A operação Cidade Limpa, que se baseia na lei 14.223 da prefeitura, provocou mudanças radicais na cidade de São Paulo. Caídas as máscaras plásticas e metálicas dos indicadores e outdoors que cobriam as fachadas dos edifícios, mostrou-se aos paulistanos o que tem sido feito - ou não - com o patrimônio arquitetônico da cidade. Sobraram buracos, estruturas expostas, descaracterização de cores, texturas e formas, e tratamentos executados com materiais de tipo e qualidade destoantes dos originais.
Fato consumado é o descaso pela preservação e a ignorância de que restaurar é possível. Livre de grande parte da poluição visual, embora ainda muito feia, a cidade fica perdida. Sem tempo ou dinheiro suficiente para investir na recuperação de fachadas, opta-se, no emergencial, pelo mais barato.
O primeiro impacto da Lei Cidade Limpa foi gerar medo, principalmente entre pequenos comerciantes que, assim como os edifícios, perdem a identidade e não podem se arriscar às multas de, no mínimo, dez mil reais.
Assim, quem acreditou que a queda dos indicativos luminosos ocasionaria um surto de recuperações arquitetônicas, se enganou. Mais fácil é tapar o sol com a peneira, ou o buraco com qualquer argamassa, textura, ou revestimento cerâmico, sem nem se preocupar muito com a especificação do produto. Segundo o engenheiro Ronaldo Ritt, da Concrejato, empresa que presta serviços de restauro, houve uma demanda muito pequena por recuperação de fachadas em decorrência da operação Cidade Limpa. "O pessoal tem procurado pequenas empresas ou autônomos, mais em conta." Até o início de julho, a empresa não havia iniciado qualquer trabalho como resposta à implementação da lei.
O diretor da Companhia de Restauro, Francisco Zorzeti, confirma o fraco movimento dos negócios. Contudo, demonstra uma ponta de esperança no futuro. "A lei valoriza nosso patrimônio histórico", diz. "O problema é que não se pode tratar a fachada de um edifício tombado de qualquer jeito, e acontece de o proprietário do ponto comercial nem saber que o prédio é tombado, o que complica ainda mais a situação", avalia.
Para Zorzeti, o grande impasse é a maneira como a lei foi rapidamente imposta, sem campanhas prévias que informassem os donos dos pontos comerciais. "Só no Centro de São Paulo há cerca de mil edifícios tombados, sem contar outros de grande valor arquitetônico", comenta. Zorzeti lembra que já há alguns anos há isenções fiscais para quem recupera fachadas de edifícios tombados, mas a falta de informação e de fiscalização emperra as ações.

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