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Made in

DESIGN DETERMINADO PELA MATÉRIA-PRIMA
Por Joana Carvalho Fotos Marcelo Scandaroli


A preocupação com o uso dos recursos precede um bom projeto. Assim a arquiteta Renata Puglia, da Marcenaria Baraúna, define o conceito que envolve o trabalho da fábrica de móveis paulistana, fundada em 1986, e que traz peças de seus sócios-fundadores, Marcelo Ferraz e Francisco Fannuci, e ainda de outros arquitetos renomados, como Lina Bo Bardi e Marcelo Suzuki. "Não existe um bom desenho se, no seu conteúdo, não estiverem embutidos todos os conceitos relacionados ao uso da matéria-prima, como preservação ambiental ou sustentabilidade", diz. Exemplificando essa idéia, o aparador Brutus e o carrinho de chá Zig – últimas peças produzidas pela Baraúna – revelam como se uniu funcionalidade, solução estrutural enxuta, sofisticação estética e a prática do menos é mais.

O aparador é fabricado em madeira bruta e foi criado como uma peça genérica que pudesse ser utilizada de diversas formas. Feito sob encomenda, o pedido era que o móvel não tivesse utilidade específica, já que seria destinado, inicialmente, para uma sala de ginástica. O desenho elementar, limpo e reto, dá força ao móvel e sugere, para uma sala praticamente carente de outras mobílias, que possa ser usado também como banco, rack para televisão ou aparelho de som, de acordo com as necessidades do espaço. Foi desenvolvido em imbuia que, segundo a arquiteta, era a matéria-prima disponível no momento, mas pode ser fabricado em qualquer tipo de madeira. "Não buscamos lançar tendência com relação à madeira, pois isso acaba explorando demais algumas espécies. Nossa intenção é justamente utilizar o material que temos disponível, sem usar mais do que o necessário", explica.

Outro detalhe do móvel é a construção em tiras: originalmente com medidas distintas, cada uma foi cortada para ter as dimensões tanto da base quanto da superfície igualadas. A fixação das tiras foi feita com parafusos e clavilhas nos montantes e nas laterais, sem que houvesse uma fixação específica entre elas. A utilização da madeira respeitando sua forma e irregularidade naturais, segundo Renata, também faz parte do conceito da Baraúna, pois une a beleza estética diferenciada à economia de processos no desenvolvimento da peça – não é preciso, por exemplo, passar por usinagem nem por uso de máquinas. "Fizemos o móvel somente com o que dispúnhamos: pranchas de várias espessuras e colorações, com a intenção de aproveitar toda a nossa matéria-prima. Determinamos o desenho da peça com base nesse material."

O carrinho de chá Zig também busca a economia de materiais aliada à forma sintética da estrutura. Renata revela que foi buscar inspiração no carrinho de chá do arquiteto finlandês Alvar Aalto, que também preza pela leveza estética e estrutural. "É uma estrutura reduzida, estabelecida por seções pequenas de madeira que resolvem projetos de grande volume", explica. "Hoje, pelo fato de as casas e apartamentos terem espaços reduzidos, ninguém mais tem um móvel-bar gigante. Nossa idéia era produzir um móvel menor, resistente e harmonioso, e que ocupasse pouco espaço."

A parte estrutural do protótipo foi idealizada em ipê, pois a peça necessita de madeiras bem duras, cujas seções pequenas consigam sustentar vãos maiores. Já a bandeja pode ser produzida com qualquer tipo de madeira. Para a movimentação, foram desenvolvidas rodas também de madeira, envoltas por uma tira de borracha para amortecimento. Na primeira tentativa, porém, as rodas foram feitas de madeira maciça, mas foram substituídas por causa do alto índice de deformação quando utilizadas como peças de rolamento. O projeto inicial também foi modificado ainda no papel, por sugestão da equipe, que propôs o prolongamento da estrutura superficial para a criação do puxador.

Para a arquiteta, os dois móveis são exemplos do conceito da Baraúna, "porque respeitam as características das madeiras como um material vivo e dinâmico, aproveitando o que elas têm de melhor". E complementa: é a matéria-prima disponível e a peculiaridade das madeiras brasileiras que determinam o desenho da peça.

 
 
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