Perguntamos a um grupo de profissionais e formadores de opinião
como seria possível aproximar a sociedade do debate sobre a arquitetura.
Como despertar o interesse das pessoas e, por conseqüência,
levá-las a interagir melhor com a produção atual?
Como elevar o grau de exigência e o valor atribuído ao trabalho
dos arquitetos? Uma análise das respostas revela algo simples de
diagnosticar e difícil de resolver: enquanto o grau de educação
e erudição de nossa sociedade não se elevar, pouco
poderá ser feito para salvar nossas paisagens urbanas da mediocridade
e da falta de planejamento. Tal visão está bem resumida
nas palavras de Décio Tozzi: "o diálogo entre arquitetura
e sociedade ocorre em si e é permanente". Ele afirma que a
arquitetura exibe o espírito do momento histórico que a
engendrou e faz uma avaliação nada elogiosa da produção
brasileira atual. Segundo Tozzi, aqui "se produz uma arquitetura
de caráter comercial que, influenciada pelo negócio, infesta
nossas cidades de um desenho espúrio e de uma estética extremamente
duvidosa". A afirmação esconde uma irritação
legítima do arquiteto. Claro que há boa arquitetura sendo
praticada no Brasil. O próprio Tozzi já contribuiu com vários
exemplos, como o Fórum Trabalhista Ruy Barbosa (AU 122, maio/2004),
em São Paulo. O que deve exasperá-lo, assim como a tantos
outros arquitetos, é a orientação mercadológica
que a produção atual adquiriu – não apenas
no Brasil, mas em todo o mundo. Para o crítico de arquitetura Helio
Piñón, entrevistado desta edição,
até os anos 70, os arquitetos contavam com um modo de conceber
original, com elementos e critérios que atuavam como matéria-prima
para os projetos. Tais critérios, porém, teriam sido abandonados
sem que fossem encontrados outros valores para reposição.
Isso levou à adoção do conceito como critério
de ação e instância de verificação do
projeto. O conceito, e não mais o edifício, passou a ser
usado para ensinar arquitetura, "com os resultados que todo mundo
conhece", lamenta o espanhol. Também desagrada a Piñón
a quantidade de literatura produzida a respeito de arquitetura hoje. "O
falar de arquitetura, nos termos em que se faz (...) cria a ficção
de que a boa arquitetura é aquela sobre a qual se fala, o que não
pode estar mais longe da realidade", diz. Nada mais contraditório
e, ao mesmo tempo, instigante para uma revista de arquitetura.
"Faz 30 anos que
a arquitetura se converteu em
um elemento de consumo midiático e econômico"
Helio Piñón