aU ERA UM AMBIENTE NÃO SÓ DE ARQUITETURA?
HATOUM Havia uma multidisciplinaridade constante. Para passar pelo projeto, fazia-se uma pesquisa exaustiva social, econômica e geográfica. O projeto não estava desligado do contexto, do lugar, da cidade e das pessoas que iam habitá-lo. Além disso, tinha uma vida política e toda a brutalidade da vida brasileira no regime militar: a FAU era muito politizada e muitos colegas participaram do movimento estudantil. Mas sabia que não ia ser arquiteto, eu estava ali tentando me diplomar para entrar no mercado de trabalho. Foi na FAU que comecei a escrever com mais vontade. Cursei algumas disciplinas na Letras, com o Davi Arrigucci Jr, com a Leila Perrone Moises, o Alfredo Bosi. Esses cursos me estimularam a refletir sobre literatura.
aU COMO FOI A TRANSIÇÃO PARA A LITERATURA?
HATOUM Muito lenta. E também insegura, porque quando você publica, você se expõe muito. Não pensava em viver de literatura. Isso para mim era uma quimera. Por outro lado, existia uma grande frustração como arquiteto por não trabalhar no que queria: um projeto de habitação popular honesto, elaborado e pensado, cuja carência era e ainda é enorme. E os projetos de habitação popular que via, com raríssimas exceções, eram horrorosos, como canis, pombais para os pobres. O projeto do Artigas, em Guarulhos, é uma exceção maravilhosa que só confirma a regra.
aU VOCÊ CHEGOU A FAZER ALGUM PROJETO DE HABITAÇÃO POPULAR?
HATOUM Em 1977, logo que me formei, fui convidado a participar do projeto de uma cidade-dormitório ligada a Manaus – hoje tem cerca de 300 mil habitantes. Naquela época, teria duas mil casas, com comércio, lazer e serviços. Quis estudar a área e preservar a vegetação, porque era uma área de floresta primária linda. Questionei qual era o levantamento social e econômico que tinha sido feito. Responderam que não precisava. Era só cortar o mato e construir casas. A prefeitura queria o mesmo que estava sendo feito no Brasil: desmatar e construir um imenso canil. Aí caí fora, porque era uma desfaçatez enorme. Foi quando pensei que não podia ser arquiteto, porque iria passar a vida frustrado. Não queria passar a vida fazendo casas burguesas – embora não seja contra e fiz isso. Então, desisti. Mas em Manaus ainda fiz alguns projetos. Minha última recaída de arquiteto foi nos anos 80. Fiz o projeto de uma casa e de uma loja. Não gostei de nada. Mas quando eu terminei meu primeiro romance ( Relato de um certo oriente ), gostei tê-lo escrito.
aU VOCÊ PERCEBE ALGUMA MUDANÇA EM COMO SE VÊ A MORADIA POPULAR E A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA COM IMPACTOS AMBIENTAIS E OS SOCIAIS?
HATOUM O terrível é que não mudou. As políticas urbanas não mudaram. Há bons exemplos pontuais, mas, no geral, a situação ainda é de total desprezo pela população.
aU EM MANAUS ISSO É DUPLAMENTE FORTE, PORQUE ALÉM DO LADO SOCIAL, HÁ O LADO ECOLÓGICO.
HATOUM Exato. É uma destruição total, do meio ambiente e da possibilidade de uma moradia digna. Nos últimos 25 anos, Manaus cresceu horizontalmente e verticalmente. E naquele clima, as grandes torres são barreiras para a ventilação. Todo o colar fluvial, a área beira de rio que circunda Manaus, o rio Negro, é parte ocupada pelo exército, parte por condomínios de altíssimo luxo e uma grande parte por favelas. As cidades não são pensadas, não são planejadas no Brasil. Depois do estrago, vem um tipo de solução que é uma espécie de arremedo. Vou ser sincero: o arquiteto não tem voz no Brasil. O escritor não tem voz, o jornalista não tem voz. Ninguém tem voz. Esse é o País em que os três poderes dão as costas a qualquer tipo de crítica. Eles se completam na medida em que são auto-suficientes, desligados da população, indiferentes a qualquer tipo de crítica. Auto-suficientes na sua mediocridade secular. Mas do ponto de vista da cidade acho, por exemplo, que São Paulo só vai piorar. Há milhares de favelas: os pobres ou vão para a periferia ou para o morro. E no fundo os políticos não estão preocupados. O Ministério das Cidades está preocupado em regulamentar a propriedade do solo e tem feito um trabalho interessante. A passos lentos porque nesse País tudo é lento. E também porque são milhões de invasões. A periferia de Manaus é invasão. Grilagem de terra urbana, desmatamento, venda, construção de barracos, é algo insano. Há grupos organizados que invadem para vender os lotes invadidos. Desmatam, fazem lotes e vendem aos imigrantes que chegam em busca de emprego.
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