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Crônicas Agudas

PRIVADAS E PÚBICAS (áreas)
MALLS E BONNS

POR SERGIO TEPERMAN


Enfim, em nome da segurança, só repetimos hoje comportamentos atávicos seculares e damos aos condomínios nomes franceses e, às instalações e comodidades, todos nomes americanos que se possa imaginar. No caso de São Paulo, ainda por cima, os coeficientes do novo democrático plano diretor obrigam os empreendedores a construir em grandes terrenos para que o negócio se torne rentável, aumentando cada vez mais as áreas ocupadas e cercadas e demolindo a cidade "urbana".

Mas repito, quem mora aí não quer outra vida e mesmo em locais onde a vida urbana é intensa, a variedade de tipos humanos e a "igualdade" real de movimentação existe para todos.

Nos subúrbios de nossas cidades acontece o efeito Flórida, com imensos condomínios, todos agora com "le dernier cri", os campos de golfe. Os campos de golfe dão ao condomínio a porcentagem de áreas verdes necessárias para atender à legislação e, assim, os participantes desse emocionante, eletrizante, rápido e movimentado esporte, que devem representar 1% dos moradores que usam o campo aos sábados e domingos, dividem democraticamente o custo condominial da manutenção do "green, lagos, buracos e adjacências" com os outros 99% que estão em casa vendo futebol pela TV.

Já disse várias vezes que temos um tipo de vida norte-americano, o que, infelizmente, nos afasta do convívio maravilhoso dos centros das cidades européias que tentamos inutilmente atingir. E o mais aproximado que temos dos centros comerciais divertidos e apinhados de gente é o Saara, no Rio, ou a 25 de Março, em São Paulo. Um terror, especialmente se comparados à tranqüilidade e facilidade de se comprar em um shopping center. Não vale considerar a rua Oscar Freire, assim como ninguém considera a Banhofstrasse, em Zürich, o Faubourg Saint Honoré, em Paris, ou a Via Montenapoleone, em Milano, uma rua para todos.

Os predecessores dos shopping centers, e que felizmente existem até hoje, são os grandes bazares das cidades do Oriente Médio. São locais extraordinários, simples ruas estreitas cobertas com telas e onde, sem um guia, você se perde em dois minutos – e onde já ouvi o indefectível "how much?", inquirindo por quantos camelos eu trocaria minha companheira de viagem. Negócio honesto. Ou mesmo Bangkok e Hong Kong, onde certos "centros comerciais" são um monte de barcos encostados uns nos outros.

O que os bazares sabiamente sabiam é que é necessário ter praças, áreas abertas e saídas para as ruas, o que, em nome do controle, da economia e da segurança, os shoppings atuais se recusam a fazer. Com isso interrompem a malha urbana e criam, de propósito, ambientes iguais aos cassinos, onde você não sabe se é dia ou noite. Fazem isso na ilusão de que, assim mergulhado nas compras, você vá consumir mais.
Louvemos o empreendedor Alfredo Mathias, que nas décadas de 60/70 criou, com o arquiteto João Figueiredo, o Shopping Center Iguatemi e o Centro Empresarial de São Paulo, até hoje não igualados como área de compras ou de escritórios com serviços em São Paulo.

É possível até criar esses centros em áreas fechadas devido ao clima, como em Stockholm e especialmente Toronto e Montreal, onde há quilômetros de ruas comerciais no subsolo. Embora aí tenham sido criadas cidades subterrâneas, e não simples corredores de lojas.

Os centros fechados também são viáveis onde as prefeituras são inteligentes e aceitam passarelas elevadas de vidro entre algumas quadras. Ainda nas décadas de 60/70, foram criadas grandes galerias com comércio popular em São Paulo, na área central entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Essas galerias, algumas com vários andares (do tipo da Galeria do Rock), apesar de sua pobre arquitetura, mantêm o espírito da vida urbana. Com boa arquitetura, foram muito bem interpretadas pela Galeria Metrópole.

Stockholm baseou-se nos Ministérios de Brasília para criar, nos anos 60, o seu centro comercial, e não devemos nos esquecer dos primeiros desses grandes centros, sucessos eternos e indiscutíveis, a Galleria Vittorio Emanuelle, em Milano, e o Rockefeller Center, em New York. Já Albany, cujo centro foi criado pelo governador do estado de New York, Nelson Rockefeller, um fanático por arquitetura e inspirado em Brasília, foi um fracasso porque praticamente só envolvia órgãos públicos.

Enquanto isso, também o novo Les Halles, em Paris, foi uma catástrofe.
Em resumo, com boa arquitetura, tudo é possível em termos de excelente vida urbana, até no caso de condomínios fechados e shoppings centers. Mas é necessária uma visão mais ampla de empreendedores e não de corretores e, por que não?, de bons arquitetos. Só assim a separação entre as áreas privadas e públicas não será tão grande, nem a diferença tão gritante.

P.S: E que arquiteto recusaria projetar um condomínio fechado ou um shopping center?

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