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Entrevista

UMA QUESTÃO DE BRASILIDADE
AUTORA DE INÚMEROS PROJETOS DE INTERIORES, ARQUITETA APOSTA NA PROMOÇÃO DA ARTE E ARTESANATO POPULARES COMO RESPOSTA PARA O FIM DA MISÉRIA NO NORDESTE BRASILEIRO

POR ÉRIDE MOURA foto SOFIA MATTOS



aU COMO O ARTESÃO RECEBE ESSAS INTERVENÇÕES?

JANETE COSTA Tudo é uma questão de abordagem, que deve ser feita de forma muito criteriosa para não ferir a auto-estima dos artesãos. Não se pode chegar a eles já com o desenho pronto, com um projeto feito. É preciso estabelecer um consenso entre a nossa opinião e a deles. E que eles compreendam o porquê da intervenção, para que possam dar continuidade ao que estão fazendo. A minha intenção é entrar no anonimato para que eles saiam do anonimato. É preciso não esquecer que esse é um trabalho, antes de tudo, de inclusão social. Há pouco tempo vi um projeto muito interessante em Pernambuco, feito com couro, por um grupo de designers e arquitetos holandeses, em que eles interferiram no design. Foi uma experiência linda no primeiro momento, só que depois não houve continuidade porque os artesãos não haviam compreendido bem a razão das interferências. E para que eles possam entender, precisam participar da definição do projeto, da elaboração do desenho. No final, o projeto de interferência dos holandeses ficou para eles mais como uma imposição, como um rompimento cultural, quando a intenção não era essa. A abordagem não é fácil, e minha luta atualmente é para envolver um maior número possível de arquitetos e designers que queiram se prontificar a desenvolver um trabalho mais ideológico junto aos artesãos.

aU ESSA TAREFA NÃO DEVERIA SER FEITA PELO PODER PÚBLICO, JUNTO A TODOS OS ARTESÃOS DO PAÍS?

JANETE COSTA O certo seria uma política de governo, claro, e o Sebrae tem feito um trabalho excelente nessa área, mas ainda é muito pouco e não atinge todas as comunidades. Muitas pessoas têm trabalhado nesse sentido, e com sucesso, pois em pouco tempo há um número cada vez maior de elementos da comunidade produzindo e evoluindo. Uma interessante iniciativa é o projeto Paraíba em suas mãos, do governo estadual e do qual participei, que já cadastrou quatro mil artesãos de tradição só naquele Estado. O Piauí já tem um projeto interessante e Pernambuco está se organizando nesse sentido. Mas é preciso ampliar todo esse trabalho. Minha preocupação é fazer com que arquitetos, designers e decoradores se interessem pela arte popular e comecem a especificar essas peças em seus projetos. É lamentável que um grande evento como a Casa Cor não apresente nada de arte popular. Os profissionais preferem trazer tudo do exterior e mostrar uma imagem brasileira estereotipada.

aU OS RESULTADOS DESSAS INTERVENÇÕES SÃO LOGO PERCEBIDOS? COMO FUNCIONA?

JANETE COSTA É impressionante como os resultados não são apenas rápidos, mas imediatos. Em dois ou três meses você sente a mudança da comunidade. Mas, claro, é preciso trabalhar a ponta da venda. Eu diferencio muito o artista popular do artesão. Com o artista popular, eu não interfiro, simplesmente introduzo suas obras em meus projetos. No trabalho do artesão é imprescindível para que seu produto ganhe espaço no mercado nacional.

aU NA PRÁTICA, QUAL A DISTINÇÃO ENTRE O ARTESÃO E O ARTISTA POPULAR?

JANETE COSTA A diferença é que o artesão inicia fazendo peças para satisfazer suas necessidades, para uso próprio. A esteira, a rede para dormir, o pote para carregar água, a panela para fazer comida, a cesta que funciona como embalagem. Se a cesta for para colocar pão, já muda o formato, o desenho, e o artesão tem de participar da mudança necessária para esse novo uso. Grandes populações de países como China, Índia, Tailândia, Indonésia estão saindo da miséria total graças à exportação do artesanato. Você não pode implantar, de uma hora para outra, uma indústria no sertão nordestino, mas pode aproveitar aquelas pessoas que já trabalham para si mesmas, para que produzam para o consumo de uma outra sociedade.

aU E O ARTISTA...

