aU A PARTIR DESSES CONTRAPONTOS AO MODERNISMO COMO SE ENCAMINHOU A ARQUITETURA BRASILEIRA?
ZANETTINI Para falar de Brasil, tenho que citar o panorama internacional. O projeto do Centro Georges Pompidou, em Paris, do Renzo Piano (com Richard Rogers), em 1967, foi um marco divisor entre a arquitetura moderna e a contemporânea, pois negava a isotopia e a limpeza formal, e colocava as vísceras do projeto para fora, com elementos construtivos que não faziam parte do repertório da arquitetura moderna, como o aço. Aquilo me impressionou profundamente, porque expôs a questão da dissonância em arquitetura, seu caráter de quebrar contextos. O edifício foi implantado em um bairro pobre de Paris, e conferiu novo status à região. Em paralelo vieram as gritas de outros arquitetos que lançaram o pós-moderno, como Aldo Rossi e Peter Eisenman. Eles começaram a negar a arquitetura moderna, mas com uma visão unidimensional, retronostálgica. Foram buscar no passado uma crítica ao moderno e trouxeram de volta o clássico e o colonial. Na verdade, a crítica se limitou à estética. Foi um movimento importante, pois reforçou a necessidade de mudança, mas ao mesmo tempo supérfluo. Não dizia nada conceitualmente.
aU O BRASIL TAMBÉM PASSOU POR ESSE PROCESSO DE NEGAÇÃO DO MODERNISMO, MAS PARECE QUE AINDA NÃO AVANÇAMOS NA QUESTÃO....
ZANETTINI No mundo inteiro esse movimento pós-moderno passou. Mas nos países subdesenvolvidos ainda perdura porque serve aos interesses do capital. Os "neo-nada", como costumo dizer, são excelentes produtos para vender status, categoria, uma nobreza que o brasileiro não tem. O estilo é difundido nas classes média e alta e se rebate para as classes mais baixas como uma moda. E esse é o verdadeiro contraponto ao que seja contemporâneo, ao que seja próprio do século 21. O contemporâneo sai do enclausuramento estético para ter uma visão holística, sistêmica, altamente tecnológica. É arquitetura com tecnologia limpa, sem resíduos ou desperdícios, ligada a um processo produtivo em escala industrial com controle de qualidade violento, durável e com base científica. A mudança é dimensional. Não é mais o belo, mas tem o belo como um de seus ingredientes.
aU AO GRAVITAR FORTEMENTE EM TORNO DA CIÊNCIA, ESSA ARQUITETURA NÃO CORRE O RISCO DE ESVAZIAR SUA FORÇA?
ZANETTINI Ela envolve todas as ciências: humanas, exatas, ambientais, biológicas. Essa base científica garante suas funções ao longo do maior tempo possível. É uma arquitetura totalmente controlada. Mas lógico que deve ter um alto índice de sensibilidade para dar o salto qualitativo que a faz transformadora e incorporar o encontro equilibrado e harmônico entre o mundo racional, científico, e o sensível. Tem que atender a todas as condicionantes e, ao mesmo tempo, fazer uma obra de arte. É o que fazem todos os arquitetos de alto padrão. No escritório do Norman Foster existe uma equipe monstruosa da mais alta especialização. O Santiago Calatrava, além de arquiteto, é engenheiro. Tem uma formação técnica fabulosa. Todos os grandes arquitetos têm formação dupla e produzem arquitetura do século 21 de altíssima qualidade tecnológica.
aU O ARQUITETO ENTÃO TEM QUE TER A CAPACIDADE DE RESOLVER AS MAIS DIFERENTES E ESPECÍFICAS VARIÁVEIS DE UM PROJETO?
ZANETTINI Ele tem que ter a capacidade de juntar uma equipe competente e coordená-la. No projeto do Centro de Pesquisas da Petrobras trabalhei com tantos especialistas que utilizamos um sistema de controle online, assim, quando alguém alterava algum ponto do projeto, a alteração era imediatamente rebatida para todos os projetistas envolvidos. Eu emiti cerca de 28 mil e-mails em todo o processo. O arquiteto é um coordenador por excelência.
aU E ONDE ENTRA A SUSTENTABILIDADE NO CONTEXTO DA ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA?
ZANETTINI Na arquitetura moderna o verde era um passe-partout de entorno. Já nessa nova arquitetura, o meio ambiente é parte estrutural do projeto – daí vem a sustentabilidade. Na verdade, é o emprego de novos termos que nem são tão novos assim, pois bons arquitetos sempre lidaram com implantação, conforto térmico, acústico e proteção de sombreamento. Já na Eco 92 (2a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992) achava que esse era o caminho. Mas hoje emprega-se um sistema de ar-condicionado para retirar a carga térmica de um edifício inteiramente envidraçado que recebe sol em todas as faces. Isso não tem nada de sustentável, é uma loucura que resulta em uma baixíssima eficiência de todo edifício.
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