aU COMO AVALIA A PRODUÇÃO ARQUITETÔNICA BRASILEIRA ATUAL?
ZANETTINI De um modo geral, ainda se pratica no Brasil a estética da arquitetura da década de 60 em meio aos "pós-modernos" definidos pelo mercado imobiliário. E daí surgem a Casa Cor, a revista Caras, os arquitetos que saem em revistas. E hoje se vendem cenários, e não arquitetura, que conferem um ilusório status.
aU QUEM FAZ ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA NO BRASIL?
ZANETTINI O Lelé (João Filgueiras Lima) e eu. Mais ninguém. Nós dois temos formação dupla, de arquiteto e engenheiro, e uma ligação profunda com a produção. Ele tem uma formação de garimpeiro da argamassa armada e eu de marceneiro, ou seja, temos uma ligação muito violenta com a matéria. E uma formação cultural ampla. Isso nos leva a definir uma visão pluridimensional de todo o conjunto de conhecimento, ou seja, as especialidades interagem ao mesmo tempo e com o mesmo valor. É igualmente importante a obra ser bela, duradoura, resolver o problema de quem vai usufruir dela, identificar-se com sua forma de produção, não gerar desperdício e não ferir o meio ambiente. Desse amálgama de coisas resulta a nova arquitetura.
aU SUA PREDILEÇÃO PELA ESTRUTURA METÁLICA RESULTA DESSA ABORDAGEM, DESSE RACIOCÍNIO...
ZANETTINI O aço é material industrializado, permite alto controle, consome área mínima, responde à tração, à compressão e à torção. A própria estrutura de concreto não existiria se não fosse o aço. Não tenho nada contra o concreto, mas trabalho corretamente o material, ou seja, pela compressão. O conhecimento dos materiais evita o emprego indevido. Fazem uma obra inteira, fôrmas e mais fôrmas, e depois tudo vira lenha. É anti-sustentável. A verdadeira arquitetura se apropria do material para fazer o melhor. Conheço obras superavançadas em tijolos cerâmicos.
aU O USO DO CONCRETO É EMBLEMÁTICO NA CONSTRUÇÃO BRASILEIRA...
ZANETTINI Aqui construção é artesanal. A obra feita na obra. A indústria da construção no Brasil é a do resto, da mão-de-obra desqualificada. Tudo o que as outras indústrias não querem vai para a construção civil. Isso dá o tom dos 40 anos de atraso do País. A obra toda no Brasil é artesanal, temos caçambas espalhadas por toda São Paulo, isso prova o índice de desperdício, que chega a 30%.
aU A PETROBRAS O CONTRATOU PARA PROJETAR UM NOVO CENTRO DE PESQUISAS NA ILHA DO FUNDÃO, NO RIO. O SENHOR EMPREGOU ESSA VISÃO SISTÊMICA PARA REALIZAR ESSE PROJETO?
ZANETTINI A arquitetura necessariamente deve ter uma visão ecossistêmica, ligada ao meio ambiente construído e ao natural. Quando a obra é forte, ela muda o contexto. Hoje Bilbao faz parte do calendário mundial, não importa se (o museu Guggenheim projetado por Frank Gehry para essa cidade espanhola) agrada ou não. Meu projeto do centro de pesquisas da Petrobras vai ser um divisor de águas porque mostra que o arquiteto não faz um projeto sozinho. São as cabeças. O arquiteto não pode mais se arvorar em ser o homem do gesto. Eu faço um gesto e aí vem um bando de pessoas tentando resolvê-lo. Para escolha do arquiteto, a Petrobras aplicou uma bateria de testes eco-tecnológicos na qual eu pontuei 120 pontos contra 60 pontos do segundo colocado. Para isso, tive ajuda fundamental de pesquisadores que, por exemplo, monitoraram cinco mil dias no local e me forneceram informações preciosas de conforto térmico e acústico. A forma do edifício principal, norte-sul, não foi definida pelo gesto do Zanettini. Teve muita pesquisa e embasamento por trás. Todos esses dois, três mil anos comandados pelo estético devem evoluir, neste século, para o intelecto e a criação.
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>