Noir era Paris antes de um iluminado Charles de Gaulle ter convidado
outro luminoso, André Malraux, para ser Ministro da Cultura. Em
vez de sair por aí mandando "aquele abraço" para
todo mundo, Malraux abraçou a França, aquela de que de Gaulle
dizia "La France c'est moi". Malraux decidiu que todos os palácios
e monumentos da França (há alguns) que refletiam séculos
de glória e também do tradicional desprezo francês
pela higiene, deveriam ser limpos e acenou inicialmente com incentivos
e a seguir com punições para que toda a França (atenção,
toda a França!) limpasse e pintasse as fachadas de todos (atenção,
todos!) os imóveis.
Revelaram-se tesouros artísticos inimagináveis, escondidos
sob séculos de sujeira. As cidades, anteriormente negras, adquiriram
tons claros que, para os tradicionais tradicionalistas, pareceram inicialmente
chocantes.
A idéia prosperou um pouquinho e toda a Europa ocidental fez
o mesmo. Bastou cair o muro para que o lado oriental tomasse a mesma iniciativa.
"Le ravâlement des façades" acabou por triunfar
mundialmente. Tudo porque um país culto, cujo um presidente, um
general (!) culto, convidou um indivíduo culto para Ministro da
Cultura, que resolveu demonstrar de modo concreto (e calcário)
a cultura de seu país, em lugar de sair por aí tocando reggae
para ganhar uns euros. Naturalmente houve uns chatos que reclamaram que
"c´est pour les touristes", quando sabemos que as melhorias
feitas "para os turistas" se refletem em dólares e em
uma cidade melhor para seus habitantes.
Séculos atrás, quando as diferenças sociais eram
terríveis (por incrível que pareça estamos melhor
agora) e as condições sanitárias inexistentes, os
nobres que "democraticamente" dirigiam aldeias e países
tinham sempre em mente o embelezamento das cidades, passando, se necessário
(era sempre necessário), literalmente por cima de todo mundo. Exemplo
antigo: os Boulevards de Haussmann. Exemplo novo: as highways de Robert
Moses, e as avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no Rio de Janeiro,
ou os aterros do Flamengo e de Botafogo. E Copacabana. E Ipanema/Leblon,
a mais linda obra urbana, e que hoje seria impedida pelos ambienta-listas.
Então São Paulo teve uma idéia: vamos tirar os
anúncios das fachadas. Ponto. A lei pegou, apesar de toda a grita.
Assim, felizmente, em vez de uma cidade horrorosa temos uma cidade horrível.
Porque os anúncios só enfeiavam mais o enorme acampamento,
em que sempre o único elemento valorizado era o econômico-financeiro.
Muito, mas muito "econômico" mesmo, e nada "financeiro"
do ponto de vista da boa aplicação dos investimentos na
cidade. Não mudaria grande coisa, porque São Paulo é
estruturalmente feia. O que resolveria seriam os "urbanistas"
Leo Szilard e Robert Oppenheimer, com um material de construção
testado em Los Alamos, o U-235.
É inegável que alguma coisa tinha de ser feita. E era
necessário alguém do tipo Fafá de Belém, com
muito peito, para topar essa parada. Mas ao mesmo tempo é reacionário
(incrível que ainda se use essa expressão) ignorar o efeito
da publicidade no visual urbano, independentemente de sua importância
na atividade econômica.
A nossa publicidade de rua não é só agressiva e
selvagem. É acima de tudo burra. Porque com o excesso (e põe
excesso nisso) de competição por espaço, ninguém
nota e nem presta atenção nos out (very out) doors de São
Paulo. Sejam interessantes ou não.
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