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Crônicas Agudas

PRIVADAS E PÚBICAS (áreas)
MALLS E BONNS

POR SERGIO TEPERMAN


A disseminação indiscriminada de locais onde se discrimina a disseminação nas cidades brasileiras vem levantando freqüentemente a reação dos sociólogos e outros desocupados contra dois tipos de projeto que se espalham por todas as cidades brasileiras: os grandes condomínios fechados e os shopping centers. Do ponto de vista teórico, esses projetos são daninhos para a formação, crescimento e desenvolvimento das cidades. São mesmo. Mas como diz o sábio Joelmir Beting, "na prática a teoria é outra".

O argumento sociológico, que está correto, diz que condomínios fechados criam ghettos dentro das cidades, isolam seus moradores da vida do dia a dia. Também observam que, quanto melhores e mais equipados, mais isolamento atraem. Tudo verdade.

Quanto aos shopping centers, os sociólogos dizem que criam ilhas de consumo de privilegiados, muito embora haja shoppings de todos os tipos e não proíbam a entrada de ninguém, exceto de cachorros e fumantes. Têm toda a razão de fazê-lo, ainda que devesse haver uma certa tolerância para os cães.

Do ponto de vista urbanístico (e dá perfeitamente para separá-lo do sociológico), os grandes condomínios residenciais são monótonos e repetitivos (tanto internamente em um condomínio quanto em condomínios teoricamente diferentes) e o seu cercamento em grandes quadras interrompe a malha da cidade. Na verdade clubes, cemitérios, escolas, hospitais e até parques, enfim, grandes áreas provocam esse efeito. Quanto aos shoppings, suas grandes áreas também interrompem a continuidade espacial das cidades e o tipo de arquitetura de blocos fechados é lamentável. Tudo real.

No entanto, todos esses argumentos teóricos e verdadeiros se chocam com uma questão: os habitantes dos condomínios fechados (casas ou edifícios) e os freqüentadores dos shoppings, que são milhões em todas as cidades, adoram esses locais. Excluem-se daí os intelectuais, que adoram morar em centros decrépitos das cidades.

A sinuca – ou o sofisma – é a seguinte: se a arquitetura e o urbanismo devem atender ao desejo e bem-estar da população, e se todos que podem gostam de morar, viver e comprar assim, o que há de errado? Suponhamos que fosse possível proporcionar a toda a população viver e comprar nesses locais e, portanto, a discriminação não existisse. Não estariam todos satisfeitos?

O argumento pode ser falacioso, porque, do ponto de vista intelectual, cultural e social, de fato esse processo significaria a destruição da vida urbana, inteligente e movimentada que os contatos humanos permitem. Teríamos Brasílias por todo o País, ocupadas por políticos e funcionários públicos, cercadas por cidades satélites de populações idem. Seriam as cidades ideais, planejadas por teóricos do modernismo como Gropius, Le Corbusier, Speer, Piaccentini e os holandeses dos anos 20/30 comandando o processo.

Mas é curioso mencionar que um jovem criado em Brasília ou nas "não tão novas" cidades inglesas, e que não conheça muito de outras cidades (difícil), acha que Brasília e as New Towns são convencionais e que o ambiente urbano como secularmente o conhecemos é uma bagunça e uma confusão visual total, com prédios alinhados sem recuos, cruzamentos de ruas, quadras totalmente ocupadas e etc. A imagem normal que essa pessoa tem de cidade é parecida com a dos condomínios fechados e shoppings.

Ao fazermos essas cidades "fechadas", repetiríamos de alguma forma as cidades medievais, certamente muitíssimo divertidas de se viver, mesmo com baldes de merda caindo na sua cabeça. Mas todas eram cercadas (e põe cerca, muro e muralha nisso) e os que estavam de fora, em grande parte das vezes tinham de pagar caro só para entrar por algumas horas, quando podiam, como nos estacionamentos dos shopping centers. Nem pensar de morar dentro dos muros.

E se quisessem entrar na marra (como você tenta hoje entrar em um condomínio residencial), ao chegarem às muralhas o mínimo que recebiam eram uns baldes ferventes de azeite extravirgem (gente fina é outra coisa) na cabeça.

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