A questão parte de alguns pressupostos e muita discussão.
Primeiramente, o mercado de shopping center no Brasil está explodindo.
De acordo com a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping
Centers), há 346 shoppings no Brasil - 333 deles em operação
e 13 em construção. Em 1983, somente 15% dos empreendimentos
estavam no interior do País, percentual que se elevou para os
atuais 49%. Mas onde são construídos esses empreendimentos
e qual a relação deles com a cidade? Muitos arquitetos
questionam a integração entre esses edifícios e
a malha urbana e, conseqüentemente, entra em cena a discussão
sobre espaços privados e espaços públicos. É
possível, afinal, desenvolver shopping centers integrados ao
tecido urbano?
Em qualquer
cidade é primordial que todas as edificações estejam
integradas ao tecido urbano. No caso de shopping centers, face ao impacto
de vizinhança, no tráfego e no meio ambiente, essa integração
se dá mediante a adequada localização, acessos e
dimensionamento da obra, a fim de proporcionar a melhoria da qualidade
de vida da população do entorno (facilidade para comércio,
serviços e lazer). Quanto maior a cidade, mais desejável
a criação de shoppings em suas diversas regiões,
salientando que, no caso de São Paulo, certamente, o problema do
caótico tráfego teria se multiplicado se hoje ainda existisse
apenas o Shopping Iguatemi.
Julio Neves, arquiteto
O
problema dos shoppings em geral, e não só no Brasil, é
o objetivo de manter o usuário o máximo tempo possível
em ambiente fechado, induzindo-o a consumir, de forma similar aos cassinos.
Faz parte da "psicologia" do negócio. Por sua enorme
dimensão, esses blocos fechados criam realmente ilhas dentro das
cidades e ferem o tecido urbano. Mas não deveriam necessariamente
ser assim. Seria possível integrá-los de outra forma em
um conjunto de ruas e urbanização já existente, ainda
que fechados, mas mantendo durante o seu período de funcionamento
uma unidade e uma integração com a área circundante.
Já no caso dos grandes malls fora dos centros urbanos, mesmo sendo
blocos individualizados, acabam por se tornar centro de atração
da região e podem, se planejados juntamente com o entorno, tornarem-se
um pólo indutor de uma urbanização mais organizada,
como aconteceu com a implantação do Shopping Iguatemi em
Porto Alegre.
Ronaldo Rezende,
arquiteto, presidente da AsBEA
Claro
que sim. Anos atrás, escrevi um artigo em que dizia: "se os
shopping centers vieram para ficar, que se transmutem e nós, arquitetos,
devemos encará-los e não fugir da raia". Penso que
devemos projetar shopping centers que sejam anti-shopping centers -
se tomarmos como exemplos a grande maioria dos que estão por aí
contribuindo para o abandono das nossas ruas, dando as costas para nossas
cidades. Fechados como são, simbolizam o medo e a negação
da vida urbana. São como refúgios para os que vêem
na cidade somente o perigo, a violência, o desconforto. E a segregação
social como única saída. Ao contrário, acredito que
os novos shoppings, assim como os bons mercados que conhecemos, devem
levar para dentro de si as ruas, a vida, o trato público, a convivência
dos diferentes e das diferentes classes sociais. Enfim, a urbanidade.
Assim são nossas exemplares galerias da área central de
São Paulo e do Rio de Janeiro, como a do Rock e o Conjunto Nacional.
E, se formos mais longe, teremos as passagens de Paris, os mercados/ruas
árabes e persas...
Marcelo Ferraz, arquiteto

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