Um dos aspectos mais importantes a serem considerados ao criar um projeto
arquitetônico é o da pertinência, ou seja, cuidar para
que o plano esteja apropriado ao uso, ao local e à cultura da comunidade
que irá habitar, freqüentar ou utilizar determinada edificação.
Em outras palavras, trata-se de analisar, à exaustão, os
princípios de funcionalidade, ambientais e psicológicos
do desenho, acrescentando a tudo isso a qualidade estética. Em
design de interiores o enfrentamento dessas questões é tão
ou mais delicado. Um acesso mal planejado, circulações ineficientes,
uma atmosfera desagradável podem significar o fracasso de uma empreitada,
imensos prejuízos para o investidor e, em última análise
- ou em especial, dependendo do caso - para a própria
comunidade. Todos esses problemas surgiram ao arquiteto Fernando Brandão
ao planejar a nova loja da Livraria Cultura em São Paulo. O arquiteto
encarou nesse projeto uma seqüência de desafios: para começar,
a Cultura é uma casa de tradição, com 60 anos de
existência, 38 deles instalada no Conjunto Nacional, um dos ícones
da arquitetura paulista, saído da prancheta de David Libeskind.
O local da nova loja, dentro do próprio Conjunto Nacional, era
ocupado por outro símbolo da cultura paulistana, o Cine Astor,
fechado há seis anos. Aqui já há que se solucionar
um problema de pertinência: o espaço pensado originalmente
para uma sala de projeção pode acomodar uma livraria? Brandão
se valeu da inclinação do piso do cinema e explorou recursos
de engenharia e cálculo para acrescentar mais dois pisos, triplicando
a área disponível. Aproveitou as rampas, um dos destaques
do projeto de Libeskind, e obteve do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação
do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de
São Paulo) autorização para abrir janelões
na fachada até há pouco cega por conta do cinema. Essa fachada
é voltada para a alameda Santos, via de grande circulação,
paralela à avenida Paulista. A tradição da livraria,
que começou na sala de estar da casa de sua fundadora, Eva Herz,
foi ainda valorizada pela ambientação que privilegiou materiais
como carpete e madeira, e inclui elementos decorativos mitológicos,
como os dragões de madeira, além das áreas de leitura
com almofadões coloridos.