Grande parte dos pontos de referência urbana na cidade de São Paulo não obedece a nenhum requisito formal ou estético. A não ser por algumas grandes construções, como shopping centers e um ou outro edifício corporativo ou uma das pontes das avenidas marginais, são poucas as construções que criam uma identificação a ponto de tornar-se referência no espaço.
Esse não é o caso, entretanto, do volume cúbico de tijolinhos que ostenta um grande relógio circular na fachada. O edifício abriga uma clínica de endocrinologia projetada pela arquiteta Betty Birger. Pequena, compacta e forte, a edificação virou imagem identificada na cabeça de muitos motoristas e pedestres que passam pela rua Lima Barros, próxima ao Parque do Ibirapuera, zona Sul de São Paulo.
A princípio, a construção situada em um terreno estreito e comprido deu muita dor de cabeça ao proprietário. Um projeto preliminar empacou na prefeitura e só ganhou fôlego depois do convite feito a Betty, que implantou as necessárias reformulações de recuo e gabarito, isso com a obra já na fase da estrutura. "Minha proposta levou em conta a pré-existência da estrutura, de maneira a conter novos custos", explica.
De fato, a construção de dois pavimentos apresenta fortes recuos, frontal e lateral direito, e se apóia totalmente em uma grande paleta projetada além dos limites da fachada lateral direita, de maneira a marcar bem o contorno do terreno. A entrada, aberta e ampla, endossa o caráter fechado e denso do volume. "O tijolo é esportivo e nobre ao mesmo tempo e foge do lugar comum dos revestimentos texturizados", diz Betty Birger.
A discrição do acesso principal é coerente com o tratamento dos espaços internos. Nada é demais ou de menos. A porta de aço corten abre-se para a circulação vertical: uma escada metálica que se destaca da parede junto à caixa do elevador. O hall de espera abriga poucos móveis e revela o cuidado com o revestimento das paredes, marcadas horizontalmente por perfis metálicos, em um jogo harmonioso com o piso de grandes peças retangulares de porcelanato.
No corredor das salas de atendimento, a grande paleta externa vira agora uma parede revestida com fulget que se ergue a partir de um espelho d'água, ultrapassa o pavimento superior e encontra um rasgo de iluminação zenital que garante luz natural a um espaço sem possibilidade de aberturas. No andar superior, o corredor ganha um guarda-corpo metálico e desfruta da mesma nesga de luz, complementada nas áreas de circulação e salas de atendimento por iluminações embutidas. "Todos os espaços internos foram pensados como parte de um projeto de arquitetura global", conclui Betty Birger.