JANETE COSTA O artista popular é diferente porque ele é um criador e, como tal, não se deve interferir no seu trabalho. O que faço é organizar exposições para divulgar seus trabalhos, especificar e incluir suas peças em meus projetos. Eles têm sempre problemas sérios de sobrevivência, e quando uma peça dá certo, vão repetindo. Quase sempre iniciam suas atividades como artesãos, como foi o caso de Vitalino, de Caruaru, em Pernambuco, por exemplo, que se tornou famoso em todo o Brasil. Inicialmente ele fazia bonecos de barro para as crianças brincarem, era um trabalho lúdico. Mas como era um artista e tinha uma necessidade enorme de criar, passou a fazer uma revisão crítica da sociedade onde vivia e a retratar os personagens da sua cidade, fazendo retratos vivos com as mãos, como o engolidor de serpentes, o dentista, o médico, o cirurgião, o advogado. Esse seu trabalho gerou uma escola, pois as pessoas que trabalharam com Vitalino continuaram produzindo. E dessa escola, saíram alguns outros artistas, como Galdino, Zé Rodrigues, Luis Antônio, por exemplo, que passaram também a criar. Muitos artesãos passaram a copiar seus trabalhos, e estão lá, vivendo disso. Mas foi preciso que alguém como Vitalino abrisse o espaço para toda essa gente. Por todo o país surgem artistas populares geniais, como Ulisses do Vale do Jequitinhonha, em Minas, Agnaldo, de Salvador, Louco, de Cachoeira, na Bahia, e muitos outros que estão sempre despontando. A arte popular nunca acaba e ninguém sabe como começou.

aU O TRABALHO DE UM ARTISTA LEVAR CENTENAS DE OUTRAS PESSOAS PELO MESMO CAMINHO É COMUM AINDA?

JANETE COSTA Continuamente. Por exemplo, estivemos em Serra Branca, na Paraíba, onde entramos em contato com uma artista popular, Maria José, que fazia umas figuras femininas fantásticas, trabalhando sozinha. Compramos as peças que ela tinha, fizemos uma grande encomenda, e levamos o trabalho para uma feira no Sul, onde ela ganhou um prêmio. Quando voltamos a Serra Branca, já havia mais de trinta mulheres reproduzindo suas figuras. A atividade virou um artesanato local e está sendo bem vendido. O povoado era extremamente pobre e as pessoas precisavam de uma atividade que lhes rendesse o sustento. Todo artista popular gera outros artistas e faz surgir outras pessoas ao seu redor fazendo, copiando. O que une essas pessoas é a miséria e o artista popular é solidário, ele não tem problema de individualidade, ao contrário, dá a mão aos que trabalham com ele, sua preocupação é que mais pessoas possam viver daquela atividade. Sua visão de mundo é inteiramente diferente da que as pessoas das grandes cidades têm, e estão mais livres de intromissões externas. Essa atual absorção do que é do exterior, que é tão grande, não chega lá, mas ele dá o recado. E se os artistas contemporâneos se abastecessem lá só iriam somar...

aU NA MOSTRA DO TAMANHO DO BRASIL, DO SESC, ALÉM DOS NORDESTINOS, HÁ ARTISTAS POPULARES DE OUTRAS REGIÕES DO PAÍS. VOCÊ ATUA FORA DO NORDESTE?

JANETE COSTA Essa exposição que montei no Sesc foi importante porque reuni a arte popular de hoje, numa visão contemporânea. É o ancestral com uma visão do presente, como exemplifica a obra de Zé do Chalé, de Neópolis (Sergipe), de origem indígena, que aos 104 anos continua a esculpir seus "troféus" de madeira, fundindo a memória ancestral a suas experiências urbanas. O imaginário do povo brasileiro é muito rico. Mas meu trabalho é no Nordeste, que é onde tem um maior número de artesãos, onde a miséria é maior. No Norte, há muita influência indígena, o artesanato é riquíssimo. Mas talvez não se deva interferir no artesanato indígena, porque eles são maduros, mais antigos que nós. Recentemente, para montar uma exposição para o Banco Santander, em Porto Alegre, tive a maior dificuldade para encontrar artistas populares gaúchos e, no final, só encontrei um. Nessa mostra do Sesc eu expus o trabalho do Laurentino, que é paranaense, mas, como disse, o Sul tem poucos artistas populares, porque o padrão econômico da região é bem melhor do que o do Nordeste – e no Brasil, paradoxalmente, é nos grandes bolsões de pobreza que se encontra a maior criatividade. Estamos procurando organizar agora o Instituto do Imaginário Popular Brasileiro, com a finalidade de resgatar, resguardar, manter, valorizar e dar continuidade a essa nossa expressão cultural, e para que o grande público possa conhecer suas raízes e romper essa rejeição ao que é mais simples e mais barato.

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