aU QUAL SERIA, ENTÃO, A METODOLOGIA
PEDAGÓGICA IDEAL? O SENHOR A PRATICA?
Piñón Não me
atrevo a falar de metodologia a respeito de uma prática que de
nenhum modo pode ser considerada científica e que, aliás,
tem uma forte dose de intuição. De qualquer maneira, o procedimento
que utilizo há duas décadas, e que ofereço a quem
o considere razoável, é trabalhar com a arquitetura como
material de projeto, ou seja, aliviar o aluno da necessidade de elaborar
sua própria matéria-prima, tarefa para a qual não
está preparado e, em vez disso, fazê-lo trabalhar com arquiteturas
exemplares. Na realidade, a arquitetura sempre foi aprendida dos edifícios.
Somente há 40 anos é que se trata de ensiná-la mediante
conceitos, com os resultados que todo mundo conhece. Minha atitude diante
da arquitetura é similar à que tinha Bach diante da música,
quando recorria às melodias de Haendel, Vivaldi ou às suas
próprias, tendo a obrigação de compor uma cantata
semanal, em seu estágio de Kantor na igreja de Santo Tomás
de Leipzig.
aU MUITOS ESTUDANTES DE ARQUITETURA
E RECÉM-FORMADOS PERCEBEM O DISTANCIAMENTO ENTRE O DISCURSO DOS
PROFESSORES E SUAS PRÁTICAS PROFISSIONAIS. COMO PROFESSOR, ARQUITETO
E CRÍTICO, O SENHOR TRANSITA CONSTANTEMENTE PELOS ÂMBITOS
PRÁTICO E TEÓRICO. COMO MANTÉM A COERÊNCIA
NESSE PROCESSO EM UM MUNDO ONDE A ARQUITETURA É OBJETO DE CONSUMO?
Piñón Manter a coerência
entre dois universos que praticamente se ignoram – o da arquitetura
e o de sua prática social – é impossível. Em
todo o caso, pode-se manter a coerência pessoal, ou seja, entender
a teoria como a intenção de resolver por meio da reflexão
aquelas questões que não têm explicação
mediante o sentido comum. E entender a prática como uma atividade
comprometida com a representação da construção,
e não com a materialização, a qualquer preço,
de uma série de caprichos determinados pelo estado de ânimo.
aU NO EDIFÍCIO DA PREFEITURA
DE BENISSA, EM ALICANTE, A MALHA ESTRUTURAL DO ESTACIONAMENTO FOI O PONTO
DE PARTIDA PARA O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO. EXPLIQUE O PORQUÊ
DESSA DECISÃO.
Piñón Não.
A malha estrutural não foi o modo de desenvolver o projeto entendido
como concepção, senão o modo de começar a
defini-lo como materialidade. Não creio que haja outro modo de
fazê-lo, a não ser que o arquiteto seja tão irresponsável
que não se importe com a baixa eficiência do estacionamento.
De qualquer maneira, no Laboratório (de Arquitetura da Escola Técnica
Superior de Arquitetura de Barcelona) nos acostumamos a trabalhar sobre
uma pauta sistemática por razões tanto materiais quanto
formais: na arquitetura moderna não se dispõe da garantia
de sistematicidade proporcionada pelas ordens e pelos tipos clássicos
da arquitetura classicista, de modo que se deve consegui-la com o projeto.
Desde que tenhamos de escolher uma unidade modular, parece razoável
utilizar uma retícula estrutural que, ajustando-se às medidas
de um estacionamento, seja compatível com o resto das atividades
do edifício.
aU EM SUA OPINIÃO, A ARQUITETURA
DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, SOBRETUDO A DOS ÚLTIMOS 50 ANOS,
É VISUALMENTE BANAL, E ISSO ESTARIA ASSOCIADO AO "ECLIPSE
DO OLHAR". ESSE TERMO SE REFERE À PERDA DE CAPACIDADE VISUAL
E ANALÍTICA DO ARQUITETO?
Piñón Os arquitetos
sabiam ao que se ater até os anos 70, quando dispunham de um modo
de conceber, de elementos e critérios que atuavam como matéria-prima
para os seus projetos. Assim se atingiu, em setores amplos da arquitetura
internacional, um nível de qualidade excelente. O chamado Estilo
Internacional alcançou seu ápice nestes anos. O abandono
dos critérios de modernidade, sem dispor de outros valores para
reposição, fez com que os arquitetos que liderassem "a
reforma" propusessem o conceito como critério de ação
e, ao mesmo tempo, como instância de verificação do
projeto. No futuro, o conceito não só proporcionaria o estímulo
do projeto, como também serviria para comprovar o resultado. Se
o projeto se ajusta ao conceito que o provocou, tudo bem, caso contrário,
tudo mal. Essa solução resultou muito cômoda para
a maioria dos arquitetos, mas foi nefasta para a arquitetura. A renúncia
da dimensão cognoscitiva do olhar deu possibilidades de projetar
com certa confiança a pessoas não especialmente dotadas
para a arquitetura, o que provocou uma modificação "de
valores e de poderes" que pairam sobre a situação atual.
aU FALA-SE MUITO SOBRE ARQUITETURA
ATUALMENTE, MAS O SENHOR NÃO CONSIDERA ISSO BOM. POR QUÊ?
Piñón Faz 30 anos
que a arquitetura se converteu em um elemento mais do consumo midiático
e econômico. Por exemplo, há muito mais revistas do que há
40 anos, mas não conheço nenhuma que esteja tão bem
considerada como algumas que havia quando comecei a carreira. O falar
de arquitetura, nos termos em que se faz, tem, em parte, um efeito tranqüilizante
sobre as consciências que inibe a capacidade crítica, tanto
de arquitetos como de cidadãos e, por outro lado, cria a ficção
de que a boa arquitetura é aquela sobre a qual se fala, o que não
pode estar mais longe da realidade. Começarei a duvidar dos métodos
para curar o câncer de próstata, por exemplo, quando os jornais
e semanários os tratem com a freqüência – e a
frivolidade – com que faz décadas se trata a arquitetura.
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