No início, a moradia tinha a função estrita de
abrigo. Caso servisse para proteger o ser humano das intempéries
e dos perigos que o ameaçavam, era considerada satisfatória.
Com o passar do tempo, entretanto, as necessidades humanas se ampliaram
e a moradia como abrigo seguro já não satisfazia. Tornou-se
necessário que fosse também confortável em vários
sentidos, como nas dimensões do espaço, formas, cores e
texturas. Na forma adequada de transmitir e vedar os sons, na boa iluminação,
no controle da temperatura e assim por diante.
Em outras palavras, o espaço de morar torna-se o lugar de morar.
Com o advento do modernismo, a idéia do standard (padrão)
passa a ser valorizada devido à premência de se produzirem
muitas construções, com custos acessíveis e rapidamente.
Impunha-se à arquitetura o desafio do espaço universal,
imaginando-se ser possível a introdução de uma proposta
racional e funcionalista, extremamente objetiva e comum a todos, em especial
nas cidades: a máquina de morar.
A idéia modernista da moradia-padrão, embora válida
e amplamente aplicada, não se sustentou hegemonicamente. O projeto
da casa como objeto de elaboração arquitetônica específica,
principalmente a partir da segunda metade do século passado, por
influência de arquitetos como Richard Neutra, deixa de lado seu
caráter estritamente funcional e passa a considerar outras questões
– por exemplo, as sensoriais. E a moradia, entendida como um lugar
sensual, não é mais um espaço objetivo. Neutro. Estático.
Mas, sim, um sistema dinâmico. Torna-se um ambiente.
Alimentada por várias áreas do conhecimento além
da arquitetura, como a psicologia ambiental e a antropologia, essa visão
tem sido amplamente explorada. Um bom exemplo é a obra de Sylvia
Lavin intitulada Form follows libido. Lavin mostra que o ato de morar,
no princípio relacionado ao ato de pernoitar em simples alcovas,
passa a adquirir razões ambientais e psicológicas. A casa,
como expressão de sonhos, desejos e percepções humanas,
conduz à concepção de lugares onde dormir, comer
e cuidar-se deixam de ser apenas necessidades, passando a ser, também,
prazeres.
Em tal perspectiva, a estrutura bem concebida pode se tornar uma aliada
perfeita na composição do lugar, transmitindo sensações
agradáveis como paz, silêncio e desligamento. As formas,
cores e texturas dos materiais e os sistemas estruturais podem ser usados
para construir a ambiência desejada. Uma laje plana e lisa, sistema
estrutural por vezes considerado muito simples, pode aportar a imagem
de relaxamento e silêncio desejada. Vigas de madeira, tão
conhecidas e aparentemente básicas, estrategicamente colocadas,
podem dialogar com o usuário trazendo-lhe o aconchego próprio
dos ninhos nos espaços de repouso.
Misturar sabores e odores com uma visão estimulante do espaço
pode tornar o local das refeições propício à
criação. Algumas soluções estruturais apresentam
em sua forma a sensação de dinamismo e envolvimento. É
o caso dos arcos e de seus sistemas derivados, como as abóbadas
e cúpulas, que apresentam em sua forma a imagem de algo que se
lança de uma margem à outra do ambiente. Mas, ao mesmo tempo
em que representam uma ação de deslocamento, expressam,
também, uma ação de envolvimento, um gesto continente,
o que, por si só, é uma mistura de ingredientes aparentemente
antagônicos, mas que conduzem a um resultado saboroso. Nesse caso,
visual. Se for verdade que um alimento se degusta primeiramente com os
olhos, também deve ser senso comum que o seu preparo pode ser estimulado
por uma concepção agradável do ambiente.
Dado que a moradia, como obra arquitetônica, não se caracteriza
pela incidência de grandes carregamentos e vãos, ou por programas
de alta complexidade, pode-se pensar que esta não constitua objeto
de reflexão e elaboração requintada de soluções
arquitetônicas. Menos ainda que venha a significar um campo fértil
de desenvolvimento tecnológico na construção.
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