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Crônicas Agudas


Sergio Teperman escreve sobre Buenos Aires
CRY FOR ME, ARGENTINA
LOS LOCOS SUEÑAN CASTILLOS EN EL AIRE. LOS ARQUITECTOS LOS CONSTRUYEN. LOS PSICOLOGOS COBRAN EL ALQUILER...

POR SERGIO TEPERMAN


Dujovne, Baudizzone, Converti. Nomes que poucos conhecíamos e deles só sabíamos por causa de Jorge Glusberg. Ouvíamos falar de Amancio Williams, de Miguel Angel Roca, de Clorindo Testa - o nonino sin adiós - assim como eles conhecem Niemeyer e Burle Marx. Vicente Wissenbach há muitos anos apresentou os arquitetos do Brasil em Buenos Aires e Jorge Glusberg trouxe os argentinos ao Masp. E houve naturalmente as extraordinárias Bienais Internacionais de Glusberg, mas só para a Argentina. Agora, ainda que de maneira apressada e atribulada, pudemos ver a "nova" arquitetura argentina em três dias. É como quando Piazzola se apresentava e dizia que "temos o prazer de apresentar-lhes o novo tango que já tocamos há mais de 30 anos...".

A Argentina trilha há décadas, talvez há mais de um século, a arquitetura internacional. Essa opção aparece desde os seus prédios neoclássicos (atenção: bem-feitos!) e calçadas que lembram a gasta imagem da comparação com Paris, mas que estão mais para Madrid, até o art-déco americano do edifício Kavanagh e o modernismo dos anos 50, período em que a produção argentina lembra, no caso dos edifícios, o trabalho do norte-americano SOM e, com relação às residências, a obra de Richard Neutra.

Então surgiu nos anos 40 a arquitetura brasileira que encantou a crítica internacional. Nunca a produção dos dois países esteve tão distante. Como a Argentina (leia-se, na época, Buenos Aires), além de parada por décadas só projetava "internacional", o "estilo" brasileiro, turbinado pela construção de Brasília, arrasou.

Aí, por caminhos ínvios, regredimos ao brutalismo da moda, ao concreto aparente nem pré-moldado, nem pré-tendido, mas pré-deteriorado, que nos uniformizou para pior com o resto do mundo, porque perdemos as imagens dos anos 40 e 50. Ao contrário da Argentina, um país europeu, para nos destacarmos tínhamos de usar a identidade nacional, que se perdeu com o brutalismo.

Voltamos, indiretamente, com o advento do postmodern. Não pelo postmodern em si, mas pela liberdade de projetar aberta pelo desafio aos cânones do modernismo, ainda que permaneçam em todo o mundo os resquícios dos concretossauros, betonssauros, hormigonssauros e ultrapassauros. Ao sairmos das cavernas, como ursos depois do inverno, encontramos nas ruas - e desta vez de maneira internacional - a arquitetura... internacional.

Estamos nos adaptando a essa situação porque chegamos tarde. O que levou a arquitetura ao impressionante desenvolvimento atual foram recursos e tecnologia, mas o Brasil não dispõe dessas dádivas que naturalmente estão nos países ricos do norte e na Ásia. Sempre no mais barato, no mais mesquinho, no gasto mínimo, não temos como competir. Cercados pelos que investem, sejam particulares ou governamentais, e pela pressão das construtoras, ficamos sem poder de decisão.

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