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Entrevista

HELIO PIÑÓN
A DOUTRINA, A TEORIA E A PRÁTICA
PARA HELIO PIÑÓN, A INOVAÇÃO É IRRELEVANTE E A ADOÇÃO DO CONCEITO COMO CRITÉRIO DE AÇÃO, DESASTROSA

POR VALENTINA FIGUEROLA FOTO MARCELO SCANDAROLI



aU QUAL SERIA, ENTÃO, A METODOLOGIA PEDAGÓGICA IDEAL? O SENHOR A PRATICA?
Piñón
Não me atrevo a falar de metodologia a respeito de uma prática que de nenhum modo pode ser considerada científica e que, aliás, tem uma forte dose de intuição. De qualquer maneira, o procedimento que utilizo há duas décadas, e que ofereço a quem o considere razoável, é trabalhar com a arquitetura como material de projeto, ou seja, aliviar o aluno da necessidade de elaborar sua própria matéria-prima, tarefa para a qual não está preparado e, em vez disso, fazê-lo trabalhar com arquiteturas exemplares. Na realidade, a arquitetura sempre foi aprendida dos edifícios. Somente há 40 anos é que se trata de ensiná-la mediante conceitos, com os resultados que todo mundo conhece. Minha atitude diante da arquitetura é similar à que tinha Bach diante da música, quando recorria às melodias de Haendel, Vivaldi ou às suas próprias, tendo a obrigação de compor uma cantata semanal, em seu estágio de Kantor na igreja de Santo Tomás de Leipzig.

aU MUITOS ESTUDANTES DE ARQUITETURA E RECÉM-FORMADOS PERCEBEM O DISTANCIAMENTO ENTRE O DISCURSO DOS PROFESSORES E SUAS PRÁTICAS PROFISSIONAIS. COMO PROFESSOR, ARQUITETO E CRÍTICO, O SENHOR TRANSITA CONSTANTEMENTE PELOS ÂMBITOS PRÁTICO E TEÓRICO. COMO MANTÉM A COERÊNCIA NESSE PROCESSO EM UM MUNDO ONDE A ARQUITETURA É OBJETO DE CONSUMO?
Piñón
Manter a coerência entre dois universos que praticamente se ignoram – o da arquitetura e o de sua prática social – é impossível. Em todo o caso, pode-se manter a coerência pessoal, ou seja, entender a teoria como a intenção de resolver por meio da reflexão aquelas questões que não têm explicação mediante o sentido comum. E entender a prática como uma atividade comprometida com a representação da construção, e não com a materialização, a qualquer preço, de uma série de caprichos determinados pelo estado de ânimo.

aU NO EDIFÍCIO DA PREFEITURA DE BENISSA, EM ALICANTE, A MALHA ESTRUTURAL DO ESTACIONAMENTO FOI O PONTO DE PARTIDA PARA O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO. EXPLIQUE O PORQUÊ DESSA DECISÃO.
Piñón
Não. A malha estrutural não foi o modo de desenvolver o projeto entendido como concepção, senão o modo de começar a defini-lo como materialidade. Não creio que haja outro modo de fazê-lo, a não ser que o arquiteto seja tão irresponsável que não se importe com a baixa eficiência do estacionamento. De qualquer maneira, no Laboratório (de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona) nos acostumamos a trabalhar sobre uma pauta sistemática por razões tanto materiais quanto formais: na arquitetura moderna não se dispõe da garantia de sistematicidade proporcionada pelas ordens e pelos tipos clássicos da arquitetura classicista, de modo que se deve consegui-la com o projeto. Desde que tenhamos de escolher uma unidade modular, parece razoável utilizar uma retícula estrutural que, ajustando-se às medidas de um estacionamento, seja compatível com o resto das atividades do edifício.

aU EM SUA OPINIÃO, A ARQUITETURA DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, SOBRETUDO A DOS ÚLTIMOS 50 ANOS, É VISUALMENTE BANAL, E ISSO ESTARIA ASSOCIADO AO "ECLIPSE DO OLHAR". ESSE TERMO SE REFERE À PERDA DE CAPACIDADE VISUAL E ANALÍTICA DO ARQUITETO?
Piñón
Os arquitetos sabiam ao que se ater até os anos 70, quando dispunham de um modo de conceber, de elementos e critérios que atuavam como matéria-prima para os seus projetos. Assim se atingiu, em setores amplos da arquitetura internacional, um nível de qualidade excelente. O chamado Estilo Internacional alcançou seu ápice nestes anos. O abandono dos critérios de modernidade, sem dispor de outros valores para reposição, fez com que os arquitetos que liderassem "a reforma" propusessem o conceito como critério de ação e, ao mesmo tempo, como instância de verificação do projeto. No futuro, o conceito não só proporcionaria o estímulo do projeto, como também serviria para comprovar o resultado. Se o projeto se ajusta ao conceito que o provocou, tudo bem, caso contrário, tudo mal. Essa solução resultou muito cômoda para a maioria dos arquitetos, mas foi nefasta para a arquitetura. A renúncia da dimensão cognoscitiva do olhar deu possibilidades de projetar com certa confiança a pessoas não especialmente dotadas para a arquitetura, o que provocou uma modificação "de valores e de poderes" que pairam sobre a situação atual.

aU FALA-SE MUITO SOBRE ARQUITETURA ATUALMENTE, MAS O SENHOR NÃO CONSIDERA ISSO BOM. POR QUÊ?
Piñón
Faz 30 anos que a arquitetura se converteu em um elemento mais do consumo midiático e econômico. Por exemplo, há muito mais revistas do que há 40 anos, mas não conheço nenhuma que esteja tão bem considerada como algumas que havia quando comecei a carreira. O falar de arquitetura, nos termos em que se faz, tem, em parte, um efeito tranqüilizante sobre as consciências que inibe a capacidade crítica, tanto de arquitetos como de cidadãos e, por outro lado, cria a ficção de que a boa arquitetura é aquela sobre a qual se fala, o que não pode estar mais longe da realidade. Começarei a duvidar dos métodos para curar o câncer de próstata, por exemplo, quando os jornais e semanários os tratem com a freqüência – e a frivolidade – com que faz décadas se trata a arquitetura.

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