Poucas palavras, traços simples, soluções que se encaixam ao que se pede da obra - sem mistificar ou enveredar por teorizações. Por que um estúdio de arquitetura em sua própria casa? "Para estar perto de meus filhos", responde prontamente Mathias Klotz, direto e sem procurar grandes justificativas. E é assim que adentramos ao mesmo tempo na vida e no trabalho do jovem arquiteto chileno, em uma construção na qual o público e o privado se misturam. A casa/estúdio do escritório Bernstein y Klotz é resultado da ampliação e remodelação de uma residência projetada e construída pelo arquiteto Ignacio Cobarrubias em 1965, e sua casa até 2002, quando Klotz fez da edificação sua residência e seu escritório. Por três anos, a equipe de arquitetura comandada por Klotz e Bernstein trabalhou nas salas de estar e de jantar, enquanto o próprio Klotz realizava os projetos de ampliação. Aqui, arquiteto e cliente foram um só, trabalhando em uma harmonia quase fantasiosa que a maioria dos arquitetos sonham. "Tudo fluiu muito bem, especialmente porque não havia discussão pelos honorários", brinca.
A primeira idéia para criar um novo espaço foi pensar em um segundo andar, opção logo descartada porque transformaria o perfil da casa e a sutil relação entre o programa e os pátios. A solução? Um estúdio enterrado.
A superfície pré-existente aumentou 30% sem que isso alterasse o aspecto e o espírito original da obra - quase como um projeto que desaparece. O respeito ao que já existia, aliás, foi pré-condição. "As transformações foram feitas seguindo as linhas gerais da casa original com o único objetivo de resolver o programa da melhor maneira possível", conta Klotz. Assim, os volumes retangulares e a ordenação de espaços longitudinais, lisos e de geometria rigorosa - e ao mesmo tempo racionais - foram mantidos. "Trabalhei sem incorporar nada contemporâneo. Tudo o que foi feito, se fazia desde os anos 30."
Trabalhar com o que já existia não significou cair no pitoresco nem em uma imitação grosseira do passado, mas enfrentar a transformação enfatizando o discreto. "O que se demoliu era originalmente de madeira e o que tratamos de fazer foi restabelecer o espírito do pré-existente", explica Klotz ao se referir ao envoltório de madeira que abraça o novo espaço - revestimento que parece levitar, como uma caixa que flutua, em um efeito intensificado pelas janelas do subsolo que rasgam a parte inferior da fachada. As janelas, por sua vez, funcionam como aberturas que penetram na densidade da matéria e exibem sua espessura. A relação com os pátios reaparece na parte subterrânea, onde o espaço de entrada conduzido pela escada conta até com um pequeno espelho d'água.
Para implantar o novo ambiente subterrâneo a 3 m abaixo do nível natural do terreno foi preciso demolir os espaços da cozinha, da lavanderia e do dormitório de serviço e reorganizá-los em outros locais da casa durante a construção. A casa, aliás, continuou funcionando tanto como residência quanto como estúdio. "Tivemos o cuidado de fazer estacas a cada um metro para evitar que a edificação ou que os muros vizinhos viessem abaixo", conta Klotz. O espaço subterrâneo foi construído entre esses muros vizinhos e, sobre ele, reinstalados os programas de serviços com um volume de aparência e de materialidade similares ao anterior, com um total de 90 m2.
AU LEITURAS
AU 150 - Entre o mar e os andes. Reportagem sobre a casa no condomínio Ocho al Cubo, no Chile, de Mathias Klotz
