aU COMO O ARTESÃO RECEBE ESSAS INTERVENÇÕES?
JANETE COSTA Tudo é uma questão de abordagem,
que deve ser feita de forma muito criteriosa para não ferir a auto-estima
dos artesãos. Não se pode chegar a eles já com o
desenho pronto, com um projeto feito. É preciso estabelecer um
consenso entre a nossa opinião e a deles. E que eles compreendam
o porquê da intervenção, para que possam dar continuidade
ao que estão fazendo. A minha intenção é entrar
no anonimato para que eles saiam do anonimato. É preciso não
esquecer que esse é um trabalho, antes de tudo, de inclusão
social. Há pouco tempo vi um projeto muito interessante em Pernambuco,
feito com couro, por um grupo de designers e arquitetos holandeses, em
que eles interferiram no design. Foi uma experiência linda no primeiro
momento, só que depois não houve continuidade porque os
artesãos não haviam compreendido bem a razão das
interferências. E para que eles possam entender, precisam participar
da definição do projeto, da elaboração do
desenho. No final, o projeto de interferência dos holandeses ficou
para eles mais como uma imposição, como um rompimento cultural,
quando a intenção não era essa. A abordagem não
é fácil, e minha luta atualmente é para envolver
um maior número possível de arquitetos e designers que queiram
se prontificar a desenvolver um trabalho mais ideológico junto
aos artesãos.
aU ESSA TAREFA NÃO DEVERIA SER FEITA PELO PODER PÚBLICO,
JUNTO A TODOS OS ARTESÃOS DO PAÍS?
JANETE COSTA O certo seria uma política de governo,
claro, e o Sebrae tem feito um trabalho excelente nessa área, mas
ainda é muito pouco e não atinge todas as comunidades. Muitas
pessoas têm trabalhado nesse sentido, e com sucesso, pois em pouco
tempo há um número cada vez maior de elementos da comunidade
produzindo e evoluindo. Uma interessante iniciativa é o projeto
Paraíba em suas mãos, do governo estadual e do qual participei,
que já cadastrou quatro mil artesãos de tradição
só naquele Estado. O Piauí já tem um projeto interessante
e Pernambuco está se organizando nesse sentido. Mas é preciso
ampliar todo esse trabalho. Minha preocupação é fazer
com que arquitetos, designers e decoradores se interessem pela arte popular
e comecem a especificar essas peças em seus projetos. É
lamentável que um grande evento como a Casa Cor não apresente
nada de arte popular. Os profissionais preferem trazer tudo do exterior
e mostrar uma imagem brasileira estereotipada.
aU OS RESULTADOS DESSAS INTERVENÇÕES SÃO
LOGO PERCEBIDOS? COMO FUNCIONA?
JANETE COSTA É impressionante como os resultados
não são apenas rápidos, mas imediatos. Em dois ou
três meses você sente a mudança da comunidade. Mas,
claro, é preciso trabalhar a ponta da venda. Eu diferencio muito
o artista popular do artesão. Com o artista popular, eu não
interfiro, simplesmente introduzo suas obras em meus projetos. No trabalho
do artesão é imprescindível para que seu produto
ganhe espaço no mercado nacional.
aU NA PRÁTICA, QUAL A DISTINÇÃO ENTRE O
ARTESÃO E O ARTISTA POPULAR?
JANETE COSTA A diferença é que o artesão
inicia fazendo peças para satisfazer suas necessidades, para uso
próprio. A esteira, a rede para dormir, o pote para carregar água,
a panela para fazer comida, a cesta que funciona como embalagem. Se a
cesta for para colocar pão, já muda o formato, o desenho,
e o artesão tem de participar da mudança necessária
para esse novo uso. Grandes populações de países
como China, Índia, Tailândia, Indonésia estão
saindo da miséria total graças à exportação
do artesanato. Você não pode implantar, de uma hora para
outra, uma indústria no sertão nordestino, mas pode aproveitar
aquelas pessoas que já trabalham para si mesmas, para que produzam
para o consumo de uma outra sociedade.
aU E O ARTISTA...
