Enfim, em nome da segurança, só repetimos hoje comportamentos
atávicos seculares e damos aos condomínios nomes franceses
e, às instalações e comodidades, todos nomes americanos
que se possa imaginar. No caso de São Paulo, ainda por cima, os
coeficientes do novo democrático plano diretor obrigam os empreendedores
a construir em grandes terrenos para que o negócio se torne rentável,
aumentando cada vez mais as áreas ocupadas e cercadas e demolindo
a cidade "urbana".
Mas repito, quem mora aí não quer outra vida e mesmo em
locais onde a vida urbana é intensa, a variedade de tipos humanos
e a "igualdade" real de movimentação existe para
todos.
Nos subúrbios de nossas cidades acontece o efeito Flórida,
com imensos condomínios, todos agora com "le dernier cri",
os campos de golfe. Os campos de golfe dão ao condomínio
a porcentagem de áreas verdes necessárias para atender à
legislação e, assim, os participantes desse emocionante,
eletrizante, rápido e movimentado esporte, que devem representar
1% dos moradores que usam o campo aos sábados e domingos, dividem
democraticamente o custo condominial da manutenção do "green,
lagos, buracos e adjacências" com os outros 99% que estão
em casa vendo futebol pela TV.
Já disse várias vezes que temos um tipo de vida norte-americano,
o que, infelizmente, nos afasta do convívio maravilhoso dos centros
das cidades européias que tentamos inutilmente atingir. E o mais
aproximado que temos dos centros comerciais divertidos e apinhados de
gente é o Saara, no Rio, ou a 25 de Março, em São
Paulo. Um terror, especialmente se comparados à tranqüilidade
e facilidade de se comprar em um shopping center. Não vale considerar
a rua Oscar Freire, assim como ninguém considera a Banhofstrasse,
em Zürich, o Faubourg Saint Honoré, em Paris, ou a Via Montenapoleone,
em Milano, uma rua para todos.
Os predecessores dos shopping centers, e que felizmente existem até
hoje, são os grandes bazares das cidades do Oriente Médio.
São locais extraordinários, simples ruas estreitas cobertas
com telas e onde, sem um guia, você se perde em dois minutos –
e onde já ouvi o indefectível "how much?", inquirindo
por quantos camelos eu trocaria minha companheira de viagem. Negócio
honesto. Ou mesmo Bangkok e Hong Kong, onde certos "centros comerciais"
são um monte de barcos encostados uns nos outros.
O que os bazares sabiamente sabiam é que é necessário
ter praças, áreas abertas e saídas para as ruas,
o que, em nome do controle, da economia e da segurança, os shoppings
atuais se recusam a fazer. Com isso interrompem a malha urbana e criam,
de propósito, ambientes iguais aos cassinos, onde você não
sabe se é dia ou noite. Fazem isso na ilusão de que, assim
mergulhado nas compras, você vá consumir mais.
Louvemos o empreendedor Alfredo Mathias, que nas décadas de 60/70
criou, com o arquiteto João Figueiredo, o Shopping Center Iguatemi
e o Centro Empresarial de São Paulo, até hoje não
igualados como área de compras ou de escritórios com serviços
em São Paulo.
É possível até criar esses centros em áreas
fechadas devido ao clima, como em Stockholm e especialmente Toronto e
Montreal, onde há quilômetros de ruas comerciais no subsolo.
Embora aí tenham sido criadas cidades subterrâneas, e não
simples corredores de lojas.
Os centros fechados também são viáveis onde as prefeituras
são inteligentes e aceitam passarelas elevadas de vidro entre algumas
quadras. Ainda nas décadas de 60/70, foram criadas grandes galerias
com comércio popular em São Paulo, na área central
entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Essas galerias,
algumas com vários andares (do tipo da Galeria do Rock), apesar
de sua pobre arquitetura, mantêm o espírito da vida urbana.
Com boa arquitetura, foram muito bem interpretadas pela Galeria Metrópole.
Stockholm baseou-se nos Ministérios de Brasília para criar,
nos anos 60, o seu centro comercial, e não devemos nos esquecer
dos primeiros desses grandes centros, sucessos eternos e indiscutíveis,
a Galleria Vittorio Emanuelle, em Milano, e o Rockefeller Center, em New
York. Já Albany, cujo centro foi criado pelo governador do estado
de New York, Nelson Rockefeller, um fanático por arquitetura e
inspirado em Brasília, foi um fracasso porque praticamente só
envolvia órgãos públicos.
Enquanto isso, também o novo Les Halles, em Paris, foi uma catástrofe.
Em resumo, com boa arquitetura, tudo é possível em termos
de excelente vida urbana, até no caso de condomínios fechados
e shoppings centers. Mas é necessária uma visão mais
ampla de empreendedores e não de corretores e, por que não?,
de bons arquitetos. Só assim a separação entre as
áreas privadas e públicas não será tão
grande, nem a diferença tão gritante.
P.S: E que arquiteto recusaria projetar um condomínio fechado
ou um shopping center?
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