Ele não se importa de ser chamado de Papa do Aço, alcunha um pouco simplista perante a consistência de sua arquitetura. Ao contrário, até assume que ninguém conhece estrutura metálica tão bem quanto ele, "resultado de mais de 40 anos de trabalho", justifica. Para Siegbert Zanettini, entretanto, o material é apenas mais um dos elementos que se submetem à visão ecossistêmica da arquitetura: não importa se madeira, concreto ou aço, a escolha do material deve passar pelo crivo da perfeita adequação à função, sem desperdícios ou retrabalhos.
Profundo conhecedor da história da arquitetura, Zanettini teve centenas de textos publicados em revistas especializadas e também em jornais, além de já ter editado três livros sobre o tema. O último, Razão e sensibilidade, discorre sobre a tão necessária contemporaneidade da arquitetura.
Zanettini pertence à primeira geração de professores doutores da FAUUSP e soube aliar conhecimento teórico à pratica profissional desde sua formação, no final da década de 50. Pertencente a um grupo de arquitetos que ainda enxergavam arquitetura e engenharia como uma coisa só, tem um profundo conhecimento de tecnologia e construção civil. "Fui marceneiro, tenho uma ligação muito violenta com a matéria", declara. Ao longo dos anos, seu escritório já acumulou dezenas de premiações. Seus projetos com estrutura metálica são alvo de pesquisas de profissionais e estudantes de todo o Brasil. Em entrevista concedida à AU em seu escritório em São Paulo, Zanettini fala de arquitetura moderna, atuação profissional no Brasil e formação.
aU DA DÉCADA DE 30, INÍCIO DO MODERNISMO, ATÉ HOJE, O QUE MUDOU NO MODO DO ARQUITETO BRASILEIRO DE FAZER ARQUITETURA?
SIEGBERT ZANETTINI O modernismo, movimento que dominou o século 20, estabelecia uma ideologia que levava a princípios formais e estéticos novos, como planta livre, teto jardim, soluções integradoras, racionalização do processo de obra e um começo da idéia de industrialização. Esses preceitos foram difundidos em toda a Europa e no Brasil, onde foi o mais forte movimento transformador da área de arquitetura. Com o tempo a arquitetura moderna passou de causa a estilo, e já na década de 60, no Brasil, havia um estilo de arquitetura moderna em que o concreto era utilizado tanto em estruturas quanto em revestimentos. Era uma arquitetura quase acadêmica, utilizada apenas por uma vanguarda de arquitetos.
aU O SENHOR TAMBÉM PROJETOU A PARTIR DOS PRECEITOS DO MODERNISMO, VIDE O HOSPITAL VILA NOVA CACHOEIRINHA, EM SÃO PAULO....
ZANETTINI Já na década de 60 começaram as críticas ao movimento. Eu, particularmente, achava essa arquitetura muito restrita à academia, pois não tinha apelo de mercado e empregava parâmetros que não atendiam à grande massa da população. Era uma arquitetura de exceção. Quando fui fazer o projeto da maternidade de Vila Nova Cachoeirinha, em 1968, já olhava o contexto e sentia que alguma coisa na arquitetura moderna não encaixava com a realidade brasileira. O concreto não se comporta bem quando utilizado em revestimentos e empenas, surgem grandes problemas da exposição. Comecei a verificar que na Europa surgiam movimentos que questionavam esse processo. Então, nessa época, resolvi retomar minhas origens e fazer obras com estrutura de madeira. Todo mundo estranhou quando eu fiz a casa do Paulo Amaral Gurgel, no alto de Pinheiros, com telhado, vigas de madeira, tijolos, etc. Aparentemente tradicional, foi uma obra muito avançada para a época, pois era uma montagem industrializada que pela primeira vez empregou madeira cultivada.
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