As cidades sempre apresentam realidades distantes do que se poderia chamar de ideal. Isso não é, obviamente, uma constatação revolucionária. Mesmo as cidades mais desenvolvidas do mundo apresentam vários tipos de problema, em maior ou menor escala e intensidade, constatação que pode ser observada nos índices de criminalidade, assim como nos gargalos ambientais e sociais, entre outros fatores.
Diversos aspectos da complexa natureza urbana estão muitas vezes sujeitos a curiosas inconsistências. Ou seja, características intrínsecas ao próprio funcionamento de uma cidade são freqüentemente negadas ou desprezadas por estreiteza de visão técnica, falta de vontade política ou por simples acomodação a equívocos históricos e a realidades superadas. Neste artigo vamos abordar um pouco da questão do transporte de alta capacidade e sua frágil relação com o funcionamento de nossas metrópoles – e como essa fragilidade se converte em oportunidades perdidas em cidades como São Paulo.
Não é mero acaso a grave crise de transporte que hoje assola as grandes cidades brasileiras. Devido à cultura rodoviarista que se fortaleceu paralelamente à industrialização, a partir da década de 1930, os trilhos nunca puderam exercer um papel consistente no transporte de passageiros e, portanto, perderam uma grande chance de desenhar nossas cidades. Ainda hoje cabe aos ônibus a responsabilidade de transportar grande parte da população, dividindo as ruas com uma frota de automóveis particulares que aumenta em cerca de 500 unidades por dia em uma cidade como São Paulo.
Em metrópoles populosas, um meio de transporte de baixa ou média capacidade não pode assumir a responsabilidade de atender com qualidade à enorme demanda. Os efeitos dessa política podem ser sentidos na ineficiência do sistema e nos efeitos colaterais, como a intensificação dos congestionamentos e dificuldade de fluidez do trânsito.
O caso de São Paulo talvez seja emblemático, uma vez que a história da cidade se confunde com a história de seus fluxos. Em seus primeiros três séculos, a cidade não foi mais que um entreposto: localizada no entroncamento de cinco rotas comerciais, a pequena vila sobrevivia desse tráfego de mercadorias e mercadores.
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