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Entrevista

UMA QUESTÃO DE BRASILIDADE
AUTORA DE INÚMEROS PROJETOS DE INTERIORES, ARQUITETA APOSTA NA PROMOÇÃO DA ARTE E ARTESANATO POPULARES COMO RESPOSTA PARA O FIM DA MISÉRIA NO NORDESTE BRASILEIRO

POR ÉRIDE MOURA foto SOFIA MATTOS




A vida está agitada para Janete Costa. Além de inaugurar o projeto das novas instalações do Marabá Hotel, no Centro de São Paulo, a arquiteta abriu sua mais recente exposição de arte popular, Do tamanho do Brasil, nos espaços do Sesc, na Avenida Paulista, da qual foi curadora. Aos 75 anos, essa incansável pernambucana consegue manter ocupados seus escritórios de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife com projetos por todo o País, e ainda reserva tempo e energia para a promoção e divulgação da arte popular brasileira no País e no Exterior.

Diplomada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1961, Janete Costa apresenta um currículo invejável de excelentes projetos – alguns de arquitetura, residências projetadas sempre para os amigos, "por insistência deles", e várias centenas de interiores, que se destacam tanto pela simplicidade e elegância de suas linhas contemporâneas, quanto pela habilidade com que valoriza os ambientes criados, inserindo peças exemplares da arte popular brasileira.

Casada com o também arquiteto Acácio Gil Borsoi, um dos mentores da chamada Escola do Recife, com o qual atua em inúmeros projetos, Janete Costa nasceu em Garanhuns, no agreste pernambucano, onde cresceu admirando o trabalho de artistas e artesãos anônimos da região. Atualmente, como uma das maiores conhecedoras dessa importante expressão brasileira, sua presença é imprescindível nos grandes debates organizados por entidades como Sebrae, Sesc, Senac e muitos outros.

Contando com o apoio dos quatro filhos arquitetos, ela quer agora reduzir suas atividades nos escritórios e dispor de mais tempo para o trabalho junto "à ponta" do sistema da produção artesanal: o artesão. Nesta entrevista, Janete Costa fala do seu esforço para a inclusão social da imensa legião de artistas populares desfavorecidos e defende o uso de peças de artesanato e de arte popular nos trabalhos de arquitetos, designers e decoradores, "por uma questão de brasilidade".

aU COMO VOCÊ CONSEGUE CONCILIAR ATIVIDADES TÃO DIFERENTES E, AO MESMO TEMPO, TÃO ABSORVENTES, COMO AS DE ARQUITETURA DE INTERIORES E DE PROMOÇÃO E DIFUSÃO DO ARTESANATO?

JANETE COSTA Essas atividades se inter-relacionam. Na arquitetura de interiores, resolvo primeiro o espaço, quando a proporção é fundamental, e só depois é que passo a desenvolver o design do mobiliário. Já os objetos, faço as escolhas de acordo com a minha sensibilidade. Contando com o poder de especificação que conquistei, concilio nesses espaços contemporâneos exemplares de arte popular, peças de artesanato e de arte brasileira. Considero essa integração uma questão de brasilidade, de fazer uma coisa com a nossa cara. E, ao mesmo tempo, quero proporcionar um lugar privilegiado para os trabalhos de artesãos e artistas populares. Como os preços dessas peças são bem acessíveis, essa introdução é interessante para clientes de orçamentos discretos, e também para os que dispõem de grandes recursos, porque é fundamental mostrar ambientes com a cara do Brasil. No hotel Marabá, estabeleci um confronto de ancestralidade com contemporaneidade, colocando cabeças de cerâmica de Maria Irinéia, que é uma excelente artista popular alagoana, ao lado de peças do artista contemporâneo Zé Paulo. Como Zé Paulo se abastece na tradição, no ancestral, há uma unidade perfeita entre o popular e o contemporâneo, não há discrepância.

aU EM QUE MOMENTO SURGIU ESSE SEU INTERESSE PELA ARTE POPULAR?

JANETE COSTA Desde menina convivo com artistas populares, e muito cedo comecei a organizar minhas peças em coleções. Trabalho com artesanato há mais de 50 anos, antes mesmo de fazer arquitetura. Minha maior preocupação é colocar essas pessoas no mercado de trabalho, para que aumentem sua auto-estima e possam viver com dignidade. E para a minha arquitetura acho fundamental lembrar nossas raízes, a tradição brasileira.

aU VOCê DEFENDE INTERVENÇÕES NA CADEIA DE PRODUÇÃO DO ARTESANATO. COMO SERIA ISSO?

JANETE COSTA Na verdade, a intervenção deve ser mínima – quanto menor, melhor –, seja no desenho, na cor, no formato, na dimensão, no desenho. Claro que sempre com o pé na tradição, na identidade, respeitando a tecnologia que o artesão detém, respeitando seus projetos. Por exemplo, eu peço para o artesão que faz redes para transformá-las em mantas, e sugiro cores e desenhos que possam ser absorvidos pelo grande público. Ele tem a tecnologia e eu tenho o conhecimento do que se usa para que seu produto seja bem aceito. Uma manta que custaria entre 20 e 30 reais, com algumas pequenas interferências pode ser vendida pelo dobro, o que beneficia toda a comunidade. Outro exemplo é a cerâmica, como a de Tracunhaém, em Pernambuco. A artesã trabalha com duas ajudantes fazendo peças que são vendidas a 5 reais. Eu peço que ela faça cem pés de luminárias a 30 ou 40 reais. Como ela não pode fazer sozinha, outras pessoas vão ajudá-la e logo chegam outras mais, vendo que aquelas peças estão vendendo bem. Dois meses depois, já são 20 pessoas trabalhando. Então, eu procuro forçar o engajamento da comunidade por esse lado, mostrando que o produto bem planejado vende melhor.

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