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Arquiteturas & Estruturas

A CASA CONTEMPORÂNEA: SONHOS E DESAFIOS
PARA ELLEN H. RICHARDS, EM THE COST OF SHELTER, "... O CONFORTO DE MORAR ESTÁ MUITO MAIS NO CÉREBRO DO QUE NAS COSTAS..."

POR YOPANAN REBELLO E MARIA AMÉLIA D'AZEVEDO LEITE

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No início, a moradia tinha a função estrita de abrigo. Caso servisse para proteger o ser humano das intempéries e dos perigos que o ameaçavam, era considerada satisfatória. Com o passar do tempo, entretanto, as necessidades humanas se ampliaram e a moradia como abrigo seguro já não satisfazia. Tornou-se necessário que fosse também confortável em vários sentidos, como nas dimensões do espaço, formas, cores e texturas. Na forma adequada de transmitir e vedar os sons, na boa iluminação, no controle da temperatura e assim por diante.

Em outras palavras, o espaço de morar torna-se o lugar de morar. Com o advento do modernismo, a idéia do standard (padrão) passa a ser valorizada devido à premência de se produzirem muitas construções, com custos acessíveis e rapidamente. Impunha-se à arquitetura o desafio do espaço universal, imaginando-se ser possível a introdução de uma proposta racional e funcionalista, extremamente objetiva e comum a todos, em especial nas cidades: a máquina de morar.

A idéia modernista da moradia-padrão, embora válida e amplamente aplicada, não se sustentou hegemonicamente. O projeto da casa como objeto de elaboração arquitetônica específica, principalmente a partir da segunda metade do século passado, por influência de arquitetos como Richard Neutra, deixa de lado seu caráter estritamente funcional e passa a considerar outras questões – por exemplo, as sensoriais. E a moradia, entendida como um lugar sensual, não é mais um espaço objetivo. Neutro. Estático. Mas, sim, um sistema dinâmico. Torna-se um ambiente.

Alimentada por várias áreas do conhecimento além da arquitetura, como a psicologia ambiental e a antropologia, essa visão tem sido amplamente explorada. Um bom exemplo é a obra de Sylvia Lavin intitulada Form follows libido. Lavin mostra que o ato de morar, no princípio relacionado ao ato de pernoitar em simples alcovas, passa a adquirir razões ambientais e psicológicas. A casa, como expressão de sonhos, desejos e percepções humanas, conduz à concepção de lugares onde dormir, comer e cuidar-se deixam de ser apenas necessidades, passando a ser, também, prazeres.


Em tal perspectiva, a estrutura bem concebida pode se tornar uma aliada perfeita na composição do lugar, transmitindo sensações agradáveis como paz, silêncio e desligamento. As formas, cores e texturas dos materiais e os sistemas estruturais podem ser usados para construir a ambiência desejada. Uma laje plana e lisa, sistema estrutural por vezes considerado muito simples, pode aportar a imagem de relaxamento e silêncio desejada. Vigas de madeira, tão conhecidas e aparentemente básicas, estrategicamente colocadas, podem dialogar com o usuário trazendo-lhe o aconchego próprio dos ninhos nos espaços de repouso.

Misturar sabores e odores com uma visão estimulante do espaço pode tornar o local das refeições propício à criação. Algumas soluções estruturais apresentam em sua forma a sensação de dinamismo e envolvimento. É o caso dos arcos e de seus sistemas derivados, como as abóbadas e cúpulas, que apresentam em sua forma a imagem de algo que se lança de uma margem à outra do ambiente. Mas, ao mesmo tempo em que representam uma ação de deslocamento, expressam, também, uma ação de envolvimento, um gesto continente, o que, por si só, é uma mistura de ingredientes aparentemente antagônicos, mas que conduzem a um resultado saboroso. Nesse caso, visual. Se for verdade que um alimento se degusta primeiramente com os olhos, também deve ser senso comum que o seu preparo pode ser estimulado por uma concepção agradável do ambiente.

Dado que a moradia, como obra arquitetônica, não se caracteriza pela incidência de grandes carregamentos e vãos, ou por programas de alta complexidade, pode-se pensar que esta não constitua objeto de reflexão e elaboração requintada de soluções arquitetônicas. Menos ainda que venha a significar um campo fértil de desenvolvimento tecnológico na construção.

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