Na Itália, vale observar, as obras novas são autorizadas
apenas nos poucos terrenos vazios ou em situações em que
a velha construção esteja degradada além da possibilidade
de recuperação. Todas as edificações antigas
são protegidas por lei, permitindo-se restaurações
desde que sejam conservadas suas características e com a aprovação
da municipalidade. A preservação não se limita aos
monumentos arquitetônicos, mas a tudo que marque um tempo, uma época,
um fato histórico, a fim de se preservar o patrimônio cultural
do país.
Assim ocorreu com o conjunto de edifícios de uma indústria
do final do século 18, situado no pitoresco bairro Rimembranze
di Greco, próximo da Estação Central de Milão
e defronte a um dos antigos canais por onde escoavam as mercadorias. A
residência aqui mostrada é parte dessa propriedade.
Para a reciclagem desses imóveis o arquiteto Francesco Mauri elaborou
um estudo do conjunto como um todo, estabelecendo as relações
existentes entre os prédios, entre seus espaços internos
e externos, procurando manter características tipológicas
da arquitetura industrial, segundo a lógica de recuperação
local.
O volume maior, onde funcionava a indústria, foi adaptado para
abrigar lofts e escritórios. À mansão do proprietário
da fábrica, o arquiteto incorporou apartamentos e ainda escritórios,
mas o depósito que acompanha o limite do terreno voltado para o
canal Martesana foi adquirido por uma só pessoa. As antigas construções
somavam 1.096 m2 de área. Para a renovação foram
demolidos apenas 240 m2, conforme permite o regulamento da cidade, ou
seja, uma porcentagem de cerca de 20% da área construída
a fim de não descaracterizar os edifícios.
Adquirido por um casal com dois filhos adolescentes, o galpão
foi recuperado pela arquiteta Marisa Barda, responsável também
pelo acompanhamento da obra e desenho do mobiliário. Do velho e
longo depósito com 4,2 m de largura e 36 m de comprimento, surgiu
a residência de 150 m2 que ocupa apenas o andar superior. O térreo
concentra o acesso único da casa e o estacionamento dos carros
do conjunto.
A arquiteta procurou dar ênfase à situação
longitudinal dessa construção, conservando, entre outros
aspectos, o volume da escada construída anteriormente, alterando
apenas sua forma e determinando os novos espaços por meio de percursos
e iluminação.
No primeiro piso desenvolve-se todo o programa da casa. O telhado de
uma água foi elevado em 0,75 m em relação ao existente,
tirando-se partido de sua inclinação. A altura das paredes
varia, portanto, de dois a quatro metros. Em determinados pontos, as paredes
longitudinais não atingem o teto para evitar recortes onde passam
as vigas. Com essa solução, explica a arquiteta, tem-se
uma percepção total da estrutura do telhado e de todos os
ambientes, sem barreiras visuais. As paredes que protegem os boxes dos
chuveiros, em forma circular para efeito estético e de volumetria,
avançam para fora dos banheiros.
A distribuição dos ambientes é singular. De fato,
a planta em si revela a maneira de viver da classe média na Itália,
semelhante à de quase toda a Europa. A área de serviço
refere-se apenas à cozinha, ponto de fuga de todos os espaços.
Não há lavabo nem lavanderia, embora a arquiteta tenha feito
uma pequena divisão em um dos banheiros para lavagem de roupas.
Os dois dormitórios e respectivos banheiros situam-se, cada um,
em uma das extremidades do pavimento, não existindo contato entre
eles.
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