É nas esquinas de duas avenidas centrais de Buenos Aires, Santa
Fé e Callao, que Clorindo Testa produz sua arte e sua arquitetura.
Os seis andares que separam a entrada do edifício da porta de seu
escritório podem ser percorridos dentro de um elevador antigo,
com porta pantográfica, enquanto se vê passar pela estrutura
externa de ferro cada um dos andares. "O prédio é de
1910", conta depois Clorindo Testa, ao sair do edifício com
seu sobretudo e sua boina, sem esconder uma certa dose de orgulho. Como
em cenas de filmes antigos.
A escultura de um touro dentro de uma cerca recepciona os visitantes
do sexto andar e já os preparam para os traços do arquiteto-artista.
Ao abrir a porta, uma sala ampla mistura quadros e esculturas com uma
disciplinada negligência. E, ao fundo, uma outra porta já
aberta mostra a grande mesa submersa em papéis na qual Clorindo
Testa traça mais um projeto. De dentro do escritório se
pode escutar a vibração urbana do vaivém de carros,
ônibus e o murmurinho de pessoas na rua. "Meu pai sempre dizia
que se deve viver no centro das cidades."
Testa é um desses arquitetos que, literalmente, fazem e presenciam
a história. Nascido em 1923 - assim como Le Corbusier -
figura entre os arquitetos da segunda geração do movimento
moderno na América Latina, ao lado do argentino Mario Roberto Álvarez
(1913), do chileno Emilio Duhart (1918), do mexicano Pedro Ramírez
Vázquez (1919) e dos brasileiros Acácio Gil Borsoi (1924)
e Paulo Mendes da Rocha (1928). Testa recebeu a reportagem de AU em seu
escritório, onde concedeu a entrevista abaixo, na mesma semana
em que esteve com arquitetos brasileiros na assembléia da AsBEA.
aU SUA PRIMEIRA ESCOLHA ACADÊMICA FOI ENGENHARIA NAVAL.
POR QUÊ?
CLORINDO TESTA Terminei o colégio secundário
muito jovem, aos 16 anos, porque me fizeram adiantar os estudos. Nessa
idade, eu gostava de fazer maquetes de barcos e resolvi fazer engenharia
naval. Mas meu pai, que era médico, uma vez me perguntou o que
eu ia estudar e respondi, não sei o porquê, que ia estudar
medicina. E ele me respondeu: "não, de maneira alguma, medicina
não". Eu poderia ter sido médico se em vez de "de
maneira alguma" ele tivesse me dito "fantástico".
Porque aos 16 anos, ainda não se sabe o que se vai fazer.
aU E POR QUE ARQUITETURA?
TESTA Porque quando entrei em engenharia naval começou
a guerra. E eu não podia ir à Itália - era
preciso ir à Itália para estudar engenharia naval, após
dois anos de engenharia elétrica na Argentina. Então, deixei
essa idéia e comecei a estudar engenharia civil em Buenos Aires.
Fiz um ano e vi que ao lado estava a faculdade de arquitetura, onde se
desenhava mais, e fui para lá.
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