafumi, Rubens Matuque e a Roseli Nakagawa. Foi uma revista que teve quatro ou cinco números e foi impressa na FAU.
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