Pesquisador, professor, crítico e arquiteto. Essas são
algumas das atribuições do espanhol Helio Piñón,
que esteve recentemente no Brasil a convite do Programa de Pesquisa e
Pós-Graduação em Arquitetura (Propar) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com financiamento do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em Porto
Alegre, na UFRGS, e em São Paulo, na Escola da Cidade, deu palestras
e ministrou o curso Projeto, Modernidade e Aprendizado. Dono de opiniões
muitas vezes radicais, fundamentadas em um discurso claro e coeso, Piñón
acredita que a arquitetura, sobretudo a que se pratica desde a década
de 70, vive um processo de intensa decadência, marcada pela proliferação
de "modismos" que são incentivados pelas faculdades de
arquitetura e revistas especializadas no assunto. "Faz 30 anos que
a arquitetura se converteu num elemento de consumo midiático e
econômico", declara o arquiteto, que é autor de mais
de 21 livros sobre arquitetura, um deles sobre Paulo Mendes da Rocha (Paulo
Mendes da Rocha, Coleção Documentos de Arquitetura Moderna,
Romano Guerra Editora). Em 2000, fundou o Laboratório de Arquitetura
da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona, onde desenvolve
sua atividade profissional e investigativa. O lançamento do livro
A teoria do projeto, pela editora Livraria do Arquiteto, traduzido por
Edson Mahfuz, foi um dos principais motivos da visita de Piñón
ao País. "O livro responde às grandes questões
do projeto de arquitetura, abordadas com a perspectiva de quem compartilhou,
durante 35 anos, a prática profissional com a reflexão e
a docência", diz Piñón. Nascido na cidade de
Onda, em 1942, é autor de numerosos projetos na Espanha e em outros
países, realizados em conjunto com Albert Viaplana, como a Praça
dos Países Catalães e o Centro de Cultura Contemporânea
de Barcelona.
aU COMO SURGIU A IDÉIA DE
PUBLICAR O LIVRO A TEORIA DO PROJETO NO BRASIL?
HELIO Piñón Foi uma
iniciativa de meu amigo Edson Mahfuz, com quem mantenho uma relação
pessoal e epistolar há anos. Ele me propôs traduzir o texto
para o português, o que, conhecendo a seriedade com que aborda seus
trabalhos, me pareceu um luxo: na realidade, é a única maneira
de abordar um projeto dessa natureza, se quer que as idéias não
acabem desvirtuadas por efeito da transposição lingüística.
Enviava-me os capítulos à medida que os traduzia e devo
confessar: praticamente não encontrei objeções a
seu trabalho. Quero aproveitar para fazer público meu reconhecimento
a Mahfuz e agradecer o projeto de traduzir outros textos complementares
ao de Teoria do projeto, da mesma coleção.
aU QUE LIÇÕES O LEITOR
PODERÁ EXTRAIR DO LIVRO?
Piñón Entendo a teoria
como a tentativa de resolver, mediante a reflexão, aquelas questões
sem resposta no sentido comum; nada a ver, portanto, com a doutrina, que
tem um propósito didático baseado em um conjunto de princípios
que definem o estado de opinião de alguém sobre algum assunto.
A diferença não está, portanto, no grau de subjetividade
– a teoria é subjetiva, posto que é resposta de um
sujeito a um problema – mas sim no propósito da reflexão:
o da teoria é adquirir conhecimento, o da doutrina, difundi-lo.
Em Teoria do projeto tratei de encontrar resposta para as questões
estéticas e operacionais levantadas pelo projeto moderno na arquitetura.
Há 50 anos a arquitetura moderna era hegemônica, de modo
que se podia aprender apenas olhando as revistas que publicavam as obras
fundamentais. Mas a proliferação de concepções
surgidas ao longo das últimas décadas faz com que o nível
de consciência deva ser maior. É aí onde acredito
que meu livro pode resultar útil, porque esclarece o sentido de
uma arquitetura real que, pelo que vejo, volta a interessar a uma maioria
de arquitetos comprometidos com sua atividade e com a história.
aU O LIVRO SE BASEIA EM PROJETOS
DE SUA AUTORIA? QUAIS OS CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA ESCOLHÊ-LOS?
Piñón Não,
o livro não está baseado em nenhum projeto específico,
mas em toda a arquitetura que me interessou – e da qual aprendi
e continuo aprendendo – desde que comecei meus estudos de arquitetura,
há quase 50 anos. Na realidade, os temas que abordo no livro são
os temas da arquitetura em geral, mas com a particularidade de que não
foram retirados de um livro, e nem de discursos alheios, mas sim da experiência
direta da arquitetura. Os grandes temas do livro respondem às grandes
questões do projeto de arquitetura, abordadas da perspectiva de
quem vivenciou durante 35 anos a prática profissional com a reflexão
e a docência. A modernidade, ou seja, a dialética entre a
forma e o olhar, proporciona a perspectiva com a qual se aborda a técnica,
o lugar, o tempo e a sociedade.
aU O SENHOR DIZ QUE "A ARQUITETURA
NÃO DEVE SER NOVA PARA SER BOA", E QUE "A ATUAL OBSESSÃO
PELA INOVAÇÃO É ALGO NOCIVO". ESSA INOVAÇÃO
A QUE O SENHOR SE REFERE SERIA TECNOLÓGICA OU FORMAL? EXISTE ALGUMA
CIRCUNSTÂNCIA EM QUE A INOVAÇÃO É AUTÊNTICA
E BEM-VINDA NA ARQUITETURA?
Piñón O problema da
inovação é que ela se associa a uma questão
mal colocada. A inovação não é boa e nem má,
simplesmente é irrelevante para a qualidade de uma obra de arquitetura,
ou de arte, em geral. Aliás, situar o propósito da inovação
aliena a prática do projeto, de modo que a surpresa ocupa o lugar
que deveria ocupar a qualidade. Isto serve tanto para a inovação
tecnológica como para a formal. A qualidade essencial da arquitetura
é a identidade da obra, definida como conjunto de qualidades que
fazem que uma obra chegue a ser algo mais do que um amassilho de intenções
e desejos. Se uma obra de arquitetura chega a ter uma identidade própria
como universo ordenado – o que não é fácil
e nem óbvio – provavelmente será inovadora no sentido
estrito, porque a autêntica inovação é a que
afeta a configuração do edifício, não aquela
que se limita a renovar sua aparência.
aU O SENHOR DIZ QUE SE AS FACULDADES
FECHASSEM, A QUALIDADE DA ARQUITETURA SERIA MELHOR. POR QUE, EM SUA OPINIÃO,
AS escolas ESTÃO LEGITIMANDO A DECADÊNCIA DA ARQUITETURA?
Piñón As faculdades
começaram a legitimar a decadência da arquitetura no momento
em que assumiram o pós-modernismo sem advertir seu efeito perverso
sobre o que tratavam de ensinar. Agora assumem a redução
do arquitetônico ao midiático, sem explicar claramente que
grande parte do que preenche as revistas atualmente não tem nada
a ver com a arquitetura. O problema é que grande parte dos professores
não tem nenhuma alternativa senão oferecer a troca de modas
na qual se baseia a arquitetura dos últimos 40 anos. E eu diria
que nem são conscientes desse fenômeno.
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