A
disseminação indiscriminada de locais onde se discrimina
a disseminação nas cidades brasileiras vem levantando freqüentemente
a reação dos sociólogos e outros desocupados contra
dois tipos de projeto que se espalham por todas as cidades brasileiras:
os grandes condomínios fechados e os shopping centers. Do ponto
de vista teórico, esses projetos são daninhos para a formação,
crescimento e desenvolvimento das cidades. São mesmo. Mas como
diz o sábio Joelmir Beting, "na prática a teoria é
outra".
O argumento sociológico, que está correto, diz que condomínios
fechados criam ghettos dentro das cidades, isolam seus moradores da vida
do dia a dia. Também observam que, quanto melhores e mais equipados,
mais isolamento atraem. Tudo verdade.
Quanto aos shopping centers, os sociólogos dizem que criam ilhas
de consumo de privilegiados, muito embora haja shoppings de todos os tipos
e não proíbam a entrada de ninguém, exceto de cachorros
e fumantes. Têm toda a razão de fazê-lo, ainda que
devesse haver uma certa tolerância para os cães.
Do ponto de vista urbanístico (e dá perfeitamente para
separá-lo do sociológico), os grandes condomínios
residenciais são monótonos e repetitivos (tanto internamente
em um condomínio quanto em condomínios teoricamente diferentes)
e o seu cercamento em grandes quadras interrompe a malha da cidade. Na
verdade clubes, cemitérios, escolas, hospitais e até parques,
enfim, grandes áreas provocam esse efeito. Quanto aos shoppings,
suas grandes áreas também interrompem a continuidade espacial
das cidades e o tipo de arquitetura de blocos fechados é lamentável.
Tudo real.
No entanto, todos esses argumentos teóricos e verdadeiros se
chocam com uma questão: os habitantes dos condomínios fechados
(casas ou edifícios) e os freqüentadores dos shoppings, que
são milhões em todas as cidades, adoram esses locais. Excluem-se
daí os intelectuais, que adoram morar em centros decrépitos
das cidades.
A sinuca – ou o sofisma – é a seguinte: se a arquitetura
e o urbanismo devem atender ao desejo e bem-estar da população,
e se todos que podem gostam de morar, viver e comprar assim, o que há
de errado? Suponhamos que fosse possível proporcionar a toda a
população viver e comprar nesses locais e, portanto, a discriminação
não existisse. Não estariam todos satisfeitos?
O argumento pode ser falacioso, porque, do ponto de vista intelectual,
cultural e social, de fato esse processo significaria a destruição
da vida urbana, inteligente e movimentada que os contatos humanos permitem.
Teríamos Brasílias por todo o País, ocupadas por
políticos e funcionários públicos, cercadas por cidades
satélites de populações idem. Seriam as cidades ideais,
planejadas por teóricos do modernismo como Gropius, Le Corbusier,
Speer, Piaccentini e os holandeses dos anos 20/30 comandando o processo.
Mas é curioso mencionar que um jovem criado em Brasília
ou nas "não tão novas" cidades inglesas, e que
não conheça muito de outras cidades (difícil), acha
que Brasília e as New Towns são convencionais e que o ambiente
urbano como secularmente o conhecemos é uma bagunça e uma
confusão visual total, com prédios alinhados sem recuos,
cruzamentos de ruas, quadras totalmente ocupadas e etc. A imagem normal
que essa pessoa tem de cidade é parecida com a dos condomínios
fechados e shoppings.
Ao fazermos essas cidades "fechadas", repetiríamos
de alguma forma as cidades medievais, certamente muitíssimo divertidas
de se viver, mesmo com baldes de merda caindo na sua cabeça. Mas
todas eram cercadas (e põe cerca, muro e muralha nisso) e os que
estavam de fora, em grande parte das vezes tinham de pagar caro só
para entrar por algumas horas, quando podiam, como nos estacionamentos
dos shopping centers. Nem pensar de morar dentro dos muros.
E se quisessem entrar na marra (como você tenta hoje entrar em
um condomínio residencial), ao chegarem às muralhas o mínimo
que recebiam eram uns baldes ferventes de azeite extravirgem (gente fina
é outra coisa) na cabeça.
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