JANETE COSTA O artista popular é diferente porque
ele é um criador e, como tal, não se deve interferir no
seu trabalho. O que faço é organizar exposições
para divulgar seus trabalhos, especificar e incluir suas peças
em meus projetos. Eles têm sempre problemas sérios de sobrevivência,
e quando uma peça dá certo, vão repetindo. Quase
sempre iniciam suas atividades como artesãos, como foi o caso de
Vitalino, de Caruaru, em Pernambuco, por exemplo, que se tornou famoso
em todo o Brasil. Inicialmente ele fazia bonecos de barro para as crianças
brincarem, era um trabalho lúdico. Mas como era um artista e tinha
uma necessidade enorme de criar, passou a fazer uma revisão crítica
da sociedade onde vivia e a retratar os personagens da sua cidade, fazendo
retratos vivos com as mãos, como o engolidor de serpentes, o dentista,
o médico, o cirurgião, o advogado. Esse seu trabalho gerou
uma escola, pois as pessoas que trabalharam com Vitalino continuaram produzindo.
E dessa escola, saíram alguns outros artistas, como Galdino, Zé
Rodrigues, Luis Antônio, por exemplo, que passaram também
a criar. Muitos artesãos passaram a copiar seus trabalhos, e estão
lá, vivendo disso. Mas foi preciso que alguém como Vitalino
abrisse o espaço para toda essa gente. Por todo o país surgem
artistas populares geniais, como Ulisses do Vale do Jequitinhonha, em
Minas, Agnaldo, de Salvador, Louco, de Cachoeira, na Bahia, e muitos outros
que estão sempre despontando. A arte popular nunca acaba e ninguém
sabe como começou.
aU O TRABALHO DE UM ARTISTA LEVAR CENTENAS DE OUTRAS PESSOAS
PELO MESMO CAMINHO É COMUM AINDA?
JANETE COSTA Continuamente. Por exemplo, estivemos
em Serra Branca, na Paraíba, onde entramos em contato com uma artista
popular, Maria José, que fazia umas figuras femininas fantásticas,
trabalhando sozinha. Compramos as peças que ela tinha, fizemos
uma grande encomenda, e levamos o trabalho para uma feira no Sul, onde
ela ganhou um prêmio. Quando voltamos a Serra Branca, já
havia mais de trinta mulheres reproduzindo suas figuras. A atividade virou
um artesanato local e está sendo bem vendido. O povoado era extremamente
pobre e as pessoas precisavam de uma atividade que lhes rendesse o sustento.
Todo artista popular gera outros artistas e faz surgir outras pessoas
ao seu redor fazendo, copiando. O que une essas pessoas é a miséria
e o artista popular é solidário, ele não tem problema
de individualidade, ao contrário, dá a mão aos que
trabalham com ele, sua preocupação é que mais pessoas
possam viver daquela atividade. Sua visão de mundo é inteiramente
diferente da que as pessoas das grandes cidades têm, e estão
mais livres de intromissões externas. Essa atual absorção
do que é do exterior, que é tão grande, não
chega lá, mas ele dá o recado. E se os artistas contemporâneos
se abastecessem lá só iriam somar...
aU NA MOSTRA DO TAMANHO DO BRASIL, DO SESC, ALÉM DOS NORDESTINOS,
HÁ ARTISTAS POPULARES DE OUTRAS REGIÕES DO PAÍS.
VOCÊ ATUA FORA DO NORDESTE?
JANETE COSTA Essa exposição que montei
no Sesc foi importante porque reuni a arte popular de hoje, numa visão
contemporânea. É o ancestral com uma visão do presente,
como exemplifica a obra de Zé do Chalé, de Neópolis
(Sergipe), de origem indígena, que aos 104 anos continua a esculpir
seus "troféus" de madeira, fundindo a memória
ancestral a suas experiências urbanas. O imaginário do povo
brasileiro é muito rico. Mas meu trabalho é no Nordeste,
que é onde tem um maior número de artesãos, onde
a miséria é maior. No Norte, há muita influência
indígena, o artesanato é riquíssimo. Mas talvez não
se deva interferir no artesanato indígena, porque eles são
maduros, mais antigos que nós. Recentemente, para montar uma exposição
para o Banco Santander, em Porto Alegre, tive a maior dificuldade para
encontrar artistas populares gaúchos e, no final, só encontrei
um. Nessa mostra do Sesc eu expus o trabalho do Laurentino, que é
paranaense, mas, como disse, o Sul tem poucos artistas populares, porque
o padrão econômico da região é bem melhor do
que o do Nordeste – e no Brasil, paradoxalmente, é nos grandes
bolsões de pobreza que se encontra a maior criatividade. Estamos
procurando organizar agora o Instituto do Imaginário Popular Brasileiro,
com a finalidade de resgatar, resguardar, manter, valorizar e dar continuidade
a essa nossa expressão cultural, e para que o grande público
possa conhecer suas raízes e romper essa rejeição
ao que é mais simples e mais barato.
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