aU DENTRO DA AVALIAÇÃO PÓS-OCUPAÇÃO, COMO ANALISAR EDIFÍCIOS EM QUE NÃO EXISTAM DOCUMENTOS QUE IDENTIFIQUEM A INTENÇÃO DE PROJETO DOS ESPAÇOS, COMO ACONTECE NA GRANDE MAIORIA?
ZEISEL Ao estudar a relação entre intenções e resultados, a forma mais eficiente de aplicação da avaliação pós-ocupação é em um projeto de um segundo edifício, similar ao primeiro. Aprender com erros e acertos das decisões do passado é uma excelente maneira de melhorar o projeto. Já quando as primeiras intenções não podem ser reveladas, deve-se estudar como funciona o espaço no presente, dentro de suas próprias condições. Sempre é possível melhorar um projeto, mesmo quando estudamos grandes edifícios, marcos na cidade. Podemos avaliar um edifício com base nas intenções particulares de seu arquiteto e cliente, e com base nas características derivadas de sua função básica. No entanto, um ponto deve ficar claro. Os resultados de cada avaliação não devem ser usados contra o responsável. O maior objetivo dessas avaliações é assegurar qualidade nas decisões futuras.
aU O DESENVOLVIMENTO DE UM PROGRAMA MAIS ADEQUADO A UM EDIFÍCIO NÃO DEPENDE TAMBÉM DO GRAU DE CONHECIMENTO DO CLIENTE SOBRE AS NECESSIDADES FUTURAS DAS PESSOAS QUE IRÃO UTILIZAR O ESPAÇO?
ZEISEL Certamente. A intenção é satisfazer o futuro, e não só uma lista de atividades do passado. Design é um processo de desenho baseado no passado com o objetivo de criar um futuro melhor. Para conseguir isso, a pesquisa deve ser apenas o começo do processo de design, não o fim. É importante, contudo, ter em mente que quando as predições de usos futuros se afastam muito da realidade do presente existe uma grande chance de não serem realizadas. Um saudável equilíbrio entre o conhecimento do passado e as aspirações do futuro é o que mostra a boa arquitetura.
aU O TRABALHO CONJUNTO ENTRE ARQUITETOS E PESQUISADORES DEMANDA TEMPO E DINHEIRO, AMBOS ESCASSOS QUANDO SE FALA EM PROJETOS DE ARQUITETURA NO BRASIL. NO CASO, NÃO SERIA IMPORTANTE TAMBÉM MOSTRAR À SOCIEDADE, E AO CLIENTE, A IMPORTÂNCIA DOS EDIFÍCIOS COMO CENTROS SADIOS DE CONVIVÊNCIA HUMANA, ALÉM DA FUNÇÃO BÁSICA DE ABRIGAR BANCOS, ESCRITÓRIOS OU HOSPITAIS?
ZEISEL É indispensável que o valor da colaboração entre pesquisadores e arquitetos seja demonstrado aos usuários finais do edifício, ao cliente e à sociedade em geral. No trabalho, o maior valor é a produtividade. Em um parque é a capacidade de ser utilizado por um maior número de pessoas. Em um apartamento, o valor reside em proporcionar integração familiar, melhores condições de vida e segurança às crianças. Eu acredito que as necessidades dos clientes, as oportunidades de investimentos e o sistema público deveriam ser os grandes incentivadores dessa cooperação.
aU ALÉM DO TRABALHO CONJUNTO COM PESQUISADORES DE PÓS-OCUPAÇÃO, O SENHOR TAMBÉM RECOMENDA O INTERCÂMBIO DE CONHECIMENTO COM NEUROCIENTISTAS. TODOS ESSES SUBSÍDIOS NÃO TORNAM A ARQUITETURA INSERIDA CADA VEZ MAIS NO CAMPO DA CIÊNCIA?
ZEISEL Em absoluto. No século passado emergiram duas disciplinas científicas extremamente úteis ao arquiteto: a acústica, empregada em escritórios, residências, hospitais e casas de concerto, e a mecânica dos materiais e estrutura, que permitiu aos arquitetos desenharem prédios altíssimos. Para o projeto criativo, quanto mais conhecimento científico o arquiteto tem a seu dispor, melhor será o resultado. É nesse campo que se situa o relacionamento entre arquitetura e neurociência.
aU QUE SUBSÍDIOS PRÁTICOS A NEUROCIÊNCIA JÁ PODE DAR AOS ARQUITETOS?
ZEISEL O conhecimento de que em UTIs neonatais devem ser evitadas luzes fortes e sons intensos, que podem danificar a seqüência genética programada do desenvolvimento do pavilhão auditivo e do córtex cerebral dos bebês. As escolas devem entender que crianças de diferentes idades aprendem de diferentes maneiras e, portanto, o conteúdo emocional das salas de aula, na forma de dispositivos físicos, pode incrementar o aprendizado. Já em centros de tratamento de portadores de Alzheimer os corredores devem ser planejados de forma a mostrarem um destino claro, que conduza o paciente a andar com objetivo, e não a vagar, ação comum em quem é atingido pela doença. E isso só para começar!
aU COM BASE EM INFORMAÇÕES DA NEUROCIÊNCIA O SENHOR DESENVOLVEU UMA ARQUITETURA ESPECIAL VOLTADA A PORTADORES DE ALZHEIMER, APLICADA NOS CENTROS DE VIVÊNCIA DA HEARTHSTONE ALZHEIMER CARE, FUNDAÇÃO DA QUAL O SENHOR É PRESIDENTE. QUAIS SÃO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DESSA ARQUITETURA?
ZEISEL Com base na arquitetura comportamental procurei desenvolver oito tópicos espaciais fundamentais para a garantia de uma melhor qualidade de vida aos portadores de Alzheimer. Os principais referem-se à busca por soluções espaciais que estimulem a identificação do paciente com o local, como conferir ao edifício uma aparência semelhante à de suas antigas residências. A decoração dos dormitórios tem objetos e características individuais do habitante. Somado a isso temos o controle de saídas perigosas, a formação de caminhos com clara destinação final para evitar o vagar dos idosos, a multiplicidade de espaços públicos, os jardins terapêuticos e a busca pela independência do idoso. Tanto a equipe médica como os pacientes devem conseguir um grau de independência segura, que possibilite maior fluidez nas ações de todos.
aU COMO PROFESSOR, COMO O SENHOR AVALIA O ENSINO DE ARQUITETURA COM RELAÇÃO À INTEGRAÇÃO DE ESPECIALIDADES COMO NEUROCIÊNCIA E PSIQUIATRIA?
ZEISEL Os critérios de avaliação de um arquiteto devem ser os mesmos em todas as disciplinas. Entre esses critérios, destaco o estudo da qualidade de uso imediato dos espaços, o prazer estético transmitido, a criatividade na resolução de desafios de design, o grau de utilidade aos usuários específicos, a habilidade do edifício de ser útil a vários tipos de usuários, o sucesso dentro das necessidades do cliente, alguma contribuição para a sociedade, dentre outros. Esses critérios devem ser aplicados em todas as disciplinas relacionadas ao design, incluindo neurociência, sociologia, acústica, história e psicologia.
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