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Interseção

CIDADE E OPORTUNIDADE
AS ESCALAS DE PROJETO E O DESENHO DA CIDADE A PARTIR DA INFRA-ESTRUTURA DE TRANSPORTE: UM PROJETO POSSÍVEL PARA UMA METRÓPOLE MAIS DINÂMICA E DEMOCRÁTICA. AINDA HÁ TEMPO PARA REVER CONCEITOS

POR LOURENÇO GIMENES



A Estação da Luz, ali perto, no Centro, será o mais potente nó intermodal do País após a conclusão da Linha 4 do metrô, dentro de mais um ou dois anos. É um bairro pródigo em equipamentos culturais da mais alta relevância, como a Pinacoteca do Estado ou a Sala São Paulo. No entanto, a cicatriz deixada pela quase intransponível linha do trem e pela abrutalhada avenida Tiradentes, de tráfego de passagem e escala metropolitana, constituem um espaço urbano pobre e hostil, desviando a atenção do que poderia ser o belo Parque da Luz e dos edifícios históricos.

O resultado disso é mais que catastrófico. Não sendo destino, a população prevista de 500 mil pessoas por dia irão baldear entre os trens, mas não usarão as escadas da estação como transição entre a rede de transportes e as ruas do bairro. Cumprir a vocação técnica de edifício para transporte não constrói uma boa estação. É necessário desenhá-lo como um instrumento de conexão entre escalas diferentes de espaços e funções dentro da complexa realidade urbana.

É certo que, se depender da lógica do mercado, a cidade continuará a enveredar pelo caminho que já conhecemos. Enquanto transporte público for entendido como "de pobre", a classe média seguirá desejando seu carro do ano (com ar-condicionado, claro, para ajudar a vencer o terrível congestionamento). Enquanto o mercado imobiliário não apostar nas estações metroferroviárias como diferencial dos seus empreendimentos, elas nunca farão parte de uma nova orientação funcional da cidade. Enquanto as empresas continuarem a decidir a sua localização com base no endereço de seus diretores, e não na facilidade de acesso para seus funcionários, não haverá dinâmica próxima aos nós de transporte. E enquanto o poder público e o setor privado não buscarem um entendimento quanto aos instrumentos e objetivos de um projeto urbano, não será possível desenhar uma cidade eficiente e humana em todas as suas peculiares escalas.

É necessário mais que um desenho grande, com longas linhas coloridas indicando a compreensão de que o problema opera na lógica metropolitana. O planejamento de uma rede de transporte público eficiente deve passar tanto pelo desenho da rede como um sistema coerente de vários meios complementares, quanto pelo desenho específico de um edifício adequado para a estação, que se abre e alcança generosamente a cidade que a cerca.

No momento em que o transporte metroferroviário parece contradizer nossa história e despontar como improvável cartão de visitas de nossos governantes, faz-se necessária a criação de mecanismos que permitam e estimulem o redesenho morfológico e funcional do entorno da estação. Não podemos mais abdicar de modelagens econômicas responsáveis e diálogo corajoso e irrestrito entre os setores público e privado. Só assim, será possível integrar competentemente o tímido, porém indispensável, transporte de alta capacidade em uma dinâmica urbana levemente mais equilibrada.

Agradecimento: dra. Regina Meyer.
Lourenço Urbano Gimenes é arquiteto e urbanista formado pela FAUUSP, com mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela mesma instituição. Sua dissertação de mestrado Estações intermodais como gerador e regenerador de centralidades metropolitanas: uma análise do potencial da Estação da Luz recebeu o primeiro prêmio no concurso de monografias CBTU/Ministério das Cidades, em 2005. Atualmente, desenvolve doutorado sobre estações de alta complexidade, na área de concentração Projeto de Arquitetura, na FAUUSP, e é sócio do escritório de arquitetura Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz.

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