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Entrevista

JOHN ZEISEL
MUITO ALÉM DO ABRIGO
ARQUITETO NORTE-AMERICANO ENTENDE ARQUITETURA COMO O RESULTADO DO ESFORÇO DE COOPERAÇÃO ENTRE PESQUISADORES E ARQUITETOS, TENDO EM VISTA O VERDADEIRO BEM-ESTAR DE QUEM HABITA O AMBIENTE CONSTRUÍDO

POR SIMONE SAYEGH RETRATO DAN COLUCCI


Quando se fala em tratamento não medicamentoso de doenças, logo se pensa em terapias alternativas e métodos não-convencionais de saúde, embora ligados ao mundo da medicina. Mas quando se fala em conceitos espaciais e de design como partes de um tratamento de saúde global, logo se pensa no sociólogo, arquiteto e professor norte-americano John Zeisel, um dos maiores especialistas mundiais em arquitetura comportamental.

Zeisel utiliza o desenho de arquitetura como ferramenta voltada às necessidades de pacientes com Alzheimer, nas instituições da Fundação Hearthstone, rede norte-americana de atendimento especializada em portadores da doença, da qual é presidente e co-fundador. Em seus estudos sobre demência em idosos, o pesquisador aponta diversos fatores ambientais que estimulam a agressividade, a agitação, o isolamento social e distorções visuais comuns nesses pacientes. Com base nessas análises, ajudou a desenvolver o conceito de arquitetura comportamental, que relaciona meio ambiente e neurociência, e permitiu trazer ao idoso fragilizado novos ambientes e espaços mais propícios a uma vida sadia e feliz.

Em seu livro Inquiry by Design, Zeisel expande o universo de atuação da arquitetura comportamental ao discorrer sobre os processos de pesquisa indispensáveis para se obter um design mais adequado às necessidades dos usuários de qualquer espaço. Também reforça a necessidade de interação entre os pesquisadores pós-ocupação, neurocientistas e arquitetos, e exemplifica casos de edifícios sobre os quais foram efetuadas análises de ocupação que resultaram em melhores projetos.

John Zeisel esteve em São Paulo a convite do Hiléa, um novo centro de tratamento e vivência para idosos, ainda em construção, para o qual foi consultor na área de arquitetura comportamental. Durante sua visita, Zeisel também ministrou palestras para arquitetos e especialistas nas quais ressaltou o olhar mais humano que a arquitetura pode repassar às pessoas que abriga. "Em arquitetura sempre existem limitações: terrenos complicados, orçamentos apertados, leis, indisponibilidade de materiais, a cultura na qual o edifício está inserido. Mas é exatamente o conhecimento sobre as necessidades das pessoas que irão utilizar o edifício que possibilita ao designer ser criativo", conclui. Em entrevista concedida a AU, Zeisel fala sobre avaliação pós-ocupação, criatividade em arquitetura, e tratamentos não-medicamentosos.

Pesquisador de arquitetura comportamental, John Zeisel prestou consultoria para o projeto do edifício Hiléa, empreendimento desenvolvido para o público idoso e dotado de recursos arquitetônicos e tecnológicos para facilitar e enriquecer a vida dos moradores. Nas imagens abaixo, perspectivas da fachada e de um dos quartos do edifício, que tem projeto de Aflalo & Gasperini

aU EM SEU LIVRO INQUIRY BY DESIGN, O SENHOR IDENTIFICA AS ETAPAS DO PROCESSO DO DESIGN E VALORIZA A PESQUISA NA OBTENÇÃO DE UM RESULTADO MUITO MAIS SATISFATÓRIO. QUAL O PESO DA CRIAÇÃO PURAMENTE INTUITIVA DENTRO DESSE PROCESSO?

JOHN ZEISEL Cada um dos passos que eu identifico como "processo do design" requer criação intuitiva. Quanto mais criativos forem o designer e também o pesquisador, mais inovador e inventivo será o projeto. Quanto mais desenhos, modelos e gráficos o designer produz, mais criativo será o processo. E quanto mais abrangente for a revisão desse processo, melhor sucedido será o projeto final. Ou seja, a criatividade está no processo e nas metodologias empregadas que visam o bem-estar final do usuário, e que dessa maneira garantirão o sucesso do produto.

aU COM BASE NOS REQUISITOS QUE O SENHOR RECOMENDA PARA O DESENVOLVIMENTO DE UM PROJETO DE ARQUITETURA, A ANÁLISE DA QUALIDADE DOS ESPAÇOS PASSA A SER MAIS OBJETIVA E PODE SAIR DO CAMPO DA ESTÉTICA SUBJETIVA. A ARQUITETURA, VISTA POR ESSE ÂNGULO, PERDE A PERSONALIDADE ARTÍSTICA?

ZEISEL Se por arte entendermos a habilidade dos arquitetos de planejarem espaços maiores ou menores que o necessário, espaços que se tornem de difícil utilização ou fujam do contexto e do entorno onde serão construídos, digo que sim. Esse tipo de arte estará perdido. Mas se definirmos arte como a habilidade de cada arquiteto de expressar uma estética pessoal dentro da cultura do edifício, levando em conta as necessidades dos que o habitam e freqüentam, assim como os objetivos dos clientes, então, dentro desse processo, o campo artístico é infinito. Acredito que esse é o melhor caminho para o arquiteto ser criativo e expressar as próprias crenças artísticas.

aU PARA DESENVOLVER ESPAÇOS MAIS SATISFATÓRIOS PARA A VIVÊNCIA HUMANA, O SENHOR DEFENDE O TRABALHO CONJUNTO ENTRE ARQUITETOS, PESQUISADORES AMBIENTAIS, COMPORTAMENTAIS E DE PÓS-OCUPAÇÃO DOS EDIFÍCIOS. COMO TRAZER O RESULTADO DESSAS PESQUISAS, MUITAS VEZES TÃO ABSTRATAS E TEÓRICAS, PARA O DIA-A-DIA DO ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA?

ZEISEL Muitas pesquisas sobre meio ambiente são irrelevantes para o arquiteto. Muitas são bem importantes. Existem dois pontos que exigem atenção. Primeiro é o pesquisador entender as necessidades do arquiteto para selecionar informação relevante e levá-la à equipe de projeto, com uma linguagem familiar, desenhos e gráficos. Segundo, os arquitetos precisam aprender a pensar seu projeto com base nessas evidências e avaliações práticas. Se eles aplicarem continuamente esse método de design baseado em provas e evidências, poderão aumentar consideravelmente a qualidade de suas decisões e discernir qual informação é relevante.

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